Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 28 março de 2017

O Preto-Velho Elesbão

O que eu vou contar agora não consegui encontrar explicação em nenhuma questão do Livro dos Espíritos ou do Livro dos Médiuns. Por isso, suponho ser uma particularidade da Umbanda.

     Estamos todos no Terreiro. Eu Pai Fernando e mais uma multidão. Sim, uma galera imensa, afinal sábado a tarde é sempre assim. O Pai Fernando está por lá então as pessoas aparecem. Todos querem desfrutar da agradável companhia do “velhinho”. Neste dia todos estamos reunidos ali, no centro do terreiro, sim ali mesmo onde as giras acontecem. Pai Fernando sentado no seu local habitual em frente ao congá e todo mundo em volta dele perguntando e ouvindo. Eu sou um desses. Num determinado momento Pai Fernando e eu discutimos, discordamos em alguma coisa. Não é uma discussão justa, afinal ele é infinitamente mais experiente que eu. Que chance eu tenho? Nenhuma. Mas sou teimoso e continuo insistindo. Parece que ele se irrita com minha insistência (o que não é comum quando a dúvida é pertinente) e de um momento para o outro a prosa muda de rumo. Agora ele já não argumenta mais e passa a me humilhar. Rejeita minha argumentação, contraria a minha lógica, age com desdém e com um sorriso debochado me coloca lá em baixo, no meu devido lugar.
Por que ele fez isso? Será que fui grosseiro ou mal educado. Será que eu o ofendi ou o maltratei? Ou será que simplesmente ele não aceita ser contrariado? Não entendo. Tenho certeza que não fiz nada disso. Por que essa reação? Por que logo comigo que “vesti a camisa” do Pai Maneco e sempre fui seu fiel escudeiro? Por que me humilhar desta forma? Meu Deus o que está acontecendo? Não compreendo.
      Num susto, eu acordo. É um sonho. Graças a Deus é só um sonho. Tinha certeza que o Pai Fernando seria incapaz de fazer aquilo. Ufa, ainda bem. Levanto a cabeça e olho para o rádio-relógio. Três e quinze da madrugada. Ainda me recuperando do trauma de passar por uma situação daquelas, tento sentar na cama. Opa, o que está acontecendo? Não consigo me mexer. Só então percebo que estou paralisado. Sim paralisado. Braços esticados colados ao corpo, pernas esticadas, completamente amortecido. Agora não é um sonho, é real. Estou deitado na cama, acordado, completamente lúcido, porém paralisado. A cabeça manda, mas o corpo não obedece. Que agonia, que desespero. Estou entrando em pânico. Será que eu tive um AVC, um derrame? Por quanto tempo vou ficar assim, inerte como se estivesse engessado do pescoço até os pés. Amanhã tenho que trabalhar, contas para pagar, filhos para criar, como vai ser? Começo a pensar, ainda muito aflito, como é que eu vou sair desta? De repente uma ideia: vou tentar mover o tronco já que braços e pernas não funcionam. Mexo os ombros um pouco para a esquerda, um pouco para a direita. Parece que está funcionando. Aos poucos um formigamento nas mãos, depois nos pés e pernas e por último nos braços. Estou conseguindo soltar a amarras desta paralisia medonha. Mais alguns minutos com aquela sensação e de repente “bum”: saltei da cama o mais rápido que pude. Parei ao lado e fiquei olhando para ela como se a cama fosse uma prisão. Que bobagem, é só a minha cama. Graças a Deus, a agonia passou. Estava livre novamente. Agora era só aquele nome na minha cabeça: Elesbão, Elesbão, Elesbão. Quem é esse tal de Elesbão. Não conheço ninguém com este nome esquisito. Sei lá. Vou dormir, afinal como já disse o poeta: “Amanhã vai ser outro dia”.
     Deito na expectativa de dormir novamente, mas que nada. Aquele nome fica martelando na minha cabeça: Elesbão. Quando consigo dormir, minha mulher me acorda.
-Está na hora! Diz ela.
-Já? Acabei de dormir.
