Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

A reelaboração da morte na Umbanda: Reflexões Psicanalíticas

Pretende-se elaborar algumas reflexões sobre a morte, a partir de uma perspectiva cientifica, mas tomando como pano de fundo o simbólico, o imaginário e o religioso umbandista.

Entende-se que mesmo nos dias atuais, falar sobre a morte, tanto no âmbito científico como religioso, denota uma óbvia complexidade, pois não existe a experiência da própria da morte para investigar. Fala-se sempre sobre a morte do outro. E, no âmbito da morte alheia, religião e ciência têm debatido diferentes concepções e reelaboram a sua maneira o fenômeno e seu impacto na subjetividade das pessoas. A premissa que se pretende problematizar neste trabalho é que na Umbanda há uma reelaboração da morte com a instituição de um sagrado emancipador e por meio de uma construção autônoma e dialética da subjetividade. Esse processo pode ser visto de modo mais efetivo na atual compreensão dos Exus e das Pombas-Giras.

Questões Introdutórias

À primeira vista parece uma contradição a ciência a comprovar os benefícios do religioso para a saúde das pessoas. Parece, mas não é, pois embora tenham suas especificidades e contradições, ambas, ciência e religião, não precisam ser excludentes. Nas últimas décadas algumas pesquisas e trabalhos acadêmicos têm registrado com ênfase a importância do sagrado ou do religioso como apoio as terapias emocionais ou medicamentosas em busca da saúde para muitos pacientes e para seus familiares ou sobre a importância libertária ou dominadora da religião na própria sociedade (ver, por exemplo: POLKINGHORNE, 1998; PAIVA, 2002 e 2006; VERUS, 2004; BROMBERG, 2006; NUMBERS, 2009; GUENON, 2008, DALGALARRONDO e outros, 2007, FARRIS, 2009, OLIVEIRA, 2010 a).
Pretende-se neste artigo elaborar algumas considerações a respeito de pertinência e viabilidade de um olhar que se estabeleça a partir do diálogo entre estas perspectivas, aparentemente contraditórias, sobre a morte, ou seja: o sagrado e o profano. O objetivo principal deste trabalho é compreender a leitura religiosa da morte por meio de um olhar clinico e científico.

Como artífice desta análise optou-se por uma leitura científica e outra religiosa, ou seja, a Psicanálise e a Umbanda. Portanto, os autores partem de uma concepção dialética, ampla e democrática do que seja ciência e do que seja religião, rejeitando versões parciais, sectárias ou reducionistas de ambos os termos.

Quando se parte da psicanálise, o arcabouço teórico-metodológico carrega toda complexidade de um saber que ocupa um lugar muito específico e, no mínimo, desconfortável no campo das ciências humanas. Ainda hoje se discute o lugar da psicanálise nos modelos científicos vigentes, apesar de sua longa história de resultados e seu constante interesse.

Não é objetivo de este artigo problematizar a cientificidade da psicanálise. Parte-se da premissa que há um lugar para a psicanálise no campo da ciência e é desse lugar que as questões serão apreendidas neste trabalho. A psicanálise chega ao século XXI, apesar da prometida rapidez das terapias medicamentosas ou de modificação comportamental.
O sagrado que instrumentaliza este trabalho é dado pela religião brasileira denominada Umbanda. Entende-se aqui a Umbanda como uma religião brasileira, ao invés da clássica denominação afro-brasileira. Para Guimarães (2006), Cumino (2010) e Oliveira (2009 e 2010 a), há influências africanas, indígenas, europeias, asiáticas, entre outras, na formação da Umbanda, tanto em sua cosmologia, quanto em seus ritos e fundamentos.

Breves considerações sobre a Morte e seu luto

O processo de negar a morte ainda está presente, além do surgimento das idéias espirituais e de continuidade, na própria exclusão da morte na civilização ocidental. Limitar a morte a guetos restritos, evitar o assunto ou encobrir os signos, símbolos e sinais que instituem ou insinuam sua existência é adotado como um disfarce, nem sempre eficiente para a idéia da finitude.

