Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 28 março de 2017

Seu Chico Peão

por Laura - Gira de Quarta a tarde

Sarve!

Ôceis sabe que o bom Boiadêro sabe exatamente quantos boi tem na sua boiada; é como diz o ponto, “minha boiada é de trinta e um, minha boiada é de trinta e um, eu contei foi trinta, tá faltando um, eu contei foi trinta, tá faltando um...”... Ou seja, o bom Boiadêro sabe quantos boi tem, e sabe quando tá fartando um, quando um se perde pelos caminho andado; e aí, juntamente com seus Peão, com seus “auxiliar”, o bom Boiadêro sai atrás desse boi perdido. E enfrenta chuvas, tempestades, sór forte, bichos brabo do mato, rios bravios... inté achar o seu boi; e, se esse boi tiver em apuros, ou ferido, ou preso nalgum lugar, esse Boiadêro vai lutá com todas as suas força pra ajudar esse boi, pra libertá-lo de sua enroscada... i si realmente num tive jeito, o Boiadêro vai ficá ali, junto do seu boi, até que este termine de deixar este mundo.

Pois intão. Se um bom Boiadêro já faiz isso, já si importa tanto ansim cum suas cabeças toda, imaginem um óóóótimu Boiadêro o que num faiz! E quem é o maior, melhor e mais perfeito Boiadêro di todos os tempo? Bão... O mais perfeito Boiadêro di todos os tempo na verdade num é bem um Boiadêro não... É um PASTOR. E quem é este pastor? “O Senhor é meu Pastor!”! O Senhor nosso bom Deus. É como diz aquela reza bunita qui só: “O Senhor é meu Pastor, nada me falta...”...

Esse Pastor, nosso bom Deus, sabe ixatamente quantos cordeirinho tem no seu rebanho. E fica muito atento com o caminho que cada um deles percorre; e tem seus Peão e auxiliar, que são os Orixás! E cada Orixá é responsáver por uma levada de cordeirinho...

Mas ôceis deve di ta si perguntando pruquê essa conversaiada toda da minha parte... E eu vô expricá: ôceis ta tudo tristinho e abatido e até brabo, com esse acontecido triste qui só, qui aconteceu com a irmãzinha docêis. E eu entendo...

Aí fico iscutando ôceis rezá, e pedi, e lamentá, i chorá... E fiquei pensando narguma coisa batuta pra dizê, pra consolá ôceis... Mais o certo é qui consolo num tem, mas tem pelo menos umas palavra né, palavras que na verdade são pequenos afago pra carmá o coração docêis! Intão arresorvi contá uma historinha...

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Bão... Deus, o Grande Pastor, sabe por onde anda cada uma de suas ovelha. Uma delas se perdeu, ou pelo menos achou que se perdeu e se agarrou firmemente nessa idéia... E sofreu, e sofreu, e sofreu. E Deus andou rios e montanhas e florestas procurando essa ovelha, e chamando-a de vorta ao rebanho. Quando finarmente a ovelha percebeu que Deus estava a procurando, ou melhor, qui Deus sempre tava ali junto, num deu bola não. Virô as costa e continuou sofrendo, e sofrendo, e sofrendo, achando-se indigna desse amor do Grande Pastor.

E, sozinha com sua dor, essa ovelha achou qui tava si transformando divagarinho num lobo... e acreditava nisso com muita força... Cum tanta força qui foi ficando com bocarra, e garras e dentes enormes, e rabo... e raiva. Foi virando um “lobo mau”.

E essa ovelha vestindo pele de lobo mau começou a acreditar que realmente era este lobo mau; e suas orelhas não mais permitiam que ouvisse a voz do Pastor lhe rogando que vortasse ao rebanho...

E um dia esse lobo mau cruzou com uma ovelhinha, branquinha como a neve, que caminhava por ali, sob a proteção do Grande Pastor e de seu Peão, ou melhor, de sua “Peoa”, Mamãe Oxum.

E o lobo mau sentiu muita raiva e tristeza e angústia, ao ver aquela ovelhinha que lhe lembrava vagamente de um lugar, de um rancho e de um rebanho a muito esquecido... e então a ovelha que vestia a pele de lobo aceitou definitivamente tornar-se lobo, atacando e ferindo sua antiga irmã, ovelhinha branca e alva... e a Peoa Mamãe Oxum, que ali estava, durante todo o tempo vigiou, orou, cuidou e abençoou a ovelhinha branca e alva, que por mais que estivesse sofrendo, sabia que não só a Peoa, mas o Grande Pastor ali estavam, junto com ela...

E então a ovelhinha alva deixou seu corpo físico, aos poucos, e foi sendo envorvida no perfume suave do lírio branco da Mamãe Oxum, que com muita doçura pastoreou sua ovelhinha até a morada espiritual do Grande Rancho...

E o Grande Pastor ficou triste, e chorou, e chorou e chorou, pois havia perdido uma de suas ovelhas... Uma de suas mais lindas crias havido vestido uma pele de lobo, e aos poucos foi sendo dominada e transformada nesse lobo... e agora estava ainda mais distante e surda aos seus apelos.

Mas o Grande Pastor ainda a segue e espreita, na sábia esperança de que um dia essa ovelhinha O escute novamente, e desista de se vestir, pensar, sentir e agir como um lobo mau, e retorne ao rebanho, aonde, com muita alegria e axé, será recebida por todos, inclusive e principalmente, pela alva ovelhinha sacrificada...

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Meus quiridos... contei esse história pra ajudá ocêis a entender que Deus é Pai de todos, é Pastor de todos, e que nenhum cordeirinho permanecerá nas trevas, sozinho. Da mesma forma, nenhuma ovelhinha partirá deste mundo sozinha... Por mais que as coisa horríver e triste e absurdas que acontecem por causa do livre-arbítrio das ovelhinha em se acharem lobos aconteçam, nunca nunca nunca nunca uma ovelhinha deixa este mundo sozinha... O Grande Pastor e seus Peões estão sempre junto, sempre presentes, sempre sofrendo junto cada minuto do sofrimento, da vida terrena e do desencarne... e sempre sorrindo junto aquele primeiro sorriso lindo e claro de quem entende que retornou ao Grande Rancho do Pai.

Um grande abraço em cada um de ocêis.

Seu humirde companhêro, Chico Peão.

20/07/2010

* Texto psicografado pouco tempo após o inesperado (e brutal) desencarne de nossa amiga querida e irmã de corrente Telma Fontoura, filha de Oxum, estrangulada quando caminhava pela praia de Shangri-Lá (PR), onde tinha uma casa e onde morava parte de sua família.
 

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