Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sábado, 24 junho de 2017

BAZAR PAI JOÃO, UMA TRADIÇÃO DE 50 ANOS DE UMBANDA

Não tem umbandista que não conheça o Bazar Pai João. São 50 anos de atividades ininterruptas bem no centro de Curitiba, ali na Rua Alfredo Bufren, 46, pertinho da UFPR e de outras referências da velha Curitiba, que aos poucos vai deixando de existir.

Mas o Bazar Pai João é uma “entidade” de resistência e continua a oferecer atendimento personalizado, quantidade e qualidade de produtos para qualquer umbandista poder fazer seus trabalhos e qualquer outra que a religião exija.

E no comando está um sujeito aguerrido, que vive para servir aos seus clientes da melhor forma possível, e que faz questão de conhecer bem a Umbanda, não só por estudos, mas na prática também. Pois, como já dissemos, são 50 anos de experiência.

SEU “LÉO” DO BAZAR PAI JOÃO
“O bazar é a minha vida. Tudo, mas tudo mesmo, na minha vida está relacionado a Umbanda”, conta Léo André Andretta, proprietário do “estabelecimento” desde 1977, e que conversou com o TPM no dia 6 de maio, uma sexta-feira chuvosa.

Mas a história começa alguns anos antes com o pai do seu Léo. “O meu pai comprou a loja em 1967. Ele teve que deixar a ‘praça’, como chamavam os taxistas na época, por causa da saúde. Vendeu o ‘ponto’ e uns terrenos e ficou com o bazar, que funcionava mais pra baixo, aqui mesmo nessa rua”, recorda Léo.

 

Foi por intermédio dos amigos da “praça” que o pai, o seu Izoaldo Domingos Andretta, conheceu a Umbanda. “Eu sei que ele frequentava um terreiro que tinha na (Rua) Marechal e depois outro que funcionava no Alto da XV. Tudo começou com a ‘mesa branca’ e só depois na Umbanda”, lembra.

Léo também tem memórias engraçadas do pai umbandista. “Eu sei que ele se ‘enchouriçava’ todo porque ele recebia uma preta-velha na gira e ela queria que ele usasse vestido. É claro que ficava constrangido ainda tinha muito machismo naquela época. Mas melhorou hoje? ”, questiona.

Com o pai “encostado”, que pra época significava se aposentar, o seu Léo passou a frequentar a loja desde os nove anos de idade. “Ele e a minha mãe se desentenderam e que acabei assumindo a loja a partir de 1973 e depois passou pro meu nome em 1977. Tudo para ficar bem para todos”, conta.

Funcionando no mesmo local há tanto tempo o Bazar Pai João transformou-se numa referência para os praticantes da religião e um ponto de encontro pra os praticantes de vários terreiros de Curitiba e Região Metropolitana. “Sempre atendi todos. Sem distinção. E sem querer misturar as coisas”, explica o vendedor carismático.

IMAGEM DO PAI JOÃO
Léo diz que a maior referência sempre foi a imagem, quase em tamanho natural do preto-velho com cachimbo na mão sentado no toco que ficava à porta da loja. “Até que um dia um bêbado derrubou e quebrou a cabeça. Tive que restaurar e agora fica nessa vitrine”, aponta mostrando a imagem do Pai João.

O bazar tem entre 2,5 e 2,7 mil itens à disposição dos fregueses. “Temos tudo para o umbandista”, garante. “São mais de 300 tipos de velas, por exemplo, com mais de 14 cores, tamanhos variados e para tudo que é tipo de uso”, explica. Além das velas, vende-se roupas, livros, incensos, defumadores, imagens, charutos, pembas ponteiros e muito mais. “É artigo que não falta”.

MARCO CONTRA O PRECONCEITO
Léo diz que o preconceito sempre existiu, mas que nunca foi vítima de algum ataque mais sério. “Nada grave. Passavam, ainda acontece às vezes, gritando umas besteiras. Até cuspiam, mas hoje em dia é raro. As pessoas respeitam mais”, afirma.

“O que me preocupa é o preconceito dentro da própria Umbanda. Esse negócio de querer dizer que aquele é melhor que o outro. Uma besteira. É só inveja. Isso eu não admito aqui”, diz. Foi nesse momento que ele lembrou do Pai Fernando de Ogum do Terreiro do Pai Maneco (TPM).

“O doutor (é assim que ele se refere) Fernando é um baluarte da religião. Sempre pregou o respeito entre todos e promoveu a Umbanda para todos, sem preconceito”, recorda Léo. “Ele ajudou muito a acabar com a ignorância”, diz. “Nós nos conhecemos ainda quando era lá na faculdade (Espírita) e ficamos amigos. Ele sempre vinha aqui. Eu perguntava e ele também pedia explicação. ”

Ele confessa que prefere não se comprometer com nenhum terreiro. “São todos meus amigos. Também não posso misturar as coisas. Já pensou na confusão”, brinca. “Mas vou tomar meus passes. Gosto de ir no Pai Maneco. Mas também vou em outros”. Se pedirem para ele indicar ele diz que indica. “Vai da cara da pessoa”.

PEDI PRO ‘SEU’ TRANCA RUAS
Uma das passagens que ele lembra envolvendo as entidades, depois de perguntado se já tinha presenciado algo “estranho” na loja, tem o seu Tranca Ruas como protagonista.

“Uma vez fui no terreiro da Dona Linda e consultei com o Tranca Ruas que ela estava incorporada. Daí nem sei o porquê eu disse: pai eu gostaria, com a sua permissão, que o senhor aparecesse pra mim, assim na matéria”, conta. “Só sei que ele disse que se ele viesse como ele realmente é eu não ia parar de correr”.

Léo conta que insistiu, mas não obteve resposta. “Só sei que passou um bom tempo e um dia entrou na loja, já estava escuro, um senhor negro, de terno preto e camisa branca e disse ‘boa noite’ e pediu se tinha vela de tranca rua. Eu disse que não, mas que tava pra chegar. Só sei que o sujeito só disse que quando chegasse ele minha buscar”, recorda.

“Passou, sei lá, algumas semanas, e eu voltei na Dona Linda, também num dia de esquerda. Sentei na frente dela e a entidade falou: ‘cadê a minha vela de tranca rua? ’ Foi aí que me arrepiei. Era o seu Tranca naquele dia”.

E assim acabou a conversa com o Léo, o homem do Bazar Pai João, a mais antiga e tradicional loja de produtos para Umbanda de Curitiba e Região.

SERVIÇO

ENDEREÇO:
Bazar Pai João
Rua Alfredo Bufren, 46 - Centro
(41) 3224-6118
HORÁRIO:
Das 8 horas às 19h30

 

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