Cruzamento | Pai Lourenço de Ogum

Estive desde sexta no cruzamento do Lolô, pessoal. A camarinha foi uma experiência muito, muito forte e eu queria dividir com vocês um pouco do que pensei e senti.
A coisa de passar uma noite inteira acordada cantando pontos e fazendo amalás, preparando o cruzamento com um grupo de gente repleta de amor pelo Pai de Santo que estava nascendo, é impactante.
A privação do sono e o cansaço do corpo nos leva a um estado alterado de consciência, que num contexto de ritual religioso nos força a algumas reflexões e a algumas sacadas.
Nossa umbanda, meu povo, não é uma religião. Não como sê vê religiões amiúde. Seu Arruda costuma dizer que a Umbanda é uma metáfora do mundo. Acho que ele está certo.
A Umbanda é uma forma de entendermos que cada elemento dos nossos dias, cada comida que preparamos, cada flor que colhemos e arrumamos na nossa casa é uma manifestação ritual do divino.
Na sexta a noite tínhamos um querido nosso que seria feito Pai de Santo.
Mãe Lucília, junto com os Padrinhos Cris Mendes e Jussaro, recolheu-o e o deixou deitado numa esteira de palha no chão mais santo que há dentro do Terreiro, no Roncó dos Pais de Santo.
Naquele momento aquele homem Lourenço voltou a ser um feto. A ser gestado no útero do Terreiro.
Ele ficou recluso por doze horas, crescendo, formando sua coroa e transformando sua espiritualidade na forma que ela precisa ter para dirigir outros seres.
Nós íamos cozinhando cada comida. Fogo, alimentos da terra, temperos, líquidos, canto, engoma. E amor. Sim, porque é pesado, difícil, e só amor seria capaz de nos fazer perseverar.
Cada entrega pronta implicou na retirada do Lourenço do Roncó: rapidamente ele era defumado, sua coroa era lavada com as ervas do Orixá, ele experimentava a comida que foi preparada para o amalá, de modo respeitoso e sagrado, e era recolhido novamente. Cantávamos e tocávamos o tempo todo. Sete vezes.
Como uma criança sendo nutrida no útero da mãe, Lourenço era nutrido para crescer Pai de Santo.
Horas se passaram. E se viesse desânimo, a engoma transmutava em ânimo.
Às seis horas acabamos nosso trabalho, as entregas enfeitavam o salão do Terreiro. O sol raiou rosa e laranja, vinha lá dos lados de Colombo. O Pai em formação poderia brevemente descansar. E nós silenciamos para aguardar o cruzamento que logo aconteceria.
Na manhã, às dez horas, Mãe Lucília foi buscar seu primo mais novo, o guri que recolheu no Roncó. Iniciou o parto. O Terreiro pariu um novo dirigente. Ele nasceu de novo, não mais um guri, mas um Pai.
Eu prestei muita atenção no solo neste processo todo. Esse solo, matéria que nos deu os ingredientes dos amalás, sementes, frutas. Água do cozimento e dos banhos. Deu ervas e temperos. O chão que assentou os pés dos atabaqueiros e os seus atabaques. Chão sobre o qual depositamos cada uma das entregas. Solo sobre o qual os pés da Mãe de Santo passaram, levando o guri ao roncó e depois retirando o Pai de Santo. Chão sobre o qual descansou Lourenço.
No ritual da manhã os espíritos iam incorporando quando cada entrega era acesa. Um por um. O fogo animava a matéria. O espírito vinha à terra abençoar o parto.
Ao final o Pai de Santo recebeu sua guia de sete fios, que aos meus olhos pareceu nesta hora não a ligação do homem ao divino. Mas o assentamento de sua coroa na terra.
Umbanda eh feita de terra, gente. É o divino do planeta que traduzimos em ritual. Nao é religião. É muito mais que isso.
Axé, Pai Lourenço, que seus pés caminhem pelos melhores caminhos possíveis e que os seus filhos sejam felizes seguindo seus passsos.
Obrigada por me deixar ser testemunha deste parto!

Texto: Carolina Wanderley


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