Alimentação durante o preceito

Texto da médium Taísa Cristina:

Quando decidi vestir o branco da Umbanda, tinha consciência de que, juntamente àquele traje, vinham tradições, regras e preceitos, incluída, aí, a preparação para a participação na gira: não ingerir bebida alcoólica ou fumar, não praticar ato sexual, não comer carne animal de qualquer tipo e evitar palavras, pensamentos e atos ruins um dia antes da sua realização. Restrições estas quase todas fáceis de se compreender: bebida alcoólica e tabagismo alteram nosso estado de consciência e funções psíquicas; ato sexual envolve troca intensa de energia com outra pessoa, o que poderia nos desequilibrar, bem como as palavras e atos negativos. Mas, e a carne? E por quê, diferentemente de vários outros terreiros, a restrição inclui todo tipo de carne, e não somente a vermelha?

Pesquisando o site do TPM não encontrei a motivação para se exigir uma restrição a carnes mais abrangente que a comumente adotada. Li e reli uma entrevista de 2013 [1] com a Mãe-pequena Camila Guimarães, que esclarece que o preceito proporciona ao médium “relação estreita com os espíritos, além do que ajuda a manter a energia equilibrada para o bom desenvolvimento do trabalho”. Tal explicação direciona o foco para a linha em que o preceito busca atuar: a energética. Porém nela não é exposta a motivação, efeitos esperados de modo objetivo e por que eles aconteceriam. Foi quando entrei em contato com a Mãe Lucília que, também instigada, acionou a Mãe Eli, estudiosa da Umbanda.

Em seus estudos, a Mãe Eli não encontrou consenso sobre o consumo de carne animal, vermelha ou de outro tipo, antes dos trabalhos espirituais ou mediúnicos. Constatou que essa proibição pode estar ligada a questões culturais, de crença religiosa ou também aos primeiros estudos e interpretações sobre os benefícios e malefícios que a carne pode provocar. Seguem algumas explicações por ela levantadas:

  • em grupos de debate de Pais e Mães de Santos, nota-se que muitos deles não proíbem o consumo da carne, desde que o façam em pequena quantidade; além disso, há citações no Livro dos Espíritos[2] e em entrevistas do Chico Xavier e do Divaldo Franco, sem nenhuma severidade sobre o assunto – inclusive Chico Xavier era carnívoro. Já outros Pais e Mães de Santo alegam que [o consumo de carne] atrapalha a circulação do fluído vital, chacras, etc, mencionando, alguns, as enzimas e a adrenalina que permaneceriam na carne pelo abate.
  • médicos (nutrólogos e nutricionistas) informam que o consumo deve variar conforme a constituição física, organismo, idade e gasto energético de cada indivíduo; mencionam, ainda, algumas doenças relacionadas ao consumo excessivo de carnes, como problemas cardíacos, pressão alta, Diabetes Mellitus tipo 2, etc, e reforçam que o consumo ou não sempre deve ser acompanhado de orientação médica.
  • André Luiz (espírito) recomenda alimentação leve e explica o porquê: Quando a digestão é difícil e trabalhosa, consome muita energia, impedindo a função clara e rápida do pensamento quando se precisa de segurança e leveza para os trabalhos e para ação rápida, principalmente nas atividades de desobsessão”. Ele desaconselha, ainda, o fumo e o álcool, por causarem malefícios semelhantes.
  • provocação de fadiga: se, ao consumir carne, a pessoa sente cansaço ou preguiça, pode ser que o organismo não esteja digerindo bem a carne; além disso, quando uma pessoa está cansada, com preguiça, estressada ou com sono, ela fica lenta e com o pensamento confuso; sua tomada de decisão e suas ações ficam comprometidas.

Ao ler as respostas encontradas pela Mãe Eli, fiquei intrigada com a menção aos chacras (centros de energia em nossos corpos), e fui pesquisar mais em alguns fóruns sobre Budismo. Encontrei num fórum uma explicação interessante sobre consumo de carne versus ativação do “terceiro olho”, o sexto chacra principal. O texto era mais ou menos assim:

“O terceiro olho é ativado pela energia do fogo (kundalini). Esta ascende através do sistema espiritual ativando cada chacra de baixo para cima. Portanto, o terceiro olho é o penúltimo chacra principal a ser ativado, o que significa que ele requer uma grande quantidade de energia para ser atingido naquela altura.

Alimentos pesados, como a carne animal, levam tempo para serem queimados e utilizam a kundalini para tal, restando menos energia para subir até o topo do corpo. Grãos e vegetais queimam-se mais rapidamente, permitindo que a kundalini alcance o topo do sistema.

Este é o motivo pelo qual o jejum é tão frequentemente utilizado em rotinas espirituais. Quando o estômago não tem nada para queimar, a kundalini pode transitar melhor e mais rapidamente pelo sistema. Isto faz com que as emoções aflorem e a compaixão cresça em nossa personalidade.

Isto tudo é muito interessante para intelectuais (‘racionais’). Já as pessoas muito ‘criativo-emocionais’ precisam fazer o possível (incluindo uma dieta rica em proteína) para evitar o excesso de kundalini, o que poderia levá-los à insanidade.”  Mischa Alyea, Mystic [3] .

