Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, domingo, 25 junho de 2017

Três Vezes Cigano

Três vezes Cigano. E em nenhuma vez bem sucedido...

Laura - Terreiro do Pai Maneco

Uma vez, “mago” mal orientado e mal formado, utilizando-se de feitiços e magias para conquistar mulheres, dinheiro, bebida e poder local. Feiticeiro, cigano falso de dente de ouro, colocava menininhas pra correr, humilhava homens de respeito e desfazia casamentos felizes.

Outra vez, cigano de rua, sem tribo nem família nem amigos, que fazia o que pedissem, se fosse bem pago. Para o bem ou para o mal. Novamente, conquistador e irresponsável, com gosto pelo bom vinho e a boa música, cercado de amigos que desapareciam assim que o dinheiro indignamente conquistado acabava, juntamente com o banquete improvisado, regado a piadas infames, histórias de sedutores e vinho rubro. Novamente, desfazendo casamentos, humilhando quem quisessem que humilhasse, fazendo qualquer coisa por uma moeda de ouro ou objetos de prata ou qualquer coisa reluzente.

Por fim, cigano reticente, fujão, deslocado dentro da própria tribo. Ausente e arredio, recusava aprender qualquer coisa sobre magia, leitura de cartas ou de mãos. Nossa querida Cigana velha procurava conversar comigo, explicando a magia cigana, as virtudes da magia bem feita, o amor que um cigano podia trazer a vida de quem passasse por seu caminho. Mas sempre relutava, fingia escutar porém não ouvia, angustiado e triste por toda uma existência...

Cigana velha desencarnou logo, e me vi ainda mais solitário, tendo perdido a única pessoa com quem conseguia conversar. Ao som dos violinos e violões ciganos, me embriagava por noites sem fim, não só de vinho mas também de tristeza infinda... Escrevia poesias e cantarolava canções ciganas, mas apenas para mim mesmo. Não conseguia me adequar à vida em grupo, lá permanecendo apenas por não ter forças para partir e procurar meu próprio caminho.

Um dia, sonhei. Sonhei que encontrava Cigana velha em lindo campo florido, e que ela sorria e me abraçava, enquanto eu chorava como criança que fez tudo errado e precisa desesperadamente de um afago apesar de tudo. Cigana velha acariciou meus cabelos, me olhou nos olhos – nos olhos d’alma, e cantarolou: “Longo foi o meu caminho, andei por esse mudo andei; sou um andarilho, sou Cigano! Hoje eu sei. Sei que ao caminhar, cumpro minha missão: dou o meu axé, a quem estender a mão”... Chorei ainda mais. E então Cigana velha disse: este é Pablo. Siga com ele, e corrija seus erros passados aprendendo o verdadeiro amor e a verdadeira magia do Povo Cigano.

Acordei encharcado de suor, ardente em febre. A canção cantarolada por Cigana Velha não saia de minha cabeça, que tonteava... Desencarnei pouco depois, após dias de febre, de sonhos intensos e sem nexo, em que era atacado por inimigos invisíveis, que só desapareciam quando eu conseguia cantarolar... “Longo foi o meu caminho...”.

Cigana velha veio me buscar. Abraçou-me, e disse: segue com Pablo. E foi o que fiz.

Hoje, sou aprendiz de Cigano. Pablo me acolheu, amou e orientou. Aceitei o caminho umbandista que me foi oferecido, e agora integro sua falange como aprendiz, como aspirante. Estudo muito, observo muito, aprendo muito. E agora é chegada a hora de colocar em prática tudo isso... É chegada a hora de aprender a ser Cigano. De estender a mão a quem quer que passe por meu caminho. Após séculos andando sem rumo, descubro a maravilha de se caminhar sob a luz do luar e das estrelas, cumprindo a missão de simplesmente ser Cigano.

Agora, sou apenas Ricardo. Quem sabe um dia, após muito caminhar, serei Pablo.

Bandeira da Amizade