Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, domingo, 26 março de 2017

Patrimônio Imaterial da Umbanda

Setembro de 2012
A pedido da Mãe Lucília o Grupo de Estudos voltou às atividades no mês de agosto/12 com uma sugestão “Gostaria que vocês começassem a pesquisa pelo Patrimônio Imaterial da Umbanda”. Na nossa primeira reunião o tema foi proposto e tivemos a grata surpresa em ver que os presentes na reunião além de adorarem a ideia, abraçaram a causa e, então, contando com a participação dos amigos das giras que estão participando deste trabalho ele está sendo desenvolvido. Mas a primeira pergunta que todos fazem é:

“O que é Patrimônio Imaterial da Umbanda?
Patrimônio Imaterial abrange expressões culturais e as tradições que um grupo de indivíduos preserva em respeito da sua ancestralidade para as gerações futuras.”

A produção de cultura é uma atividade inerente ao ser humano, desde o início da civilização. De forma ampla, cultura é tudo o que o intelecto do homem produz: engenharias, ciências biológicas, comunicação, enfim, tudo.

Contudo, quando falamos de arte e cultura, é comum que algumas linguagens específicas de comunicação da ideia e dos sentimentos humanos sejam as eleitas: música, dança, artes plásticas, teatro, literatura e modernamente somam-se o cinema e a fotografia. Colocaríamos até mesmo a gastronomia neste rol.

Estas artes, como vemos, são normalmente produzidas por uma pessoa que tem a intenção de que sua obra seja reconhecida como uma forma de expressão da cultura, como patrimônio cultural. Assim, tais obras normalmente podem ser descritas, possuem um suporte físico ou podem ser registradas via gravação, e podem também ser catalogas e passar a integrar um acervo, uma coleção, um catálogo. Logicamente, o teatro e a dança possuem características mais efêmeras, mas ainda assim podem ser gravadas, e indicadas como obras de grande qualidade artística.

Ocorre que de vez em quando a atividade corriqueira do homem em comunidade também possui alta qualidade artística, e nem por isso quem a está produzindo teve a intenção "artística". Sim, porque fazer arte, como dissemos, é inerente ao ser humano.

Estamos falando de práticas, modos de fazer, conhecimentos que vão passando de pai para filho, tradições, técnicas, e tudo mais que o povo produz em seu dia a dia, e que carrega uma forte carga artística. Não existe interferência da mídia, da cultura pop, as coisas acontecem porque a tradição assim determina. Isso é patrimônio imaterial.

A UNESCO, que é a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, é o órgão internacional que cataloga e registra elementos de patrimônio imaterial mundo afora. E no Brasil quem desempenha esta função é o IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Bem, sabendo o que é Patrimônio Imaterial fomos pesquisar onde ele se ‘encaixa’ na nossa Umbanda e durante a conversa do grupo descobrimos que encaixa-se em tudo: roupas, cantos, instrumentos, utensílios, enfim, tudo que temos na umbanda vem de nossa ancestralidade e está sendo transmitida de geração em geração há, pelo menos, 104 anos.

Nossa população foi formada por europeus colonizadores, indígenas já moradores dessas terras e africanos trazidos pelo escravismo. Nossa cultura acabou sendo uma mescla de todas essas etnias, hábitos, religiosidade e utensílios. Nada mais lógico que uma religião que mantenha em sua essência a presença espiritual dessas etnias, respeite suas particularidades e cultue suas origens seja considerada como um elemento de Patrimônio Cultural Imaterial, não somente por ser uma religião ou ser ‘nossa’ religião, mas simplesmente por trazer, representar e respeitar toda a origem cultural, social e religiosa brasileira.

Vamos colocar aqui alguns exemplos do que já é considerado Patrimônio Imaterial pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional): Ofício das paneleiras de Goiabeiras; Arte Kusiwa (pintura corporal e arte gráfica Wajãpi), Círio de Nossa Senhora de Nazaré; O Samba de roda do Recôncavo Baiano; O modo de fazer Viola-de-Cocho; Ofício das baianas de acarajé; Jongo no Sudeste, A cachoeira de Iauraretê (lugar sagrado dos povos indígenas dos rios Uapés e Papuri), O Frevo, Tambor de Crioula do Maranhão, As matrizes do samba do Rio de Janeiro (Partido Alto, Samba de Terreiro e Samba-Enredo), Roda de capoeira, entre outros.

Como podemos ver nesta lista de elementos já registrados como patrimônio imaterial brasileiro, religião e cultura estão intimamente ligados sob o ponto de vista cultural, por isso absolutamente cabível o estudo solicitado pela Mãe Lucília.

Para realizar nossas investigações, resolvemos adotar uma metodologia e para elaborá-la, partimos de uma premissa: a fé do povo sempre se traveste de elementos visuais, sonoros, táteis, gustativos e olfativos que acabam por ser arte, em última análise.

Por isso, começamos neste artigo a trazer para vocês as nossas descobertas e conclusões sobre Umbanda e Patrimônio Imaterial, e vamos pesquisar os elementos culturais e artísticos passando exatamente pelo modo sensorial de contato com o ser humano: visão, audição, tato, paladar e olfato. A cada edição do jornal abordaremos um sentido, a começar pelos elementos visuais da Umbanda como Patrimônio Imaterial, já na próxima edição. Aguarde e acompanhe!

Equipe do Grupo de Estudos nessa pesquisa
Agne Roani de Carvalho, Carolina de Castro Wanderley, Darinês Sofia Ricardo Rosa, Denise Freitas de Oliveira, Eliezer Sousa Jr, Franciele Schmidt, Guilherme Souza, Izabel Cristina dos Santos, Lilian Maria Dallastra, Lucas Loureiro Nunes, Marcia Rocha e Nehru Moreira de Sousa.

Categoria: Grupo de Estudos.