O significado econômico e social da vida humana seguiu diferentes perspectivas ao longo dos séculos. Para se ter uma ideia, o início do capitalismo industrial no início do século passado, a produção em massa e a ampliação dos mercados colocou grande parte da humanidade como produtora e consumidora de bens e serviços e permitiu a uma elite detentora do capital perpetuar seus lucros e seu poder. Como conseqüência desse processo, surgiu a grande metrópole e todas as suas necessidades. Como o progresso houve um grande avanço científico e médico. Esse novo cenário ressaltou o aumento da longevidade do ser humano através de técnicas e cuidados. No entanto, a socialização desses avanços não se deu de modo justo e igualitário e, mesmo aos que tiveram acesso pleno ou parcial as novas condições conheceram outro lado da vida humana na modernidade: o pathos.
A nova condição humana instituiu questões emocionais, cognitivas e culturais inéditas, pois o homem recolocou a angustia no cotidiano de sua vida ao se deparar com a finitude de todas as suas novas conquistas, representada pelo inevitável encontro com a morte (ver, especialmente, RODRIGUES, 1983).

A modernidade criou um “lugar para a morte” e afastou o homem o máximo possível. Com a morte longe a deixaria de ser percebida e a ilusão do seu encobrimento poderia ser sustentada. A morte foi isolada, geralmente em hospitais e velórios, afastando-se das pessoas e das comunidades. Da distância à proibição foi um passo. E a morte virou tabu.
Segundo Enriquez (1990), o morto carrega em si o signo do tabu e com ele seu poder sobre os vivos, de forma que qualquer aproximação a este signo torna impuro também quem o toca. Nesta mesma linha a premissa freudiana recoloca a contradição da morte para o homem, pois na cultura moderna a morte é ambivalente, pois pode representar a queda de um inimigo ou de algo ruim ou de um ente querido ou de uma situação muito cara. Nos rastros dessa contradição a culpa, o arrependimento, a frustração e muitos outros sentimentos em relação a nossa vida e a do outro.

A (Re) Elaboração da morte e os Exus na Umbanda

Fruto da riqueza e da complexidade das mixagens culturais, religiosas, sociais que foram nosso país, a Umbanda promoveu uma significativa ruptura com a tradição fatalista da morte cristã, especialmente nas perspectivas católica mais conservadoras, protestante conservadora, pentecostal e, especialmente, no segmento neo-pentecostal.

De um modo mais sutil ou mais efetivo, a culpa, o arrependimento e a condenação da alma aparecem nessas religiões, como se fossem conseqüências mecânicas e imutáveis. A vida e a morte são partes independentes, mas constituintes de um mesmo sistema. Um sistema que busca a perfeição e a eficiência. A maximização dessa performance, restrita a poucos, consagrou-se chamar de santidade.

Na Umbanda algumas entidades estão muito próximas dos dramas, glórias e características da condição humana: os Exus e as Pombas-Giras. E são justamente essas entidades que têm sido erroneamente compreendidas, principalmente, fora do campo da Umbanda. Exus e as Pombas-Giras é que permite compreender de modo mais claro o olhar umbandista sobre a morte e sobre a vida.

Seguindo uma análise das denominações adotadas por estas entidades, separando-as seguindo uma categorização a partir de seus locais de força ou de trabalho, a saber, cemitérios e encruzilhadas encontram-se entre as mais conhecidas as seguintes: Cemitérios: Exu Tranca Rua das Almas, Exu Três Caveiras, Tatá Caveira, Exu Caveirinha, João Caveira, Sete Caveiras, Exu Sete Punhais, Exu Sete Sombras, Exu Tranca Gira, Exu Tranca Rua das Almas, Exu Tranca Ruas, Exu Tranca Ruas das Sete Encruzilhadas, Exu Tranca Ruas de Embaré, Exu Tranca Tudo, Exu Três Caveiras, Exu Tronqueira, Exu Veludo, Exu Ventania, Exu Vira Mundo, Seu Camisa Preta, Seu Camisa Verde, Seu Marabô, Seu Risca Faísca, Seu Sete Encruzilhadas, Seu Teotônio, sem falar em uma entidade que gravita entre os Pretos Velhos e os Exus: Seu Zé Pelintra.

