Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 28 julho de 2017

AMAR AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO - Por Mãe Cris Mendes

AMAR AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO:
parece fácil, mas no whatsapp não é

Ao pensar acerca das transformações nas relações humanas na atualidade, resolvi me deter em singularidades do amor fraterno, pautado na prática da caridade ao próximo. Assusto-me com o aumento da agressividade nas relações cotidianas e tento vislumbrar alguma luz para esse momento peculiar, no qual todos nós somos ao mesmo tempo vítimas e algozes. E isso não acontece apenas quando estamos diante de estranhos ou do desconhecido: mesmo nos grupos de amigos ou familiares, pequenas faíscas podem inflamar as relações. O whatsapp, formidável instrumento para agilizar as comunicações, numa espécie de efeito colateral, cria donos da verdade e legisladores de plantão. A liberdade de opiniões, que já havia demonstrado sua força no facebook, tem sido ainda mais invasiva no whatsapp, talvez pelo caráter privado do aplicativo. Enganos causam constrangimento, pedidos de administradores são ignorados e o universo das postagens vira um enigma inextrincável. O respeito praticado no contato direto parece deixar de vigorar nas relações criadas em redes sociais. Num processo de dissociação estranho, as pessoas, quando mediadas por redes eletrônicas, não são as mesmas com as quais costumamos conviver.
Sem querer parecer moralista ou detentora da verdade, confesso que dou muita risada, mas também me entristeço bastante, ao perceber como as pessoas se encorajam diante de um computador ou de um celular. Entendo que seja difícil suportar a divergência de pontos de vista e que a tentativa de contribuir é prejudicada pelo pouco que se sabe a respeito de outros membros das próprias tribos . Lembro que os processos comunicacionais não começam nem terminam no whatsapp, pois pertencemos a um complexo emaranhado de meios de comunicação. Só no Terreiro, participo de mais de cinco grupos oficiais, sem contar os de amigos, que acontecem paralelamente, de forma espontânea. Claro que me confundo: volta e meia mando pra Engoma Geral o que deveria ser pra Sambas de Segunda-feira. Talvez por isso não me manifeste muito, mas leio as postagens na íntegra e não sei o que pensar de tudo isso, já que as inovações tecnológicas costumam ser seguidas por mudanças sociais. Acredito que as redes sociais são um caminho sem volta, graças a Deus, porque não consigo imaginar minha vida sem as fotos diárias das netas. Mas penso também, que é um momento oportuno para revermos o caráter ético de nossos pronunciamentos. E ética, a meu ver, só funciona quando estruturada no amor.
Diante da evidente falta de tolerância que percebo no whatsapp e do excesso de superficialidade das novas relações, tentei ser paciente e lembrei-me de duas máximas da educação que tive em colégio de freiras, início das participações extra familiares, quando a criança é colocada diante de um mundo maior e mais amplo: “amai-vos uns aos outros” e “ama ao teu próximo como a ti mesmo”. Com essas duas atitudes, tínhamos a garantia de estar seguindo uma vida correta, pois as palavras ditas por Jesus Cristo há quase dois mil anos, eram o roteiro para a felicidade do espírito e da carne. Na Na Umbanda, Jesus é sincretizado com Oxalá, o maior dos Orixás, cuja vibração ou emanação energética não faz parte da prática da incorporação. Diferentemente do inquieto Ogum, do alegre Oxóssi ou do calado Xangô, simplesmente não existe incorporação de Oxalá. Ponto. Cantamos os pontos de Oxalá e sentimos sua vibração, mas ninguém incorpora. Mas supervisiona tudo, basta lembrar que é com a oração do Pai Nosso que abrimos e encerramos nossos trabalhos.
