Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 28 março de 2017

Maria

por Sheila Riekes (maio 2004)

Conheci, ao longo da vida, muitas Marias, e aprendi, desde cedo, a recorrer aquela que nos é apresentada como mãe de Jesus.

Outras Marias passaram por mim, mas uma, em especial, tem chamado minha atenção desde que julguei ser capaz de trilhar os caminhos da Umbanda. Quem passa por ela e a vê ali, sentada, quase imóvel, pode questionar qual o signicado da presença daquela velha senhora; pergunta que é imediatamente respondida se nos detivermos a observá-la. Para que possamos entendê-la, é preciso
olhar para ela não com os olhos de “ver”, mas com os olhos do “sentir”.

Sua figura compacta, solene, forjada em barro; maleável pelos anos vividos, mas inexível em sua crença, é um dos alicerces, talvez o mais profundo e sólido, que ajudam a manter de pé a integridade do Terreiro do Pai Maneco.

De uma rudeza branda, um azedume doce, dona de enormes mãos protetoras, das quais eu não gostaria de sentir o peso, é mais do que sentinela é sim guardiã de todos nós. Para obter uma palavra de carinho, basta se aproximar; para compartilhar sua sabedoria, basta querer e saber ouvir. Não há um o de cabelo sequer em desalinho em sua cabeça, mesclada pelos tons que a sabedoria lhe confere aos poucos; não há um fio de conduta em desalinho em sua vida.

A inesgotável energia que doa, o olhar determinado, a postura que não denota cansaço e a seriedade com que desempenha o papel para o qual foi designada, fazem dela um exemplo a ser seguido e respeitado. “Quantos anos nos separam?” - perguntou ela ao me revelar seus inacreditáveis 84 anos. Fiquei então envergonhada de revelar, não a idade que tenho, mas a idade que estava carregando.

Mulher de poucas, mas sábias palavras, sempre ouço um bom conselho ao conversar com ela e abro bem meus ouvidos quando fala, senão posso car no meio do caminho e perder o o da meada. “Aprenda uma coisa, lha, eu não sou melhor do que ninguém, mas ninguém é melhor do que eu! ” Coisa para se pensar!

Enquanto muitos falam sobre tudo e todos, guarda silêncio sobre o que ouve e vê, e não há de ser pouca coisa! “Venho aqui para trabalhar e não para saber da vida dos outros. Quando saio de casa, saio preparada para aquilo que devo fazer e nada me afasta disso”, me disse certa vez.

Não julga, não tece críticas, não compara. Não se envaidece com elogios e não os faz à toa. A flha de Xangô tem a justiça estampada nos olhos. A justiça de quem já viveu o suciente para atenuar nossos enganos, mas que surpreende os que desejam dela complacência ao persistir no erro. Espera dos outros menos do que exige de si própria.

Austera e sóbria, de comportamento quase espartano, tem a seu favor a elegância da simplicidade e a sensatez dos que já experimentaram a vida.

Quando a vejo trabalhando, tenho certeza do que é a solidez da fé. Exemplo de dedicação, é dela que lembro se o cansaço me faz querer car pelo meio do caminho, pois tenho certeza de que estará sempre lá, de corpo e alma. Não faz guração, é protagonista.

E é por ela que meus olhos procuram ao início de cada gira, como a buscar o norte, e se a bússola do meu bom senso se desnorteia, sei que onde ela está, é para onde devo ir. Tenho tido o privilégio de compartilhar de sua atenção, amizade e seu afeto, o que não a impede de me censurar, caso ache necessário: “Cone sempre em você, mais do que nos outros, tudo o que se faz com conança dá certo”.

Ao rogar sua benção, sei que sou agraciada com a luz que doa, indistintamente, mesmo aos que não pedem. Ao escrever sobre ela, não lhe presto homenagem alguma, pois sei que é ela quem nos homenageia, noite após noite, com sua conduta cheia de sabedoria e dedicação. Ela não precisa mais estar lá, nós é que precisamos de sua presença.

Apenas o faço como agradecimento e retribuição, pelo muito que tem feito por essa casa e a cada elo de sua corrente, ao nos mostrar, com seu exemplo, qual o caminho certo a seguir, sem tropeços, sem enganos, sem dúvidas. Para poucos o branco cai tão bem, branco da paz, branco da sobriedade, branco da retidão de caráter.

De todas as Marias que tem passado pela minha vida, com certeza é desta que guardarei os maiores ensinamentos e as melhores lembranças.

Obrigada, dona Maria!

Editorias: Homenagem.