No mesmo fórum, outras pessoas consideravam que o bloqueio para a ativação do sexto chacra central se daria pela “mácula” que a violência contra o animal provocaria em quem dele se alimenta. No entanto, algumas escolas de Budismo esclarecem que Buda permitia que os monges comessem carne, desde que não fossem mortos em sua intenção. Neste caso, a violência, bem como enzimas e hormônios produzidos durante o abate, estariam presentes da mesma forma, o que enfraqueceria este argumento.

    Prosseguindo, como a Mãe Lucília comentou que o Pai Fernando mencionava bastante a Kundalini, resolvi me aprofundar um pouco mais no tema dos chacras no âmbito do Espiritismo. Nele entende-se que, “além de funcionar como centros de controle, os chacras trabalham como centros de permuta entre as dimensões física, astral e causal. Por exemplo, através dos chacras, a energia sutil das dimensões astral e causal podem ser transformadas em energia para a dimensão física. (…) Os chacras podem operar a conversão de energia física em energia sutil, bem como em energia mental dentro da dimensão física. Os chacras funcionariam: como centros de transferência e conversão de energia entre duas dimensões vizinhas; como conversor de energia entre o corpo físico e a mente. A ativação e despertamento dos chacras permitiria o conhecimento e a entrada em dimensões mais altas, conferindo poder para suportar e dar vida às mais baixas dimensões.” [4]

Em acréscimo a isto, a Kundalini seria uma força em espiral que descansa no chacra básico (“muladhara”) e que, quando despertada, sobe ao longo da espinha, ativando sequencialmente os chacras centrais até alcançar o coronário, produzindo uma transformação de consciência intensa no indivíduo. Praticantes de algumas escolas de Yoga, por exemplo, buscam enviar esta energia acumulada no chacra básico até o cérebro, para que se transforme em “Oja”, a forma mais elevada de energia, segundo suas crenças [5].

    Considerando-se, portanto, as informações levantadas, principalmente no que se refere a chacras e estado de consciência, nota-se uma convergência de ideias no sentido de que uma alimentação mais leve permitiria um melhor fluxo de energia através dos centros de energia do corpo do médium até os chacras mais altos, possibilitando o alcance de um nível de consciência mais elevado e, consequentemente,  de maior crescimento pessoal e maior chance de auxiliar na evolução dos espíritos e da assistência, que conta com os conselhos das entidades. Deste modo, seria interessante não somente evitar a ingestão de carnes, mas, também, evitar excessos que possam estagnar a energia nos chacras mais baixos do corpo. E, principalmente, que cada médium faça seus próprios testes e verifique que tipo de alimentação – e em que quantidade – lhe proporciona maior conforto e afinidade com as entidades que com ele trabalham. Meditações, prática de auto-observação em silêncio, exercícios de autoconhecimento e outros artifícios semelhantes que produzem neutralidade, tranquilidade e paz de espírito ao médium também são interessantes.

    Claramente este assunto não se esgota aqui. Para entendimento inicial sobre chacras, sua ativação e bloqueio, recomendo os vídeos [6], [7] e [8], que utilizam uma linguagem agradável nas explicações e metáforas (o último, inclusive, é trecho de um desenho animado, porém de ensinamentos bem aproveitáveis). E, por fim, se você tem algum relato que considere interessante a respeito do tema, convido-o a comentar aqui ou a enviar seu texto para ser publicado como artigo no site do TPM. Sua experiência pode ajudar a outros médiuns e enriquecer os estudos do Terreiro 😉

Saravá,

Taísa Cristina.

Referências:

[1] Entrevista de 2013 com a Mãe-pequena Camila Guimarães sobre preceito – acesso em agosto/2018:
    https://www.paimaneco.org.br/2013/10/21/preceitos/

[2] Livro dos Espíritos, Allan Kardec, 1860

[3] Discussão no Fórum Quora sobre ingestão de carne versus ativação do terceiro olho (sexto chacra central) –  acesso em agosto/2018 – inglês:
    https://www.quora.com/Does-eating-meat-dim-third-eye-perception-and-if-so-Can-you-explain-how

[4] Compilação sobre corpos espirituais e chacras no Espiritismo – acesso em agosto/2018:
    http://www.acasadoespiritismo.com.br/saude/saudeeespiritismo/4%20perispirito%20e%20chacras.htm

[5] Definição de Kundalini na Wikipedia (mais completa na versão em inglês) – acesso em agosto/2018:
    https://en.wikipedia.org/wiki/Kundalini / https://pt.wikipedia.org/wiki/Kundalini

[6] Vídeo explicativo sobre os 7 chacras centrais – acesso em agosto/2018:
    https://www.youtube.com/watch?v=CYtXf4wDOBg

[7] Vídeo sobre Chacras e Kundalini – acesso em agosto/2018:

https://www.youtube.com/watch?v=cwOif9hT7LA (possui alguns erros ortográficos e semânticos na legenda, porém não atrapalham o entendimento)

[8] Trecho do desenho animado Avatar sobre ativação e bloqueio de chacras  – acesso em agosto/2018:
    https://www.youtube.com/watch?v=eRukzTMSTnc

 

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