Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 14 dezembro de 2017

Por minha filha voltei a Umbanda

por Chaiane Fava

Um dia, eu ainda criança, com uns 9 anos (mas era responsável pelos meus irmãos - um de 7 e outro de 5 anos), voltávamos da creche, assim como era todos os dias vínhamos os três brincando pela rua, umas cinco quadras da nossa casa, tínhamos mudado a um ou dois anos para aquela casa (que lembro-me que nós mesmos ajudamos a reconstruir pois só tinha ali umas 4 paredes semi-demolidas, com o pouco dinheiro foi aproveitado sua bases e readaptada para a nossa família – a casa era no meio do lote que era grande, que foi cercado por arame farpado e portão de ripas pregadas), então naquele dia ao me aproximar da casa me bateu um medo muito grande e quando entrei no portão comecei ouvir vozes que vinham de dentro da minha casa, era quase como uma discussão mas ao mesmo tempo pareciam que estavam se divertindo muito lá mas eu não entendia nada e fiquei apavorada, não deixei meus irmão entrarem e corri para a casa do vizinho do outro lado da rua (lá estava seus sobrinhos somente, também duas crianças), relatei ter ouvido vozes lá em casa, naquele momento, e ele disse ter visto dos homens entrar lá mas que já tinham saído, um com uma caixa e outro com uma trouxa de roupas, que saíram pelos dos pulando a cerca e que tinham facas nas mãos, que ele ligou para a polícia mas a polícia havia pensado que era trote, e não veio. Pedi para ir comigo até em casa para ver se ainda estavam conversando lá dentro (e fomos em 5 “crianças”, uma com mais medo do que a outra – mas acho que nenhum de nós entendia muito bem sobre o risco que nos colocávamos), ao nos aproximar do portão nos armamos com pedras e pedaços de paus e fomos muitos silenciosamente em direção a casa, e eu não ouvia mais toda aquela conversa, estava tudo em silêncio, passei a mão na maçaneta da porta e ela estava trancada, segui até a parte de trás da casa, e a janela da sala estava toda estourada, aí o medo foi aterrorizante, não tive coragem de ir até lá e olhar por ela, voltamos para a casa do vizinho e ficamos vigiando pela fresta da janela para ver se alguém entrava ou saia da casa até minha mães chegar, aí explicamos a ela, e ela foi ver o que tinha acontecido, mas com certeza não tinha mais ninguém lá dentro, com certeza ninguém saiu pelo lote pois estávamos vigiando pela janela, então eu não sabia explicar aquelas vozes que eu ouvido, não mesmo.

Outra vez, nem imagino quanto tempo, estávamos brincando de bicicleta, só tinha uma bicicleta para nós três, então montamos um circuito e cada um dava uma volta e os outros esperavam a sua vez, naquele momento quem estava dando a volta era o meu irmão do meio, eu e o menor estávamos sentados na terra esperando, foi quando senti algo que era para ser uma sombra, porém era de luz (acho que estranhei porque o sol já era forte) e ao olhar naquela direção vi um senhor muito negro e idade avançada com um terno branco (mas era extremamente branco) e de chapéu branco, que sorriu para mim, fui mostrar ao meu irmão caçula e em fração de segundo ele não estava mais lá, perguntei se ele tinha visto, e ele disse que não, contei ao meu outro irmão, mas acho que não contei para mais ninguém, ao mesmo tempo em que me assustava com aquele “segundo” episódio estranho eu estava encantada por aquele simpático senhor, assustada sim, mas não estava com medo.

Outra situação ocorreu quando novamente voltávamos da creche, um cachorro enorme havia se soltado e veio na direção de nós três, aquilo me marcou tanto que me lembro detalhes do que pensei, em um momento eu que tinha nos defender, o que me passou pela cabeça¿ pensei se eu correr ele vai pegar o caçula que não vai conseguir fugir, não havia pedras ou qualquer coisa próxima para nos defender daquele enorme cachorro preto, não havia ali próximo nenhuma casa para pedir ajuda, então instintivamente (pois não tenho outra explicação) pedi ao meu irmão pegar na mão do caçula e levá-lo para a casa que andasse rápido mas que não corresse para que o cachorro não o seguisse, e que não olhasse para trás acontecesse o que fosse, e foi o que ele fez, eu por minha vez, acho que não estava raciocinando, vi aqueles caninos latindo com muita raiva para nós e invés de correr para a outra direção (afim de que ele corresse atrás de mim ao invés dos meus irmãos), ergui os braços e fui de encontro ao cachorro mostrando os meus dentes e rangendo, o cachorro parou, virou-se e voltou correndo por onde tinha vindo, acho que eu mesma não acreditei, quando vi que ele sumiu, voltei correndo para alcançar meus irmãos, sentia as pernas trêmulas, mas estava feliz por estarmos todos salvos.

