AQUI NESTE TERREIRO TEM AXÉ

Há cerca de quinze dias, recebi de Mãe Lucília a letra de uma música que lhe foi entregue por Sandra Trindade. O ponto do Axé é o primeiro recebido pela filha de Xangô que frequenta o Terreiro desde o milênio passado e dedica à Engoma o maior amor. Quem acompanha as apresentações do grupo sabe que a Sandra é o termômetro dos ensaios: quando ela chora é porque está ficando bom, quando ela ri é porque já está bom. Se recebeu a letra de um ponto intuitivamente, deve-se tratar de um tema importante.

Ao ler as palavras que deveriam ser musicadas, comecei a ouvir uma melodia. Não precisei buscar por ela; de certa forma, me pareceu que a música já existia e que eu apenas teria que conseguir me calar para ouvi-la corretamente. E tinha que fazer depressa, não sei porque. Cantei num intervalo de gira pra ver a reação da corrente, pois sei que implantar pontos novos é um constante desafio: ponto cantado é parte do trabalho e tem que ter a força da corrente. Tal e qual o cultivo de plantas, alguns pegam e outros não, sem que se possa precisar a razão de tal fenômeno. Num momento em que o Terreiro se debruça sobre questões culturais, qual seria o mérito da música do Axé? A letra é simples e a métrica complexa:

Aqui neste Terreiro tem Axé
venha de onde for
o seu temor
a sua dor
a cura é de Zambi na fé
nosso bem maior

Rimam Axé e fé, separados por for, temor e dor. O último verso termina com a palavra maior, numa espécie de ironia poética a desvelar a potência de sentidos. A rima escrita deixa de existir quando se transforma em som. Possíveis leituras do poema /canção se enriquecem na análise dos processos de criação, do qual, orgulhosamente, faço parte. O ponto do Axé é uma canção que, de saída, pode ser relacionada a um processo coletivo de trabalho cujo fim ainda não nos é dado compreender.

Não é ponto de uma linha específica como Ogum, Iemanjá ou Oxalá. É ponto de cura, um dos tipos de trabalho mais requisitados pelos consulentes. Tentarei, depois de pensar rima e métrica, contextualizar o aspecto narrativo do texto: se não importa de onde vem o medo e/ou a dor, é melhor deixarmos de procurar a origem das coisas e lembrarmos que a cura é possível e provém da fé em Deus, aqui transmutado na identidade de Zambi, palavra que o antigo povo de Angola estabeleceu para designar o Deus supremo. Sincretizado na figura do Pai de Jesus, gosto de correlacionar a imagem de Zambi à pintura de Michelângelo, pois o mesmo Deus que criou Adão também trouxe Jesus para a Terra:

Muito embora as discussões acerca do sincretismo religioso costumem criar polêmicas, aqui exponho meu modo de entender e imaginar os espíritos. O sopro divino que parte do dedo de Deus até Adão, para mim, é Axé. Acrescentei o estribilho “É só Axé”e notei que a melodia se tornava mais animada, quase uma marchinha de carnaval. Eu não precisava gostar do resultado: tinha apenas que entender que a música estava certa.

Não pude deixar de lembrar de Pai Fernando, dos emails que recebi, dos artigos e demais textos que li e que costumavam terminar com as palavras: Axé, Fernando. Intrigado com a banalização do termo, ele nos lembrava que o Axé é a energia sagrada que cada um de nós cultiva, uma espécie de qualis da alma que singulariza determinado tipo de pessoa ou grupo. Muito resumidamente: nos sentimos bem ao lado de quem tem Axé.

Sentindo a urgência de cantá-la na gira, pedi a autorização do Caboclo Folha Verde para puxar o ponto em um trabalho de Curumins. O canto começou meio tímido, aos poucos a corrente foi memorizando a letra, até que a batida das palmas se transformou, nos envolvendo com a alegria dos espíritos das crianças indígenas. As entidades cantaram e bateram palmas, por alguns momentos estávamos na mesma vibração. Sim, no Terreiro Pai Maneco tem muito Axé.

Cristina Mendes

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