Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Livre para voar

Meu pai sempre exaltou a sua infância e adolescência feliz na fazenda onde nasceu. Foi nesse período que adquiriu o hábito de criar os passarinhos que ele mesmo conseguia capturar.

Minha mãe, por outro lado, sempre se mostrou inconformada de ver todos aqueles que têm asas presos em gaiolas. Contudo, em respeito a esta paixão do meu pai, acabava por ajudar na manutenção das gaiolas, viveiros e da alimentação dos muitos cantores de penas que tínhamos em nossa casa.

Eventualmente acontecia que quando ela ia cuidar das gaiolas, um ou outro passarinho fugia. Nunca entendemos muito bem esse desleixo da mamãe.

Eu sempre segui sua filosofia e não gostava de ver passarinho preso, embora apreciasse o canto das aves.

Meu pai, no intuito de me convencer que pássaro preso também era feliz, um dia me presenteou com um pássaro parecido com o Sabiá, mas totalmente preto... era um lindo Melro.

Fiquei apaixonado pelo Crioulo (nome que demos ao Melro) e cuidava dele dando comida em minhas mãos. Com o tempo eu o soltava e ele me acompanhava dentro de casa ou a qualquer lugar que eu fosse, às vezes em curtos vôos, outras vezes caminhando logo atrás de mim ou em cima de meu ombro.

Certo dia um colega de meu pai no Banco do Brasil foi nos visitar e quando viu o Crioulo ficou fascinado pelo seu canto, pela sua docilidade e inteligência.

Meu pai ao perceber o interesse do moço, me chamou para conversar em particular. Disse-me que tínhamos muitos passarinhos e que seu colega estava querendo comprar e levar o Melro de qualquer forma. Disse-me que era a inveja junto com sua irmã, a cobiça. Sugeriu, então, que eu desse o Melro para aquele moço. Eu não aceitei e escondi meu Crioulo até que o pretenso comprador fosse embora.

Mais tarde fui cuidar do Crioulo que veio feliz comer em minhas mãos e depois, eriçou as pequeninas penas da cabeça para que eu lhe fizesse cafuné. Estava tudo bem.

No dia seguinte, bem cedo, fui limpar sua gaiola como sempre fazia. Primeiro não acreditei no que via, depois comecei a chorar muito. O Crioulo estava morto no meio da gaiola, já totalmente rígido.

Nunca mais eu quis ter passarinho. Não pude protegê-lo da maldade humana, por outro lado meu egoísmo não me permitiu dar o Crioulo para aquele moço, como meu pai recomendou.

Penso na lição que recebi. Sofri ao ver como é poderoso o veneno da inveja e da cobiça e hoje sei que o antídoto é a Humildade que a Umbanda nos orienta e desafia a praticar.

Vivemos em um mundo de competição que estimula esses sentimentos negativos. Creio que não possamos imaginar a dimensão do trabalho que damos especialmente aos Caboclos e Pretos Velhos, para limpar tanta energia negativa que carregamos e que atraímos ou geramos por ainda sermos portadores da inveja e cobiça - sentimentos tão primitivos e ancestrais.

Não tive como salvar o Crioulo, mas tudo que aconteceu fez ele livre para voar em outro plano e provavelmente neste momento ele está cantando para um caboclo de Oxóssi.

Agradeço ao Crioulo, meu irmão pássaro, por ter iluminado minha infância.

Paulo Braz

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