Definido o ensinamento cristão como elemento integrante da Umbanda praticada no Terreiro do Pai Maneco, ou ainda, estabelecidos os critérios de minha própria formação sincrética, como pensar o exercício desse amor no dia a dia? “Amai-vos uns aos outros”: sabemos que esta é uma atitude positiva e procuramos nos esforçar para emanar amor. Mas só por essa afirmação, já podemos perceber a dificuldade de sintonizar com a vibração de Oxalá. Algo muito próximo ao conceito de mundo ideal de Platão, em contraposição ao mundo real, este em que vivemos. Resumindo: gostar 100% de todo mundo é impossível para qualquer um de nós. Nos planos superiores, contudo, é este tipo de amor em constante expansão que impera. As entidades que trabalham na Umbanda (e em outras religiões que afirmam a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos) têm uma capacidade de amar que não podemos compreender. Para nós, encarnados, permanece a convicção de que é possível melhorar a qualidade das relações humanas, ainda que com muito esforço.
De volta a Oxalá e aos processos de formação da sociedade brasileira através da miscigenação de índios, negros e brancos, penso, num olhar globalizado, que John Lennon deve ser filho de Oxalá: imaginar todos os povos vivendo em paz, só pode ser coisa dele. Numa entrevista concedida e Décio Pignatari , Umberto Eco afirma ser filho de Oxalá, já que dois Pais de Santo, um de Umbanda e outro de Candomblé, foram enfáticos na mesma informação. Oxalá, portanto, é um Orixá que rege pessoas com grande responsabilidade social e seus mistérios parecem ainda maiores pela força simbólica que o sincretismo adquire na contemporaneidade.
Os mistérios da espiritualidade em geral, e da Umbanda em particular, me interessam, pois nesses 30 anos de prática ritualística, o que desconheço supera de longe aquilo que conheço. Afinal de contas, o não compreender faz parte da esfera da fé, da religiosidade, da descoberta de forças que não nos cabem ou nos competem, mas às quais gosto de prestar atenção. Diferentemente da racionalidade, a fé não acompanha a lógica do pensamento, muito embora ele sirva como critério para se evitar mistificações e fanatismos.
A segunda máxima cristã que mencionei: “Amar ao próximo como a ti mesmo”, me parece objeto de interessante reflexão, já que me proponho a analisar determinadas relações humanas, decorrentes das novas mídias. Não posso deixar de pensar que, se demonstramos tão pouca tolerância para com nossos irmãos, é porque não temos dedicado a devida atenção para nós mesmos. Diferentemente de acreditar que (e agora amplio a reflexão para esferas além do whatsapp) nos tornamos cada vez mais egoístas e egocêntricos, creio que poderíamos praticar com mais consciência o amor próprio, para podermos expandi-lo ao nosso redor. Se não me amo, como poderei amar alguém? Quando temos suficiente auto-estima, não somos atingidos por comentários que nos parecem ambíguos, sem que o outro ao menos sonhe que possa ter nos magoando.
Em suma: entre enganos e melindres, o que falta é gostarmos mais de nós mesmos, não com uma vaidade exacerbada, que nos levaria a achar que somos melhores do que os outros, mas com a humildade de sabermos perdoar erros, aceitar defeitos, valorizar acertos e, acima de tudo, acreditar no esforço para trilhar um caminho pautado na simplicidade, na caridade e na fé. Sem amor próprio, fruto de uma educação sensível, não nos conhecemos. E sem nos conhecermos não temos parâmetros para compreender as dificuldades nossas e/ou dos outros. Correndo o risco de cair no lugar comum, volto à seguinte questão: se cuidarmos de nós mesmos, procurando agir de forma ética e respeitosa, não teremos tempo de sobra para criticar nossos irmãos. Talvez amar o outro como a nós mesmos exija muito mais de nós do que costumamos imaginar: temos que nos conscientizar da constante falibilidade e da eterna necessidade de aprimoramento espiritual.
Na Umbanda feijão com arroz, ensinada por Pai Fernando e aprimorada por Mãe Lucília, aprendemos a não inventar, a seguir os princípios básicos da casa: a prática do amor e da caridade. Não custa lembrar que este amor, que os espíritos derramam sobre cada um de nós, não deve ser desperdiçado: eles nos amam muito e nos ajudam a dirigir este amor para nós mesmos, afinal, somos sempre o outro de um alguém. E como tal, gostamos de ser amados e respeitados.

Cristina Mendes
Julho de 2017
 

Categoria: Mãe Cristina.

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