Fora da comunidade umbandista é ainda mais significativa a distorção e a contradição na definição do papel desempenhado por Exus e Pombas Giras em relação à morte. A chamada “linha” ou “falange” dos Caveiras têm especial papel de destaque nesse processo de (re) elaborar a morte ou a vida após o desencarne. Associados aos cemitérios, aos Caveiras foi atribuída a “missão” de guiar e orientar as pessoas sobre sua situação. Embora exista referencias a seu papel de juiz, na Umbanda recente o termo orientador aparece como sendo mais adequado.
Em algumas obras mitológicas ou teológicas (OLIVEIRA, 2009 e 2010 a) ou nas manifestações mediúnicas e incorporações há inclusive referências a „missão‟ que foi dada aos Caveiras: cuidar do desencarne e acompanhar a passagem entre dois distintos momentos da vida.

Tanto os Exus como as Pombas- giras, são consideradas entidades que cuidam da proteção espiritual dos Terreiros possibilitando que os trabalhos ali realizados possam ocorrer da melhor forma possível. Segundo o Pai de Santo Fernando Guimarães (2006, pag. 105), dirigente do Terreiro do Pai Maneco, há um destaque a ser feito:

Todos sabem que existe a energia Tranca Ruas. Dentro dessa energia, um exército de Tranca Ruas, subdivididos em das Almas e Encruzilhada, fazem presença nos milhares de terreiros existentes. Claro que não é a mesma entidade, mas são todos iguais, pensam da mesma forma e o que um fala o outro sabe. E em nada está errado que no mesmo terreiro existam Tranca Ruas incorporados em vários médiuns, exceto quando ele incorpora no dirigente da casa, por ser a palavra dele a ordem superior (...) imagine a Policia do Exército. Todos usam o mesmo tipo de uniforme, têm o mesmo tamanho e peso, e obedecem a ordem de um único comandante. Ali no exército não têm mais o nome de batismo: são soldados prontos para executar a mesma ordem, da mesma forma e com a mesma força. Os espíritos podem ser como os soldados.

Entidades que asseguram a lei e a ordem ou, de certo modo, asseguram o “estado de direito” no campo espiritual. Esse papel está muito distante de ser compreendido com um agente do mal. Um rótulo freqüentemente atribuído aos Exus e Pombas Giras é de suas limitações intelectuais e seu vocabulário agressivo. E não é diferente com a linha dos Caveiras, muito pelo contrário, pois seu nome e suas representações simbólicas ou imaginária são associadas ao mais antigo signo do perigo que é o esqueleto humano encontrado tanto em cemitérios como em produtos tóxicos ou letais. Se encontrar uma caveira ou sua representação era complexa o que se pode dizer de entidades com esse nome e com essa representação.

Acrescenta-se ao exposto acima que a incorporação dessas entidades nos terreiros é inexoravelmente resultante da união de duas formas distintas de energia, a do médium e a da entidade. A marca histórica e cultural de cada um se reflete na estética e na ética da incorporação. Há uma diversidade enorme de Exus e Pombas Giras tanto no que se refere a gestuais, formas de manifestar, vocabulário, entre outros. Porém, de modo geral, conservam uma característica comum que é sua relação com a verdade.

Falar com um Exu é estar nu diante de si mesmo, de sua verdade interna. Este faz a função de espelho psíquico, refletindo de forma crua, sem piedade e muitas vezes com ótimo humor, nossas mais recônditas vontades, desejos e inclinações. São entidades mais do que respeitadas, muito amadas e com as quais se estabelece um vínculo quase analítico, pois nas falas existem interpretações e pontuações quase psicanalíticas que em formas de pergunta fazem o consulente pensar. Exus e Pombas Gira são entidades diante das quais não se tem vergonha, pois por sua proximidade com a vida carnal e vibração energética dos encarnados, compreendem nossas aspirações e nos ensinam de modo objetivo e compreensível que apesar de nossas más inclinações podemos alçar vôos espirituais maiores. Mostram pelo seu exemplo de vida de erros, que a morte é campo de trabalho no sentido da evolução espiritual e que não há o que temer, além de nossa própria consciência.

