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Umbanda cultural na Bahia,
o Carnaval
 

Bahia
A Umbanda não é exclusiva das encruzilhadas, mas faz parte da cultura do povo brasileiro. A Bahia – um dia vou conhecê-la, tem fama de ser a sede dos Orixás. Mas ninguém melhor para descrevê-la com tanta propriedade do que uma filha desta terra abençoada. Aline, que eu ainda não a conheço, escreveu, ou melhor, descreveu com certeza ainda envolvida na emoção do toque baiano que tão bem conhecemos aqui no sul pela ginga da Ivete Sangalo, isso sem falar nos monstros da música Maria Bethânia, Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso e a família Caymmi. Não sou qualificado para falar sobre os artistas baianos, mas sei apreciar a espontânea escrita de uma legítima representante do povo tão culto e querido pelo Brasil inteiro. Segue seu texto, uma carta eletrônica.

Fernando Guimarães

UMBANDA CULTURAL NA BAHIA O CARNAVAL
“Tenho muito a escrever e não vou me preocupar com a organização das idéias, vou soltando. São impressões que tive, idéias que associei nestes últimos dias”.
No espelho sempre esbarrei em mim mesma. Do espelho podia ver a outra. Tinha medo antes, do que via. Hoje, tenho medo de olhar. Sempre achei que existiam duas. Já cheguei a estudar dupla personalidade e nos romances de suspense sempre me enquadrei nestes personagens. Talvez seja porque posso mudar de um a outro. De ''boazinha e protetora'' posso me transformar num monstro que clama por vingança. De uma mulher decidida posso virar uma criança. O medo de não ser amada pode encobrir a raiva camuflada... Prefiro olhar sempre no espelho, objeto que adoro, a matéria... É o meu lado superficial. Só não sei se é a imagem da boazinha ou da monstrinha que aparece.
Capoeira é o meu esporte. Pratico faz bastante tempo. Cada movimento é uma conquista. Mas nunca peguei cordão nem entrei em roda. Não gosto da capoeira exibição nem do comércio que se faz dela. Gosto do ritmo, do pandeiro, da cadência. Gosto de suar ate conseguir a perfeição de uma seqüência. Adoro a sensação de êxtase, no final do treino. Nunca entrei na sala do meu mestre Carlito sem pedir licença aos grandes mestres que já se foram pelos quais ele faz reverência e nunca saí sem a sensação de plenitude. Quem me provoca isto é a música.

Quer uma legal? Mestre Toni Vargas(numa cadencia bem suave, daquelas que a gente se mata para acompanhar na ''cocorinha''):

''Salve Obaluae
E meu santo protetor
Me cubra com suas palhas
Nada terei temor
Faca de mim um instrumento da harmonia e do amor
Que eu seja um capoeira
Sem medo no coração
Que meu gunga toque forte, carregado de emoção
Afastai meus inimigos
Aproxima meus irmãos
Que eu cuide dos meus alunos
Me de forca para ensinar
Que o partilho deve andar
Que eu não fique com quem me iluda
Salve obaluae
Meu guia
Meu orixá
Camara''

Diga-me, como participar de um treino com um mantra de amor e energia assim e ficar imune? Só poderia me apaixonar pela danada da capoeira!
Conheço o meu mestre Carlito há quinze anos desde que vim morar aqui na ilha. Nunca mudou. Sempre com seu berimbau pronto ou sua corda de cabaças amarradas que vai buscar no mato para arrumar os berimbaus e um monte de crianças que o acompanham aonde vai.
Posso garantir que já tirou muito adolescente do mundo das drogas e já levou de volta muita criança para escola com o seu amor pela capoeira e pelas pessoas.

