PACIÊNCIA E AMOR: um pedido de Xangô – Por Mãe Cris Mendes

Compositor de destinos

Tambor de todos os ritmos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Entro num acordo contigo

Tempo, tempo, tempo, tempo

Caetano Veloso

 

Há mais de vinte e cinco anos trabalho com entidades de Ogum e Oxóssi; conheço a necessidade da luta e o valor da alegria para a cura física, mental e espiritual. S. Tucunauê, forma abreviada de Tucunuú-Auê, entidade que recebo na linha de Ogum, é sério e decidido; o Caboclo Rompe Mato, com quem trabalho na linha de Oxóssi, é ligeiro e valoriza a alegria.

Por decisão de Lucília Guimarães, dirigente do TPM, há cerca de dois anos, os médiuns foram convocados a alternar as incorporações de caboclos: quem trabalha com Oxóssi em uma gira, na próxima trabalha com Xangô. Deparo-me com o desconhecido diante da incorporação de algum Caboclo de Xangô. Depois de várias giras ele se identifica por Caboclo Pedra Brilhante, entidade que alguns médiuns no Terreiro já recebem. Fico tranquila, pois assumo que ele realmente existe: é sempre bom cotejar nossas experiências e percepções com o entorno, a fim de compreender melhor os processos de aprendizagem na Umbanda.

Pai Fernando costumava tecer advertências acerca dos pedidos feitos para Xangô, lembrando de que nem sempre conseguimos enxergar a amplitude da justiça espiritual e que rogar por justiça pode resultar em coisas que nem imaginamos. Talvez em função disso, ou do sincretismo com o irado Moisés e o sério São Jerônimo, ou ainda graças ao meu amor por. S. Tucunauê e S. Rompe Mato, pouco invocava a força de Xangô.

Na última gira, S. Pedra Brilhante discorreu sobre as características do Orixá cuja energia é vinculada às pedras, evidenciando a capacidade de observação e a paciência. Disse que para brilhar foi muito lapidado e acariciado. Lembrou que a vida pétrea se aproxima daquilo que os humanos conseguem imaginar como eternidade e explica: diante de uma rocha, as árvores são passageiras. Pensar e vivenciar o tempo, portanto, é uma das abrangências da energia de Xangô. Tempo distinto da mera cronologia, contudo, afeito à durée bergsoniana, que tem a memória e a consciência como instrumentos da percepção.

Apenas para identificar a complexidade de tal conceito, lembro que, na Grécia Antiga havia dois termos para designar a percepção temporal: Cronos, o tempo cronológico e quantitativo; Kairós o tempo oportuno, qualitativo. Passo a pensar em Xangô em termos de um tempo mais abrangente, que se relaciona com a percepção e as experiências subjetivas.

Exercitar a paciência foi o pedido da entidade, afirmando que isso serve para todos. Segundo ele, precisamos ter paciência com amor. Um amor que se dirija para a vida em geral, e não para seres em particular, uma paciência que impeça a tomada de decisões apressadas e seja pautada mais no ouvir do que no falar. Uma paciência de quem observa o mundo, meio que sem ter o que fazer, mas aprendendo o tempo todo. S. Pedra Brilhante afirma ainda, que a ênfase na necessidade de paciência, reside na certeza de que, entre nós, existe muito amor.

 

Cristina Mendes

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