Interessante o fato de que fora da Umbanda, ou seja, nas distorções proporcionadas pela demonização destas entidades, o papel de juiz e executor é encontrado com facilidade. É muito recente a consagração da idéia de que Exus e Pombas Gira atuem como conselheiros e orientadores.

Por tudo isso, o esforço da maior parte dos Pais de Santo, teólogos e escritores umbandistas têm sido de ressaltar a importância dessas entidades para a cosmologia umbandista.

Protagonista do equilíbrio energético entre a Umbanda e a Quimbanda, os Exus e as Pombas Giras são entidades fundamentais para problematizar e sintetizar a questão da morte na Umbanda. Em artigo anterior Oliveira (2010 a, pag. 5) afirmou:

É na entidade Exu que está reunido os aspectos mais contraditórios e decisivos da ação nefasta da intolerância religiosa nas estratégias atuais do neoconservadorismo e, são eles, que permitem também compreender a complexidade e o dinamismo do universo simbólico, imaginário e cultural da Umbanda. Em uma mixagem da ancestralidade mítica africana com a indígena e com diversas outras, o Exu tornou-se simulacro da representação de diversas estratégias de regulação do simbólico. Evidentemente que essa apropriação se fazia de modo sectário visando consciente ou inconscientemente o desmonte e a interdição desse universo simbólico e de seu espectro imaginário. O estranhamento da figura e do papel do Exu e sua proximidade com a vida humana, especialmente a sexualidade e o poder, o tornou um dos focos principais dessa opressão. A diversidade e a complexidade do Exu, embora fosse sua riqueza era também o que proporcionou a sua demonização. De um modo geral, os Exus são considerados entidades que compõem uma linha de força que trabalha junto às energias mais pesadas do mundo espiritual. Evidentemente, não se tomará as definições do Candomblé, e, mesmo dentro da Umbanda, optou-se, por uma de suas mais consagradas versões. Colocado na ordem do dia pelo pensamento religioso dominante descendente (católico) ou pelo semi-dominante ascendente (pentecostal, e, sobretudo neo-pentecostal) a demonização dos Exus e de outras entidades da Umbanda é muito mais antiga do que se mostra.

A interdição simbólica e até imaginária da representação umbandista se dá por meios manifestos e latentes das estratégias e mecanismos da intolerância e do preconceito. Os temas ligados a morte quase sempre foram associados aos Exus e Pombas Giras.

A mesma interpretação dada aos Exus se repete e até se amplia consideravelmente com as Pombas Giras, pois incorpora o machismo e toda opressão feminina. A Pomba Gira é caracterizada nas representações escritas ou nas imagens por mulheres perigosas, demoníacas ou por prostitutas. De modo latente ou manifesto encarnam uma sexualidade proibida (desejada e temida). Nas Pombas Giras ou também chamadas de “Exus femininos”, se torna ainda mais evidente a repressão de uma sexualidade interditada. Contaminada de machismo e opressão tem o medo e o desejo colocados em uma oposição ainda maior trazendo aspectos ainda mais significativos ao processo de demonização como a prostituição e os mais diversos vícios.

Todo esse processo foi estrategicamente ampliado e difundido pelas religiões tradicionais e ainda mais pelas que cresceram nas ultimas décadas. Apesar dos avanços nas sociedades democráticas no mundo moderno e a crescente luta pelos direitos da pessoa e pelo respeito à diversidade no Brasil, têm se registrado em diversas cidades formas manifestas ou latentes de violência e interdição da simbologia umbandista.

A manipulação do temor da morte e sua demonização ideologizaram a intolerância a cultura não hegemônica e privilegiaram determinadas versões do sagrado. Antigos slogans são repaginados e atualizados a fim de garantir a manutenção do status-quo religioso.

Com isso a morte continuou a ter um papel resignado em seus significantes e significados e o poder dos agentes atravessadores continuou intacto. Os dirigentes da maior parte das religiões cercavam-se de mistérios e dogmas que jamais poderiam ser revelados fora do circulo do poder.

