Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 abril de 2014.
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Exú do Rio

“Sabe, fio, eu era coronel. Desses que tem terra, possui muito dinheiro, muito poder. E, tendo poder, eu podia ajudar muitas pessoas. E vinha muita gente me pedir...

Põe mais um pro “Coroné”
Edgar Cavalli Junior (Juca), gira de sexta-feira.

Estávamos no meio de uma gira de Quimbanda, entre uma consulta e outra,
quando o seu Exu do Rio virou para mim (seu cambone) e disse:
- Põe mais um conhaque aí pro “coroné”!
Observando minha expressão de curiosidade, emendou:
- “Qué sabe por que coroné”? Depois te conto.

Ao fim daquela proveitosa noite de trabalhos, seu Exu do Rio mandou que eu me sentasse à sua frente e contou-me a seguinte história: “Sabe, fio, eu era coronel. Desses que tem terra, possui muito dinheiro, muito poder. E, tendo poder, eu podia ajudar muitas pessoas. E vinha muita gente me pedir, mas eu não ajudava ninguém não. Eu tinha muitas escravas e aprontava com todas. Tinha uma negrinha que
trabalhava na casa, era a minha preferida. Eu “tava” sempre com ela, vivia “me deitando” com a dita cuja. Até que ela engravidou. Foi aí que eu resolvi me casar. Mas não pense que o coronel ia se casar com a negrinha, não! Eu mandei vir da cidade uma moça branca, jeitosa e de boa família para ser minha esposa. E casei. Bom, como já disse, eu era muito rico e poderoso e tinha muitas terras,muita riqueza mesmo. Um dia, saí com meu cavalo pelas minhas propriedades, cavalgando pelo mato, sem rumo, só para me distrair um pouco. Eu estava beirando um rio que eu gostava muito, o Rio Grande. Eu adorava aquele rio.
Foi quando ouvi umas vozes. Apeei do meu cavalo e fiquei escutando aquela conversa; era a negrinha conversando com a minha donzela. Notei que esta chorava, enquanto a escrava sorria. Não precisei pensar muito para deduzir o que aconteceu: a negra contou que estava “embuxada”, e que eu era o pai.
Quando eu vi num olhar tristeza, e no outro, satisfação, não tive dúvidas: agarrei as duas e afoguei os dois olhares no rio que eu tanto amava!

Esse é o motivo do meu nome, Exu do Rio, porque eu matei minha mulher,minha amante e meu filho afogados. Mas não é por isso que eu trabalho como Exu hoje na Umbanda, quer dizer, não só por isso. Eu cometi muitos e muitos erros enquanto encarnado e agora tenho que reparar isso tudo trabalhando aqui. Essa história é só o motivo do meu nome. E,se eu fizer direito meu trabalho, eu posso (depois de muito tempo e esforço) voltar como boiadeiro, buscando sempre reparar o meu mal, ajudando os outros.”

Terminada essa interessante e triste comunicação, fiquei olhando por algum tempo para seu Exu do Rio, que logo soltou aquela sua gostosa gargalhada e disse:
- “Bão, fio, isso é passado, e agora nós temos mais é que viver o presente. E ta na hora de eu í me embora, porque já tão mandando! Sarabumba, rapaz!”.
- Sarabumba, meu pai.
E lá se foi o “Coroné”!