Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, domingo, 23 julho de 2017

Brasil, o berço do Evangelho

Eu não sei o que aconteceu de errado com a previsão dos espiritualistas. Deu tudo ao contrário. Aí fiquei imaginando a decepção dos arquitetos espirituais que escolheram o Brasil para se

Fernando M. Guimarães

Cresci ouvindo que Brasil era o berço do Evangelho. Acreditei. Afinal ele esteve escondido do mundo um bom tempo. A força mágica do Amazonas, as florestas misteriosas, a riqueza da fauna, o encanto dos rios e a certeza da abundância do tesouro chamado água, eram sinais evidentes, de que o País era abençoado. Monteiro Lobato deleitava seus pequenos leitores pregando que o petróleo era nosso e abundava em todo lugar. Entrei na puberdade acreditando nisso... Eu tinha orgulho do Carnaval brasileiro e da Carmem Miranda, que falava o português nos Estados Unidos, do futebol que encantava o mundo e da capoeira que carimbava o brasileiro com sua ginga malandra, além de ficar fascinado com as histórias que minha mãe contava das minas de ouro e pedras preciosas em solo brasileiro. O carisma do legítimo e único pai dos pobres, o Presidente Getúlio Vargas, sacudiu meus sentimentos. Até hoje, lembro-me ainda das covas do maior Presidente do Brasil. Comecei a acreditar que ele ia administrar e fazer valer o direito do Brasil de ser reconhecido como o berço do Evangelho. Cresci, casei-me, sou avô e nada aconteceu.

O Brasil virou lacaio dos países ricos - e que ficam cada vez mais ricos com as nossas riquezas. A magia do Amazonas virou campo de safados e dilapidadores das matas, além de ser o paraíso dos mafiosos e dos reis das drogas, e a fauna está enriquecendo os contrabandistas que ficam impunes à fiscalização do governo. Fiquei imaginando: se o Índio Aymoré voltasse ao Brasil ele seria queimado pelos bons meninos de Brasília. Minha cabeça dói. Fico com raiva de ver o alto preço dos combustíveis pondo por terra a pregação de Monteiro Lobato.

Alguém me contava as vantagens dos motores flex, movidos a álcool, e eu, sem imaginar que aconteceria tão cedo, expliquei que, agora que existe um consumo grande do álcool o seu preço iria subir. O carnaval perdeu a espontaneidade. A alegria dos blocos virou fonte de renda para alguns, motivos de brigas para outros e vitrine para a exibição de celebridades que fazem questão de balançar a bunda exposta, para desviar a atenção dos seus pés e ninguém descobrir que eles não têm samba. Tudo tem que ser cronometrado e, no dia da leitura da pontuação das escolas, a polícia tem que estar de prontidão com seu batalhão de choque.

Tomara que não aconteça o mesmo com a capoeira, a única luta brasileira, e seus mestres não corram atrás de patrocinadores. Depois que inventaram a premiação às escolas, o Brasil acabou com seu Carnaval. E a Carmem Miranda também perdeu seu trono. Depois de convencer o mundo de que o Brasil é o País das bananas e abacaxis e de que Copacabana era uma selva, apareceu o Pelé.

O mundo tomou conhecimento de que o Brasil, além das bananas e abacaxis, era bom de futebol. Falando em Pelé, ele começou no Santos e encerrou lá sua maravilhosa trajetória. O Zico fez o mesmo no Flamengo, o Falcão no Internacional, o Tostão no Cruzeiro e o Garrincha no Botafogo. Foram jogadores de um time só. Foram regiamente pagos como jogadores pelas suas qualidades, mas não era isso que lhes interessava, porque eram movidos pelo amor ao esporte e a seus times de origem. Hoje os empresários embolsam os dinheiros, e já cedo os moleques se comprometem com eles, isso sem contar que os times querem mais é vender seus jogadores porque os donos deles – dos jogadores, são os empresários em parceria corrupta com os diretores dos clubes.

Eu não sei o que aconteceu de errado com a previsão dos espiritualistas. Deu tudo ao contrário. Aí fiquei imaginando a decepção dos arquitetos espirituais que escolheram o Brasil para ser o grande pregador mundial do Evangelho. Mas eles não se entregaram. Resolveram, à moda brasileira, contornar a situação. Criaram a Umbanda, uma religião autenticamente brasileira com todas as condições de congregar as outras e ser um língua universal do evangelho de Jesus Cristo. Para isso ser entendido, primeiro a Umbanda tem que ser compreendida.

Ela é tão grande, que o Brasil está dentro dela, com os índios, os pretos, os mestiços, com a capoeira e até com o samba. Ela está em formação, com a ajuda da espiritualidade. E eles não querem que ela caia dentro dos vícios que acometeram o Brasil. Por isso, a Umbanda não deve ser disputada, não deve vender os seus valores, não cobrando nenhum centavo pela prática da caridade.

Deve reservar o anonimato às estrelas, os empresários procurem os terreiros apenas para resolver seus problemas pessoais, os médiuns que não se julguem tão importantes quanto os jogadores de futebol e que as mães e pais-de-santo entendam que a origem da Umbanda é uma só, e o Cruzeiro do Sul já indica o seu lugar e nacionalidade. Vou plagiar o eterno Monteiro Lobato: “a Umbanda é nossa! Não a vendam à África e muito menos ao Candomblé”. Vamos resgatar o compromisso do Brasil de ser o berço do evangelho. Só torço que o Getulio Vargas, o Monteiro Lobato e a própria Carmem Miranda estejam fazendo parte desse movimento. E eu sei que estão...

Categoria: Pai Fernando .

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