Ah! o carnaval!
E a quimbanda solta, alegre...
Mesmo com umas cervejinhas na cabeça e muito guaraná em pó para agüentar o tranco, não sai de mim. Não perdi nada do carnaval.
As pessoas se deixam, se largam. Muita Padilha, muito exu reinando! Uma festa!...Claro, têm o lado feio, os excessos, mas estes não enxerguei.
Como poderia eu esquecer do mundo astral quando Salvador em peso clama por seus Orixás!
E o cantor Gerônimo, baiano que faz muito sucesso entre nós, entrou na avenida cantando:

Nesta cidade todo mundo é de Oxum
Homem, menino, menina, mulher...
Toda essa gente irradia magia
Presente na água doce
Presente na água salgada
E toda a cidade brilha!!!...''

E o mestre Gil, o ministro, que em Salvador nada mais é (ou ele é tudo?) que nosso poeta letrado:

''Toda menina baiana tem um santo que Deus dá
Toda menina baiana tem um jeito que Deus dá
Toda menina baiana tem defeitos que Deus dá
Toda menina baiana tem encantos também, que Deus dá...''
Ah!, se pudesse passaria a noite escrevendo as letras das músicas que gosto. Elas têm o poder de me trazer de volta a alegria quando a perco.

Os franceses enlouqueceram! Nunca viram uma concentração tão grande da massa, do povo. Uma mistura de rico nos cordões de um milhão de dólares cada camisa, os pobres de pipoca (pessoas que não tem dinheiro para os famosos abadás e brincam com a mesma alegria, mas na hora que explode uma música na avenida, são obrigados a pular como uma pipoca, sem parar, senão serão pisoteados), dos burgueses em seus camarotes regados a whisque olhando lá de cima como verdadeiros ''reis''(coitados, não imaginam o que estão perdendo...).
Nunca imaginaram como se passava, até então, o trabalho dos que considero os verdadeiros reis do carnaval, o povo que puxa as cordas dos ricos. Trabalham horas (mas se divertem também), para ganhar trinta reais o dia, mais um sanduíche. E os garis, as cinco da manhã, lavando a sujeira do povo...

E o cheiro do carnaval? Tem um odor próprio. Você se acostuma no final. Suor, vários, de diferentes peles, de diferentes raças, misturados ao álcool e ao cheiro de urina do excesso da cervejinha liberada nos cantos, nos becos.
Tudo junto ao calor ''infernal''. As vezes, uma chuvinha rápida, que serve para acalmar os ânimos e misturar os odores ao cheiro de asfalto.
Mas o principal cheiro é o dos filhos de Gandi. Os negões malhados (muito branquinho rico também, pois virou status sair no bloco de negão), muito lindos e garbosos, jogando alfazema nas meninas, distribuindo seus colares de contas azuis e branco, para ganhar um beijo...e haja beijo!!! (menos para as casadas, e claro!!).
Salvador tem um estigma: a maioria negra e pobre e a minoria branca e rica, herança de outros tempos. Só que branquinho no carnaval, quer virar negão e negão no carnaval, graças a Deus, quer ser ele mesmo.
Em Salvador, quanto mais dinheiro mais mal educados e arrogantes. Quanto mais negões, mais conscientes da sua raça. Quanto menos dinheiro, mais diversão, quanto mais dinheiro mais presos ficam nas amarras do medo da violência gritante diante de tanta desigualdade social. Mas com tudo isto dá para ser feliz no carnaval!!!
Pois não e lá que os machões viram ''bichas''? Que ''moca de família'' vira safadinha? Que os tímidos ''soltam a franga''? Que os violentos liberam a energia com o êxtase da dança? Que os covardes ficam valentes? Que pobre vira rico e rico continua rico?
Lembro de outros carnavais, antes de virar uma enorme fábrica de dinheiro, com Dodo e Osmar, os criadores do famoso trio elétrico, agitando a massa por puro prazer...
Eles não estão mais aqui em baixo, mas com certeza por aqui durante a folia.Seu filho, Armandinho, hoje um dos melhores guitarrista do Brasil, os faz reviver cada ano. Quando na terça-feira puxou o famoso ''atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu...'', tive certeza que os dois estavam por lá, rindo da gente, os otários, que podem imaginar que os espíritos iriam perder esta festa! E posso garantir que não ficou um só folião parado.

Aline