Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, segunda-feira, 20 novembro de 2017

Ogum fala

Eu acredito que quando um espírito é criado, ele está dentro de uma linha ou vibração de um Orixá cósmico. No meu caso, para exemplificar, eu nasci dentro da linha de Ogum e a influência

Recebi uma carta da qual destaquei o seguinte trecho: “...estou escrevendo para uma consulta básica ao amigo. Aprendi desde criança a conviver com as entidades da Umbanda, pois, na minha casa tínhamos um babalorixá muito conceituado no meio umbandista, já lhe contei esta história. O fato é que, muitas vezes, fui chamada a atenção, pelos erros que cometia, e, algumas vezes, o senhor Ogum Beira-mar alertava-me sobre os cuidados que deveria ter em assuntos que ainda não haviam acontecido. Quando ele chegava no terreiro e saudava os seus filhos ele o fazia com uma dignidade de guerreiro e as palavras, apesar de doces, eram pragmáticas e eficientes os conselhos para a vida de cada um de nós.

Como já lhe contei, afastei-me da Umbanda por algum tempo, e, agora, na minha volta, vejo que Ogum não fala. Será que a Umbanda virou Candomblé, e os médiuns umbandistas só recebem ORIXÁS...”

A Umbanda é muito nova e seus líderes têm dificuldade para entendê-la. Gosto de fazer uma Umbanda simples, explicada dentro de nosso limite cultural, sem invenções e acima de tudo sem exibicionismo, este a alavanca que abre o alçapão do poço da vaidade e onde os dirigentes caem para ficarem no mesmo patamar dos espíritos que vivem nas trevas, maquinando uma forma de destruir os terreiros de Umbanda. Eu sei porque já estive lá, quando iniciei a prática do espiritismo. Fui salvo, como sempre acontece, pelo Pai Maneco, o maravilhoso espírito de um preto-velho angolano. Não posso aceitar a mistura da Umbanda com o Candomblé. Posso até explicar: apesar de toda minha vivência na Umbanda, não consigo entender a filosofia, as palavras complicadas e rituais usados quando ela fica acrescida do Candomblé.

Eu cultuo na Umbanda os Orixás Cósmicos, como Oxalá, Ogum, Iemanjá, Oxum, Iansã, Xangô e Oxossi. Esses não incorporam. São forças da Criação e por isso não falam. Chama-se também de Orixás os espíritos que se comunicam, como os caboclos (índios e mestiços), pretos-velhos (descendentes de escravos, ou que foram escravos), crianças (aqueles que desencarnaram até sete anos) e todas as outras linhas como ciganos, boiadeiros, médicos (dentro da Linha do Oriente), marinheiros, baianos e outras similares. Esses espíritos, chamados também orixás, que já tiveram várias encarnações na terra e por isso são chamados eguns, são os que incorporam nos médiuns.

Para começarmos a entender a Umbanda, temos que ir na sua fundação com o Zélio de Moraes. O Caboclo Sete Encruzilhadas não inventou a Umbanda. Claro que ela já existia. Ele, incorporado no médium Zélio de Moraes, alertou a todos que já existia uma nova religião no Brasil:a Umbanda! O Sr. Zélio de Moraes fundou o primeiro terreiro brasileiro. O terreiro foi batizado como Tenda Espí rita Nossa Senhora da Piedade, um nome católico. Jogar fora o que o Caboclo Sete Encruzilhadas anunciou, e a participação efetiva do médium Zélio de Moraes, é jogar fora a história da Umbanda. Ela não foi fundada em nome do Candomblé, nem do espiritismo tradicional de Allan Kardec.

Eu acredito que quando um espírito é criado, ele está dentro de uma linha ou vibração de um orixá cósmico. No meu caso, para exemplificar, eu nasci dentro da linha de Ogum e a influência dela é total em minha vida. Dentro da Umbanda, só dessa linha é que pode existir uma entidade por mim responsável, o chamado pai-de-cabeça. Ele me foi revelado e seu nome é Caboclo Akuan. Ele, o Caboclo Akuan, tem muita afinidade com a linha de Ogum Naruê. Por isso, quando chamam no terreiro Ogum Naruê, nada errado que ele se apresente com esse nome, fale coisas lindas, aconselhe e oriente os que o ouvem. Assim Ogum está falando.

Em nosso Terreiro, Ogum Beira Mar tem presença através de muitos médiuns. Ele fala, é carinhoso, austero quando precisa, atende a todos e dá consulta. Mas eu sei que esses Oguns Beira Mar são índios brasileiros que pertencem à linha do mar, diferente do Caboclo Akuan que era um índio tapuia, denominação dada àqueles que viviam dentro da selva, na beira dos lagos e rios.

Dizer que Ogum não fala é desconhecer toda lógica da Umbanda.

Categoria: Pai Fernando .

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