Agora eu já deveria ter uns 11 anos, minha mães me levou com ela a uma casa não me recordo bem o nome, mas, terminava com “... das sete cachoeiras”, lá no inicio dos trabalhos eles trancavam a porta e só abriam ao final, sentada na assistência eu tremia muito e rezava para que meus anjinho não me deixasse “ficar possuída” por nenhum espírito dali, tomei passe mas sentia muito medo e tremia muito. Não sei se foi antes ou depois disto, mas nesta época, tranquei-me no meu quarto e sozinha chamei por Exú, eu estava sentada e mesmo assim lembro-me de ter ficado zonza, vendo tudo, mas sem me controlar, levantei abri a porta do meu quarto e peguei um copo e fui direto para a geladeira, lembro-me que peguei a cachaça (que era usada por minha mãe para fazer caipirinha) enchi o copo e virei, e não senti absolutamente nada no paladar ou garganta, nem como água porque água sente passar pela garganta, relmente nada, isso em silêncio (ao menos não lembro que nenhum som) e sentei-me na minha cama, e só lembro-me de minha mãe segurando os meus braços, e eu batia a cabeça na parede e dizia coisas como destruir e odiar. Esta experiência me traumatizou muito e nunca mais quis saber de nada, apesar de vezes (ou outras) ouvir me chamar, e ter inúmeros pesadelos.

Aos 14 fui para o grupo de jovens da igreja católica e aos 16 contrariando toda a família fui para um convento, realmente eu sentia que tinha vocação, os melhores anos desde toda a minha infância, pois ali eu realmente tinha um propósito e estava constantemente buscando melhorar como pessoa, evoluir e doar-se, ali me vi como realmente era imperfeita, sentia as vezes que as coisas não estavam legais em casa e quando ligava tinha a confirmação do meu pressentimento, e continuava vendo imagens, porém como santos, como anjos, até que um dia na capela o que eu vi foi uma figura muita feia deformada com unhas grandes, tive medo e desmaiei, sai carregada para fora e rezei muito pedindo proteção. Não saí de lá por causa disso, saí porque entrei em crise, achei que eu não estava sendo tão boa quanto precisava ser, eu queria fazer as coisas do meu jeito, tinha dificuldade de acordar cedo e estava me enchendo com o pecado da gula, eu não conseguia me aceitar, pedi um tempo e entenderam que eu queria ir embora, voltei para casa aos 18 anos.
Segui uma vida normal voltei a namorar a sair, noivei aos 19 anos, mas depois de um ano vi que não seria o que eu buscava, e terminei o noivado. Comecei a namorar novamente um rapaz muito lindo que tinha conhecido no segundo grau, após alguns meses de namoro descubro que ele é “espírita” (como se identificavam - na verdade a Mãe de Santo chamava de Umbanda Branca), eu me revoltei, perguntei a ele se era verdade o que a mãe havia me contado, e ao confirmar perguntei o porquê não me contou antes, e lembrando-me de minha experiência saí e disse que não queria mais nada com ele, por ele ter mentido e por não ser uma religião correta. Ele me puxou pelo braço e chorando respondeu que imaginava que aquela seria a minha reação e por isso não contou, mas que nunca questionou a minha religião e a respeitava e não entendia porque eu não respeitava a dele seu eu nem a conhecia, justifiquei que conhecia sim e que eu não gostava, e ele me garantiu que eu não conhecia, e eu o desafiei para que então me mostrasse à religião dele, disse que iria respeitar, mas que não iria garantir acreditar nele, porém a tenda a qual ele pertencia “Tenda de Umbanda do Reino da Vó Ana” já não existia mais, e algumas reuniões eram feitas nas casas dos médiuns ao da mãe de santo, Aquele dia chegamos um pouco atrasado ao trabalho, e a Mãe de Santo não me conhecia, já estava incorporada com a Preta Velha “Vó Ana”, que conversou com todo mundo, muito humilde, de fala simples, muito feliz, tomando café preto e fumando cachimbo, eu ali só observando, de cabeça baixa e olhos fechados, apontou com a mão para mim (sem erguer a cabeça) e perguntou “quem é aquela filha com olhos tão lindos” e meu namorado pegou na minha mão e me levou até ela, ela segurou nas nossas mãos e disse a ele, que ele tinha feito uma boa escolha, chorei muito, e era muito diferente daquela experiência que eu tinha passado, agradeci a oportunidade engoli o meu orgulho e pedi desculpas.

