Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

A Parábola do Pai de Santo

Jesus Cristo, em sua única encarnação na Terra, ensinava por parábolas. A característica da parábola é conter, em frases simples, um significado muito profundo. Aos seus discípulos Ele as explicava. Ao povo hebreu cabia interpretá-las e desvendar as verdades nelas contidas. Não adiantava explicar aquelas revelações aos povos ainda não preparados para a sua compreensão.
Era sábado pela manhã. Pai Fernando estava hospitalizado e isolado de todos contando apenas com a assistência da família. Internado naquele hospital, sem saber exatamente o que tinha, não devia ser fácil. Acostumado a viver rodeado por seus médiuns, estar em isolamento completo deveria ser algo enlouquecedor. Naquele sábado, já pela manhã, algo estava diferente. Alguma coisa me dizia que eu precisava ir visitá-lo, mas eu não podia fazer isso chegando de surpresa, afinal a família tinha pedido que visitas fossem evitadas, pois o enfermo precisava de repouso. Mas algo me impulsionava.
- Vá, pode ser a tua última oportunidade. Vá!
Então estava decidido. Naquela tarde visitaria meu amigo.
E assim o fiz. Lá pelas 14:00 horas sai de casa rumo ao Hospital São Lucas. Sem saber em que quarto ele estava internado fui perguntando e logo cheguei à porta do apartamento. Que decepção. Um cartaz de papel branco escrito à mão e colado na porta avisava:
VISITAS: O DOENTE PRECISA DE DESCANSO
Era compreensível, mas não agradável, afinal eu tinha vindo decidido. E agora, o que eu faço, pensei. Não podia desrespeitar a vontade da família, mas também não queria deixar de vê-lo. Dei alguns passos para tras e vendo uma pequena mesa redonda com três cadeiras próxima a entrada do quarto, sentei. Preciso tomar uma decisão: vou embora acatando o pedido da família ou seria ousado o suficiente para entrar de qualquer jeito. Depois de alguns instantes meditando encontrei uma outra alternativa: vou ficar sentado aqui e esperar até que alguém apareça. É isso, assim não ofenderei ninguém.
Dez minutos, quinze, vinte, vinte e cinco e o tempo não passa. Não sai ninguém, não entra ninguém. Meia hora, quarenta minutos, só pode ser um sinal. Vou embora. Levantei decidido e fui encaminhando-me para a saída. De repente uma ideia: vou deixar um recado. Voltei apressadamente e dirigindo-me à enfermeira em seu posto pedi:
- Senhora, por favor, pode me emprestar papel e caneta? Quero deixar um recado para um paciente.
- Qual paciente? Perguntou ela
- Para o Sr. Fernando.
- Ah, o Sr. Fernando? Pode entrar lá, ele está de alta.
- Não posso, tem um cartaz colado na porta pedindo para não incomodar.
- Vai lá, pois daqui a pouco ele vai para casa.
Aquilo pareceu uma ordem e não desobedeci. Tomei coragem e fui. Bati na porta e esperei. O Tiago, seu neto abriu e me escorou no peito:
- Caco, você não veio numa boa hora!
Fiz de conta que não ouvi e logo a Dona Yedda ao me ver disse:
- Caco!! Entre logo. O Fernando vai ficar feliz em te ver.
Graças a Deus, a baixinha me salvou. Lucília, Yedda, Tiago, Mariana, todos lá na antessala e o Pai Fernando numa outra sala, no quarto propriamente dito, isolado por ordem médica. Agora era só uma porta. Ninguém iria me impedir de vê-lo.
Conversamos um pouco sobre o e seu estado e sobre algumas banalidades e em poucos minutos estávamos atravessando aquela porta. Ao me ver de longe, ele abriu aquele sorriso. Ah, aquele sorriso de novo, inesquecível, marca registrada daquele homem que apesar de derrubado pela doença desconhecida, ainda conseguia sorrir. Lá estava ele naquela cama no meio de um quarto imenso sorrindo para mim.
- Mucuiu, meu velho! Exclamei.
- Mucuiu n’zambi. - respondeu ele.
- Vim aqui para te ver e para te tranquilizar. Fique sossegado. Enquanto o Sr. estiver se recuperando fique tranquilo que todos nós cuidaremos de tudo, não tão bem como o Sr., é claro, mas lhe asseguro que tudo vai ficar em ordem no Terreiro.
Então, ele pegou minhas mãos, puxou-as para perto de seu peito, fazendo com que eu me aproximasse de sua boca e balbuciando disse:
- Vai ficar melhor.
Neste momento eu me emocionei profundamente. Meus olhos se encheram d’água e antes que eu pudesse dizer qualquer palavra ele aproximou minhas mãos de sua boca e as beijou. Eu queria explodir em pranto, mas não podia. Tinha que mostrar-me forte e equilibrado. Então, aproximei-me e lhe beijei longamente a testa, dizendo:
- Até breve, meu velho.
E percebendo a sua agitação retirei-me. Esta seria a última vez que eu o veria de corpo e alma juntos. Eu sabia, ele sabia. E assim foi. Poucos dias depois, nosso mestre, orientador, amigo, pai, irmão desencarnaria, libertando-se da escravidão do corpo para gozar da verdadeira liberdade.
Despedi-me de todos e saí em pranto contido pelo mesmo corredor que tinha entrado aliviado e grato por aquela abençoada enfermeira ter me encorajado a entrar. Hoje tenho certeza que foi o Manoel, meu Pai e antigo amigo do Sr. Fernando que me inspirou a fazer aquela visita e não perder a oportunidade de um último encontro, afinal se tem algo que me entristece muito é o fato de não ter tido a chance de falar com meu pai no derradeiro momento de seu desencarne. Ele estava em coma e durante treze dias assim permaneceu sem que tivéssemos a oportunidade de nos olharmos nos olhos uma última vez.
Voltando para casa, apenas eu, dirigindo meu carro pelas ruas tranquilas daquele sábado nublado e frio, pensava naquela frase que me intrigava: - Vai ficar melhor, disse ele. Que absurdo. Como que nós poderíamos fazer melhor que ele que construiu aquele Terreiro do nada. Além disso, ele era três: Fernando, Pai Maneco e Sr. Akuan. Não dá para fazer melhor. Conclui que ele estava nos elogiando e encorajando como sempre fizera. Sim, era isso. Só podia ser. Ou não? De repente, a resposta: não, não é isso, ou melhor, não é somente isso. Havia algo mais. Aquelas três palavras tão simples traziam em seu contexto um significado muito mais profundo. Ali estava contido um pedido, o pedido final, o pedido do derradeiro momento da morte:
- Façam melhor do que eu fiz.
Era isso que ele estava dizendo. Um pedido para que cuidássemos daquela semente que um dia fora plantada em terra fértil e que agora já dava frutos. Cuidem da árvore e de seus ramos e de suas folhas e de seus brotos para que ela cresça frondosa e no futuro dê a todos a tão preciosa e almejada sombra, a sombra da missão cumprida. Façam do Terreiro o caminho para a verdade e para a vida. Esta é a parábola do Pai-de-Santo:
- Vai ficar melhor.
Mais simples, impossível; Profunda? Muito; Desafiadora? Sem dúvida. Exequível? Certamente. Cumpre a cada um de nós e a todos fazer a sua parte.

Axé
Pai Caco de Xango
10/06/2014

Categoria: Pai Caco.

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