Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, domingo, 23 abril de 2017

Minha Opinião - Abril 2008

Eu sou um questionador incorrigível. Tudo eu quero saber e nada me escapa. Eu quero saber quem é o meu Anjo da Guarda.

Os costumes dos umbandistas do passado têm hoje a mesma força de antes. Um ponto inquestionável do ritual da nossa religião é o culto sagrado ao Anjo de Guarda, havendo muita possibilidade de ser a ele que os adeptos mais prestem devoção e façam os pedidos de força e proteção. Particularmente eu acho esse comportamento muito estranho porque pouca gente se preocupa em saber que entidade é essa tão cultuada e homenageada no ritual de quase a totalidade dos terreiros. Os umbandistas preocupam-se em saber quem é o preto-velho, o caboclo ou de que linha é o exu, mas, quanto a ele, o misterioso Anjo da Guarda, ninguém pergunta absolutamente nada. Ao menos para mim nunca ninguém perguntou. E eu tenho cinqüenta anos de espiritismo. Fica bem claro: o Anjo da Guarda é um mistério e ninguém tem a curiosidade de querer saber quem ele é. Basta acender uma vela e tudo fica bem.

Eu sou um questionador incorrigível. Tudo eu quero saber e nada me escapa. Eu quero saber quem é o meu Anjo da Guarda. Será um Ogum, um caboclo, um preto-velho ou um exu? Ele tem nome? Lugar? Linha?

A Umbanda é reconhecidamente um culto diversificado. Cada dirigente é dono de seu terreiro e independente e é ele quem dita as regras e impõe a filosofia aos seus componentes. Isso é reconhecido e aceito por todo o mundo umbandista. Aliás, essa é a sua grande força e sabedoria. Dentro da religião há uma multiplicidade de ritos e entendimentos. E todos estão certos, porque ninguém tem parâmetro do errado, exceto a ética e o bom costume. Provavelmente cada dirigente tem a sua explicação de quem é o Anjo da Guarda e todas vão ser diferentes. Eu vou dar a minha: o Anjo da Guarda é a soma das nossas reencarnações sem a interferência da atual encarnação.

Quando eu era menino, na minha casa diariamente um homem que chamávamos de João ia tomar café e comer um pão. Sua caneca e prato ficavam separados. Ele era doente. Não falava e babava muito. Foi uma figura que me impressionou bastante, principalmente porque eu tinha medo dele. Nessa ocasião eu tinha uns oito anos de idade. Uns trinta anos depois, em uma sessão kardecista, manifestou-se o espírito desse homem. Não vem ao caso como eu sei e o que ele disse para se identificar. Acreditem, era ele mesmo. A sua manifestação deixou a todos perplexos pela doçura, pureza e sabedoria. Perguntei seu nome: ele disse que na última encarnação chamava-se João. E quando cuidava dele - do João, tinha mil nomes...

Para mim a palavra do espírito é indiscutível, muito embora nem sempre eu a entenda imediatamente, mas com o tempo acabo descobrindo o que ele quis dizer. No caso foi uma revelação maravilhosa: ele era o Anjo da Guarda do João. Imagino assim: o João era um pobre coitado que vivia da caridade alheia, doente da cabeça e do corpo, com seu espírito resgatando alguns carmas e ainda vivendo o sofrimento da pobreza. Entretanto o seu espírito era iluminado, inteligente e com uma cultura imensa adquirida ao longo de varias reencarnações. E esse espírito era o seu Anjo da Guarda. E esse Anjo da Guarda hoje não existe mais, pois desapareceu com a morte do João. Hoje só existe a maravilhosa entidade dos mil nomes.

Por isso quando acendemos uma vela para nosso Anjo da Guarda, estamos iluminando o nosso próprio espírito.

Essa é a minha opinião!

Categoria: Pai Fernando .

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