Comei a aprender um pouco sobre aquela religião, e fazia-se encontros quinzenas na casa dos pais do meu namorado, e eu não perdia um, na casa haviam algumas regras: não se bebia nada alcoólico nos trabalhos e aos poucos foi tirados o cigarro também, a concentração e respeito ao ritual eram unanimes, as músicas era colocadas no toca fitas, era necessário um período de acompanhamento (o médium seria cambone por um período mínimo de 1 ano – camboneei dois anos), e quando comecei a desenvolver-me para receber as entidades, por ordem do seu Exú o “Grande Rei” as atividades deviriam ser encerradas pela “falta de unidade e pela falta de segurança” para contra aquele que entravam em suas casas.

Porém antes de encerrar a corrente Vó Ana se dispôs a nos casar, se fosse de nossa vontade, ela mesma marcou a data e tivemos pouco mais de uma semana para nos prepararmos, foi lindo, foi mágico e foi à última vez que conversei com a Vó Ana incorporada (foi no nosso casamento em 1º de setembro de 2001). Sabíamos que não encontraríamos a mesma seriedade em qualquer casa, então ficamos desolados por algum tempo mas aos poucos fomos nos acostumando com o afastamento. Eu então só conversava com as entidades quando conseguia sentir sua presença, mas passei a não ver mais nada, cega, senti-me “fechada”\”protegida”.

Tivemos após alguns anos uma filha, que sempre teve muitos pesadelos, e, um colega de serviço começou a me instigar dizendo o que ele sentia e via, e ele me contava que ia em vários lugares, comecei a pedir para que não fosse, mas voltei a ouvir vozes na maioria das vezes na presença deste colega e ele me convenceu a ir em uma cartomante que era amiga dele. Lá ela falou toda a minha vida e disse que eu precisava encontrar uma casa espiritual, pois, havia um trabalho para separar eu e meu marido, mas que como estávamos protegidos não nos afetaria e sim afetaria a minha filha que estava vulnerável em seus sonhos e que logos ficaria doente e que levaríamos aos médicos e os médicos a medicariam, mas não encontrariam a razão, acreditei em tudo menos naquilo, porém passei a perceber que minha filha estava ficando doentinha constantemente, mas aparentemente eram gripes, me assustei quando uma vez ela teve um acesso de tosse e cuspiu sangue.

Contei ao meu colega como era lá na tenda e que eu acreditava que assim que uma casa deveria ser que eu tinha medo de ir a algum lugar que não fosse bom. Ele disse que era muito parecido com o terreiro do Pai Maneco. E eu quis conhecer, fui com ele até lá, e eu amei, o Pai Fernando sempre muito sorridente, e eu soube que tinha giras todos os dias, então fui conhecer as outras também, tinham um mesmo padrão, com pouca diferença no ritual e forma de conduzir os momentos de trabalhos, na sexta-feira levei minha filha e meu marido, pedi para falar com o seu Caboclo da Manhã e expliquei sobre o que disse a cartomante e ele me fez sentar no centro do terreiro e minha filha do lado, eu tremia e eu chorava, mas sentia que seria protegida, ela ganhou uma guia de proteção de Ogum do Caboclo da Manhã que eu colocava sobre ela sempre que ia dormir (pois não aceitava usar) e passou a melhorar, diminuíram seus pesadelos. Decidi e pedi para entrar na gira, cumpri as obrigações de assinaturas e presença em sete giras ainda na assistência, e os módulos do curso da Mãe Jô, e estamos lá todas as sextas-feiras, eu, meu marido e minha filha que passou a dormir cada vez melhor e hoje dorme durante os trabalhos em meio ao som dos atabaques, muito calma e serena, e eu parei de ouvir tantas vozes e sentia suas presenças mais forte lá no TPM.

Não há palavras para expressar o quanto é bom estar lá, servindo cantando, sentindo-se um simples elo de uma corrente, para ajudar a todos que precisarem, a todos os que quiserem (dentro e fora da corrente), a mesma corrente que um dia me ajudou e me encantou, não existe ninguém perfeito, mas estão todos buscando a evolução. Por falar em evolução não posso esquecer-me de agradecer aos inúmeros esclarecimentos, de fato aprendi muito e constantemente estou aprendendo, amo muito o TPM.

Categoria: Espaço do Médium.

Bandeira da Amizade