Algumas possíveis conclusões

No debate entre ciência e religião as posições extremistas em nada ajudam o diálogo. Na ilusão da reserva de mercado, argumentos passionais e corporativistas tentam interditar o diálogo e valorizar as discussões parciais. Quantos donos da verdade aparecem para dizer que a religião tem que ser de determinado modo, quase sempre elitista e misterioso.

Na ciência não é tão diferente. Entre o modelo tecnológico e matemático e a ciências humanas e sociais o privilegio do primeiro resiste há décadas no Brasil e na maior parte dos países. E travestidos de uma lógica conveniente a tradição se desvaloriza o que não segue o padrão.

A morte, nos dias atuais, é considerada um fracasso. A indústria da medicalização prima pela insistência em aumentar a longevidade a qualquer custo e em manter a doença e a morte na ignorância e no silêncio. Os avós, antes velados em casa, sua morte agregada à realidade familiar possibilitando elaboração do luto pela criança já não mais existem. Com a sociedade moderna, o local de morte é transferido do lar para o hospital.

Efetivamente o que se apreende é a morte particular a cada um, sentida na perda do outro, nas guerras, tragédias ou catástrofes de grupos ou grandes populações sem falar nas representações cotidianas das “outras” mortes, tais como: a perda de um projeto, de um sonho, de um grande amor ou amizade. Vive-se na modernidade ignorando a própria morte.

A fé na continuação da vida foi aqui apresentada como da ordem de uma explicação que leva a elaboração de uma ferida terrível e por este motivo deve ser respeitada, além de acrescentar que mesmo sendo „respostas‟ criadas a partir de necessidades internas, não podem ser verdadeiramente negadas já que não há prova científica tanto da existência quanto da inexistência de vida pós - morte.

A Umbanda, como religião tipicamente brasileira, sofreu, em sua formatação, influências de crenças indígenas, católicas, espíritas, africanas e orientais. E todas essas influencias foram sendo reelaboradas e modificadas com o tempo e com a evolução da própria religião. A concepção da morte seguiu caminho semelhante distanciando-se radicalmente das influências originais. Na Umbanda, vida e morte são processos sagrados e constituintes de um mesmo processo que é a existência humana. Em todos esses momentos as pessoas são autores de suas ações que aprimoram, estagnam ou impedem a evolução do espírito. Sob a condição acima, faz-se necessário registrar que, embora a religião admita influencias das entidades ou dos espíritos evoluídos ou dos espíritos malignos ou desorientados, o livre arbítrio preserva a autonomia da alma humana e permite a escolha relativamente livre do caminho a seguir por qualquer pessoa. Como a Umbanda parte de uma concepção dialética da existência humana, entende vida e morte como constituintes de um mesmo processo que a alma humana percorre buscando a sua emancipação e sua constante renovação, evidentemente que nesta perspectiva também há conseqüências posteriores, mas em todo o processo se estabelece para a pessoa a possibilidade de uma práxis espiritual e se devolve a autoria do destino a própria pessoa.

Entender os exus como entidades promotoras do bem e defensores da vida é cada vez mais importante para a uma perspectiva moderna da Umbanda. É, em termos cosmológicos, é uma premissa fundamental para dar conta do caráter dialético e emancipador da compreensão umbandista da aventura humana e dos fenômenos da vida e da morte.

Ao redefinir ou resgatar o papel dos Exus se pode compreender como a Umbanda reelaborou a concepção da morte e como sua versão parte de uma perspectiva emancipadora do homem e se sua existência.

A Umbanda compreende que a existência humana possa ser resignificada a qualquer tempo e a construção de uma ética e de uma moral baseadas na alteridade e na igualdade na diversidade, reinicializando a jornadas quantas vezes for necessário ou por meio dos trabalhos espirituais ou pelo processo de reencarnação.

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A reelaboração da morte na Umbanda: Reflexões Psicanalíticas
Artigo publicado na Revista HISTÓRIA AGORA - A Revista de História do Tempo presente

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