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Pico da Bandeira
 

Sempre gostei de caminhar na mata, subir um morro aqui outro ali sabe? Ir caminhando, pensando na vida, ouvindo os sons.... bem sou filho de Oxossi né? Tudo bem que na época eu não sabia disso, eu só me achava meio... diferente.

Eu tinha uma turma de amigos bem legal, foi quando alguém sugeriu de subirmos o pico da bandeira, assim mesmo, de brincadeira. Eu, claro, já disse que estava dentro, na hora! Mas ainda tive um certo trabalho de convencimento do resto da galera (faz parte).
Até meados dos anos 70, o pico da bandeira era considerado o ponto culminante do Brasil. Do alto de seus 2980 m de altitude, avistamos a Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, inclusive a linha divisória de MG e ES passa pelo parque.

O parque nacional da serra do Caparaó (onde fica o pico) é na cidade de Alto Caparaó, próxima a Manhu-Mirim (ou Manhu-Açú, agora não lembro mais), MG. Ao chegarmos fomos acampar numa fazenda próxima, para no dia seguinte começarmos a subida.

Levamos de 6 a 7 horas subindo (só caminhada) até a "casa de pedra" – último local com água e espaço para acampamento. Como foi na época do cometa Halley, ainda estava proibido montar barraca lá em cima, portanto deitamos nos sacos de dormir, cobertos por um céu de estrelas simplesmente maravilhoso. Quem disse que alguém conseguiu dormir? Ficamos todos admirando aquele céu deslumbrante e ouvindo aquela mistura de sons, cheiros...

Eventualmente um animal da floresta vinha nos visitar, um cachorro do mato, umas corujas, outros bichos que não faço nem idéia do nome... Até que no meio da madrugada resolvemos começar a subir o resto, para pegarmos o sol nascendo lá em cima.

Mais uma 3 a 4 horas subindo, até que me separei do grupo e me vi lá sozinho. Fazia um frio de rachar (meu termômetro só ia até -5ºC, e ele estava grudado lá - Brrrr). Beleza, continuei subindo, a pilha da lanterna acabando, o cansaço me matando, até quando ficou tudo escuro. A pilha acabou, a água acabou, não tinha lua... Putz e agora?

Como a necessidade é a mãe das invenções, me lembrei do meu isqueiro e com sua luz, consegui vislumbrar uma pedra que tinha um "nicho" - acho que posso chamar assim - onde me deitei e esperei que amanhecesse. Hoje penso que isso foi uma loucura, pois poderia ter morrido congelado ali, fácil, fácil.

Aos poucos o céu foi perdendo aquele negrume e passando para um lusco-fusco, cinza, azul, lilás, vermelho até que o sol surge por cima daquelas nuvens.

O chão era completamente branco de nuvens. Eu só avistava à minha direita o pico da bandeira, um pouco mais alto que eu (ao me separar da turma peguei outra trilha e fui parar em um outro pico) e mais nada. Tudo era algodão, quando o sol finalmente nasceu! Parece que naquele dia o sol nascia só pra mim e que aquele primeiro raio de sol bateu direto no meu peito, esquentando meu corpo e soprando vida em minh'alma. Chorei. De soluçar mesmo. Naquele dia descobri Deus.

Não precisa nem dizer que a cada dia na umbanda, a cada descoberta, a cada história, percebo que nunca estive sozinho, que naquele momento fui abençoado com um espetáculo indescritível da natureza e que eu estava lá, com meu pai-de-cabeça a me proteger e a me orientar.

“Ele é índio guerreiro, é luz, é o primeiro a te iluminar” – literalmente.

Espero poder repetir essa aventura, agora com um pouco mais de conhecimento, e alcançar aquela pedra que foi minha cama e poder agradecer por estar vivo.

Okê Arô Caboclo! Saravá Umbanda!

Ney Brasil Hoffmann