-Sim, sete horas.
Levanto, contrariado. Quero dormir um pouco mais, afinal aquela noite não foi fácil. Lembro-me do que passei, do sonho, da discussão, da humilhação, da paralisia e saio ligeiro da cama, afinal preciso ter certeza que estou realmente livre. E estou. Só uma coisa ainda não sumiu: o nome Elesbão.
-Ah não, já cedo?
Tomo café, despeço-me da família e vou para o trabalho. Hora de ler os e-mails. São muitos. Um, dois e lembro: Elesbão. Três, quatro... doze, treze e de novo Elesbão. Mais alguns e Elesbão.
Não dá mais. Vou escrever para o Sr. Fernando e contar o sonho. Eu sei que é muito chato ouvir os sonhos dos outros, mas esse eu tenho que contar, afinal neste caso, o Pai Fernando é protagonista. Então escrevo, de forma bem sucinta:
“Sr. Fernando
O Sr. Conhece um espírito (Preto-Velho ou Exu, não sei ao certo) de nome Elesbão? Explico: sonhei que nós (eu e o Sr.) discutíamos ou discordávamos em alguma coisa. Acordei completamente paralisado, com braços e pernas amortecidos e com esse nome na cabeça: Elesbão, Elesbão, Elesbão...
Axé
Caco”
Clico no botão “Enviar”. Pronto, está feito. Omiti os detalhes. Não eram necessários naquele momento.
Não mais que dez minutos depois toca o telefone. A secretaria atende e diz:
-Caco, o Sr. Fernando.
Pulo no telefone e atendo numa ansiedade sem fim.
- Sr. Fernando, bom dia.
- Bom dia Caco, tudo bem?
- Sim. Respondi
- Recebi teu e-mail. Elesbão é o Preto Velho que trabalha com o Tiago.
- Tiago, que Tiago? Pergunto
- O MEU NETO, PÔ!!
- Ah, tá, o Tiago.
- Você viu o que eu fiz na última gira? Pergunta ele.
- Acho que não. Eu estava incorporado. O que foi? Perguntei.
- Chamei o Pai Joaquim no Tiago. Eles trabalharam durante toda a gira de Preto.
- Acho que o Sr. Elesbão não gostou disso - respondi agora já sabendo quem era o Sr. Elesbão.
- Com certeza não. Vou fazer um amalá pro “velho”. Falamos mais tarde.
- Tá, até depois, então.
Ao desligar o telefone senti uma enorme tristeza no Pai Fernando, o arrependimento por ter, na mais boa fé, magoado o Sr. Elesbão. Não tive coragem de revelar os detalhes daquele sonho, afinal ele não merecia ouvir mais nada. Estava sofrendo.
Nunca perguntei ao Sr. Fernando por que ele chamou o Pai Joaquim no Tiago. Talvez ele quisesse um cavalo definitivo para aquele Preto-Velho que fazia parte da sua história, (afinal Carmem Silvia já tinha desencarnado e a Andrea vinha de vez em nunca), talvez ele quisesse só fazer uma experiência, talvez alguém estivesse precisando muito de uma consulta com o Pai Joaquim. O motivo agora já não interessa. Fato é que a reação do Sr. Elesbão foi rápida. Nitidamente contrariado com a atitude do chefe do Terreiro, demonstrou de forma muito dolorosa que espíritos tem sentimentos e que aquela atitude paralisava o seu desenvolvimento. Sim, engessa a entidade e atrasa o seu desenvolvimento, afinal, assim como os médiuns, os Pretos, os Caboclos e todas as demais entidades procuram nos terreiros acelerar o seu desenvolvimento. Sentiu-se humilhado, imensamente entristecido, talvez traído. Manifestou-se por meu intermédio para deixar claro que estava aborrecido e triste. Deixou óbvio no contexto desta situação que Tiago é cavalo de Pai Elesbão e assim tem que continuar. O Joaquim que ajeite um cavalo para si. Sobre isso tenho certeza de que o médium já está lá. Talvez não esteja pronto, talvez ainda não esteja preparado para trabalhar com um espírito da envergadura do Pai Joaquim, mas eu sei, ele (ou ela) está lá. Sei que no momento correto teremos mais esta revelação. Sei que está tudo certo. O maravilhoso Pai Joaquim pacientemente espera, o Pai Elesbão trabalha e o Pai Fernando...

Pai Caco de Xango
Em, 12/04/2014
 

Categoria: Pai Caco.