OXUM: as águas doces e a vida na Terra

Aiê-iê Mamãe Oxum

Dê-me água para beber

Tenho sede de esperança

Tenho sede de aprender

(Canto para Oxum – domínio público)

Prece a Oxum, música de Fernando Deghi, emocionou quem estava na gira de segunda-feira, dia 11 de junho de 2018. A viola do artista, entre outros atributos, me proporcionou a necessária coragem para tentar organizar a recente atenção que dedico a Oxum: mãe protetora, deusa da fertilidade e das riquezas, sereia das praias de rio, Iara das águas doces.

Para além do estrito sentido adquirido na Umbanda, as águas dos rios, na civilização ocidental, são permeadas por forte simbolismo. Para o pré-socrático Heráclito, não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio, pois mudamos nós e muda também o rio. Desde a antiguidade clássica, o mito de Narciso e sua relação com a admiração de seu reflexo no espelho d’água, foi mote de profundas reflexões, especialmente com a psicanálise freudiana.

A relação entre a imagem especular e o reflexo na água, o mergulho ou a possível viagem a outras dimensões é uma constante nos estudos antropológicos. Para Fernando Guimarães (2004), o fato de o espelho ser um dos elementos de Oxum, revela o poder mágico do objeto, pois, se seu uso fosse vinculado à vaidade, as manifestações da Orixá não seriam provenientes de espíritos

superiores. O espelho, segundo nosso Pai de Santo, aumenta o campo de energia dos trabalhos realizados, bem como proporciona a possibilidade de conhecermos o inverso das coisas e situações. Isto é: com a observação de meu rosto no espelho, passo a conhecer aspectos ignorados de meu próprio ser.

Na compilação que Reginaldo Prandi (2015) realiza sobre as diferentes histórias oriundas das mitologias africanas, Oxum, entre outras definições, desponta como uma bela jovem que convence Ogum a retomar seu trabalho de forjar o ferro, é a filha mimada de Iemanjá que salva a humanidade com sua dança de amor. A riqueza das narrativas ancestrais, contudo, transcende o foco da questão, pois a música de Degui e os estudos que tenho realizado seguem uma visada mais prática e atual. A canção de Degui é um ato de louvor, de homenagem à Orixá das águas doces. Minha preocupação, desde que há alguns anos ouvi o som das turbinas de Itaipu, reside na indagação das condições da presença de Oxum em nosso plano de existência atual.

Passei a prestar mais atenção em Oxum quando voltei a morar com minha mãe e quando a Cris Cabral começou a me cambonear. As duas são filhas da Orixá: elegantes e organizadas, têm forte intuição para o que é bom e sabem fazer respeitar seu espaço. Em 2017, por interesses acadêmicos, escrevi sobre o filme Apocalypse Now, de Coppola; hoje estudo a instalação criada para o disco de vinil RiooiR, de Cildo Meireles[1]. As duas acontecem em rios.

No filme[2], o rio é o lugar do aprendizado da sobrevivência humana na selva. Com o disco[3], descobri que o som dos rios revela mais um dos problemas socioambientais nacionais. Ao adotar o palíndromo da palavra rio como base do trabalho (oir significa ouvir em espanhol) o artista realizou uma expedição para as Cataratas do Iguaçu, a região das Águas Emendadas em Goiás, a pororoca no Amapá e a foz do São Francisco. Descobriu que a vazão do São Francisco diminuiu em oitenta por cento (muito em função das hidroelétricas) e que a maior parte das nascentes de Goiás, que dão origem às três grandes bacias hidrográficas brasileiras estão comprometidas, seja pela construção de hotéis ou outros tipos de poluição ambiental.

No documentário da expedição “RiooiR: uma escultura sonora de Cildo Meireles”, realizado por Marcela Lordy, descobre-se ainda que, se nada for feito, em pouco tempo todas as águas serão residuárias, isto é, terão passado por algum tipo de intervenção humana. Diferentemente da relação que temos com o mar, fonte de alegria e prazer, as cidades costumam voltar suas costas para os rios, que passam a ser lugares de despojos e de abandono. Espécie de sistema circulatório do planeta, os rios são fundamentais para o equilíbrio e a qualidade da vida.

Diante deste quadro quase apocalíptico, creio que, quando cantamos para Oxum, ou quando invocamos sua força nos trabalhos de Umbanda, não estamos apenas criando uma força para suprir nossas necessidades pessoais ou humanas. Penso que o clamor à Orixá repercute também na possibilidade de sua valorização para além de nossa imaginação. Trabalharíamos, portanto, na ampliação do campo mágico que lhe é específico, na conscientização da importância das águas cristalinas e na eventual reversão deste descaso para com nossos recursos naturais. Através de seu culto, rogamos por uma nova sociedade, comprometida com o cuidado e a manutenção da natureza. A prece do nosso irmão de corrente, portanto, mais do que um pedido de forças, é uma homenagem à Orixá das águas doces, sem a qual não há vida no planeta. Que possamos todos, assim como Guimarães Rosa, compreender um pouco mais sobre a vida nos rios, encontrando, cada um de nós, a nossa própria terceira margem, lugar de subjetivação e poesia.

Cristina Mendes

Junho de 2018.

 

Referências:

GUIMARÃES, Fernando. Grifos do Passado. Curitiba: Ed. do Autor, 2004.

PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

[1] No filme, o capitão Willard, interpretado por Martin Sheen, sobe um rio no Vietnam, com a missão de matar o Coronel Kurtz, interpretado por Marlon Brando. No disco de vinil, o lado A tem sons de rios e o B de risadas.

[2] O filme é inspirado no romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad.

[3] A gravação do disco pode ser mais bem compreendida no site do Itaú Cultural e no documentário da expedição.

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