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Três vezes Cigano. E em nenhuma
vez bem sucedido...
Uma vez, “mago” mal orientado
e mal formado, utilizando-se de feitiços
e magias para conquistar mulheres,
dinheiro, bebida e poder local. Feiticeiro,
cigano falso de dente de ouro, colocava
menininhas pra correr, humilhava homens
de respeito e desfazia casamentos
felizes.
Outra vez, cigano de rua, sem tribo
nem família nem amigos, que
fazia o que pedissem, se fosse bem
pago. Para o bem ou para o mal. Novamente,
conquistador e irresponsável,
com gosto pelo bom vinho e a boa música,
cercado de amigos que desapareciam
assim que o dinheiro indignamente
conquistado acabava, juntamente com
o banquete improvisado, regado a piadas
infames, histórias de sedutores
e vinho rubro. Novamente, desfazendo
casamentos, humilhando quem quisessem
que humilhasse, fazendo qualquer coisa
por uma moeda de ouro ou objetos de
prata ou qualquer coisa reluzente.
Por fim, cigano reticente, fujão,
deslocado dentro da própria
tribo. Ausente e arredio, recusava
aprender qualquer coisa sobre magia,
leitura de cartas ou de mãos.
Nossa querida Cigana velha procurava
conversar comigo, explicando a magia
cigana, as virtudes da magia bem feita,
o amor que um cigano podia trazer
a vida de quem passasse por seu caminho.
Mas sempre relutava, fingia escutar
porém não ouvia, angustiado
e triste por toda uma existência...
Cigana velha desencarnou logo, e
me vi ainda mais solitário,
tendo perdido a única pessoa
com quem conseguia conversar. Ao som
dos violinos e violões ciganos,
me embriagava por noites sem fim,
não só de vinho mas
também de tristeza infinda...
Escrevia poesias e cantarolava canções
ciganas, mas apenas para mim mesmo.
Não conseguia me adequar à
vida em grupo, lá permanecendo
apenas por não ter forças
para partir e procurar meu próprio
caminho.
Um dia, sonhei. Sonhei que encontrava
Cigana velha em lindo campo florido,
e que ela sorria e me abraçava,
enquanto eu chorava como criança
que fez tudo errado e precisa desesperadamente
de um afago apesar de tudo. Cigana
velha acariciou meus cabelos, me olhou
nos olhos – nos olhos d’alma,
e cantarolou: “Longo foi o meu
caminho, andei por esse mudo andei;
sou um andarilho, sou Cigano! Hoje
eu sei. Sei que ao caminhar, cumpro
minha missão: dou o meu axé,
a quem estender a mão”...
Chorei ainda mais. E então
Cigana velha disse: este é
Pablo. Siga com ele, e corrija seus
erros passados aprendendo o verdadeiro
amor e a verdadeira magia do Povo
Cigano.
Acordei encharcado de suor, ardente
em febre. A canção cantarolada
por Cigana Velha não saia de
minha cabeça, que tonteava...
Desencarnei pouco depois, após
dias de febre, de sonhos intensos
e sem nexo, em que era atacado por
inimigos invisíveis, que só
desapareciam quando eu conseguia cantarolar...
“Longo foi o meu caminho...”.
Cigana velha veio me buscar. Abraçou-me,
e disse: segue com Pablo. E foi o
que fiz.
Hoje, sou aprendiz de Cigano. Pablo
me acolheu, amou e orientou. Aceitei
o caminho umbandista que me foi oferecido,
e agora integro sua falange como aprendiz,
como aspirante. Estudo muito, observo
muito, aprendo muito. E agora é
chegada a hora de colocar em prática
tudo isso... É chegada a hora
de aprender a ser Cigano. De estender
a mão a quem quer que passe
por meu caminho. Após séculos
andando sem rumo, descubro a maravilha
de se caminhar sob a luz do luar e
das estrelas, cumprindo a missão
de simplesmente ser Cigano.
Agora, sou apenas Ricardo. Quem sabe
um dia, após muito caminhar,
serei Pablo.
Laura
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