Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, segunda-feira, 20 novembro de 2017

Minhas duas Marias

Em um de meus últimos suspiros, fui visitada e amparada por um espírito... Maria Padilha que estou ligada até hoje.

Por volta de 1818 eu nasci. Meu nome é Maria Rosa da Conceição, sou filha de um fazendeiro em Alagoas.

Cresci na fazenda de meu pai, e me apaixonei pelo capataz da fazenda, e acabamos nos encontrando escondido de meu pai. Aos 19 anos, fui prometida para o filho de um outro fazendeiro. Mas sem amá-lo e amando profundamente o capataz da fazenda, resolvi fugir para Pernambuco.

Meu pai mandou nos perseguir e um dia fomos encontrados pelo novo capataz de meu pai e alguns jagunços. Vi meu marido ser morto por golpes de facão e eu fui violentada e humilhada por todos que estavam ali e levada de volta para meu pai com minha filha recém nascida.

Meu pai me humilhou e com uma expressão de muito orgulho cuspiu no meu rosto e no de minha filha e nos expulsou. Não tive medo de enfrentar a vida, mas minha filha não merecia este tipo de vida. Resolvi fugir novamente para Pernambuco e pedir amparo para minha filha aos meus tios.

Eles me receberam não como sobrinha, mas como serviçal e fui novamente muito humilhada e agredida, sendo que suportei em nome de minha filha.

Vi minha filha ainda muito pequena, que mal engatinhava morrer de varíola. Ai fugi novamente. Agora sozinha e sem amparo, não tive alternativa a não ser me entregar a prostituição.

Nessa vida de orgias, muita bebida e fumo, acabei por pegar tuberculose e muitas doenças venéreas. Passei a ser rejeitada até pelas prostitutas do lugar e as pessoas sempre que me viam nas vielas, passaram a me chamar por puro escárnio de Maria Mulambo.

Os anos se passaram e fui encontrada pelos meus irmãos, mas já era muito tarde.

Em um de meus últimos suspiros, fui visitada e amparada por um espírito... Maria Padilha que estou ligada até hoje.

Sou Maria Mulambo. Desculpe, e fique em paz.

Bandeira da Amizade