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Novembro / Dezembro 2008

No dia 15 de Novembro de 1889 o Marechal Deodoro da Fonseca derrubou a Monarquia instaurando o regime republicano no Brasil. No ano de 1908, no mesmo dia e lugar, o Rio de Janeiro, o Caboclo das Sete Encruzilhadas instaurou a independência da Umbanda tornando-a como a religião oficial brasileira. Por isso a Umbanda está em festa comemorando seus cem anos de fundação.

Aqui na nossa terra aconteceu uma sessão solene na Assembléia Legislativa e também na Câmara Municipal. Está praticamente certa a aprovação do projeto que institui o dia 15 Novembro como dia oficial da Umbanda no Estado do Paraná, a exemplo do que já tinha acontecido na Câmara Municipal. Isso significa que já temos aqui nosso dia oficial e devemos todos nós Umbandista cultuar com alarde esse dia para reavivar a lembrança que nosso povo, através da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa, reconheceu a nacionalidade brasileira da nossa religião. Serão eventos que o futuro vai consagrar. Guardei para analisar nessa seção dois assuntos que navegam visivelmente na fala dos umbandistas: a diversidade e o preconceito.

Nunca a diversidade da Umbanda foi tão falada. Seu reconhecimento e necessidade tem a unanimidade dos praticantes da religião. Essas diferenças entre os trabalhos dos terreiros é que atrai o povo que também têm interesses diversificados. Cada pessoa tem suas manhas e jeitos diferentes e, por isso, os terreiros têm que também acompanhar essa vontade popular. Só que esse entusiasmo não deve ser reconhecido como aceitação. O direito de introduzir uma filosofia, claro que dentro de uma ética, é de cada pai ou mãe-de-santo. E isso deve ser respeitado. Só isso. Respeitado! Não existe a necessidade de haver a concordância dos métodos de trabalhos em nome da diversificação. O que eu faço e digo é assunto meu e dos que aceitam essa minha filosofia. Mas isso não significa que os outros terreiros têm que fazer o mesmo. Basta agir como se isso fosse só assunto meu e que não diz respeito a mais ninguém. É assim que eu entendo.

Quanto ao preconceito a situação é mais grave. É um chavão umbandista dizer que somos discriminados pelas outras religiões. Não são as religiões que nos discriminam, mas nós que nos colocamos assim. Fico imaginando alguém visitando pela primeira vez um terreiro e ouvindo os lamentos dos preto-velhos como aqueles pontos que dizem que eles estão cansados de trabalhar e ainda ouvir o queixume que a Umbanda está sendo perseguida. Isso não existe mais. O Barack Obama com sua voz sem cor enxugou as lágrimas dos negros.

Eu aprendi a lidar com o preconceito, tanto que não condeno os que têm outra religião. E ficaria muito envergonhado se eu me sentisse discriminado. Então vamos à luta! Antes de chorarmos implorando proteção, vamos nos defender. Nós mesmos, sem pedir nada a ninguém. Vou sugerir deletar a palavra preconceito. Se alguém sentir-se prejudicado ou perseguido por ser umbandista, vá à Justiça cível e criminal, como está fazendo o Pai Guimarães de Ogum em São Paulo. Lá não existe a necessidade de implorar, mas de requerer o cumprimento da lei com a punição dos criminosos. E a discriminação é crime. Quem nos perseguir é um criminoso. Vamos solicitar suas prisões e indenizações. Esse direito é amparado pela nossa Constituição. Vou transcrever a lei, para quem não a conhece.

"Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional."

"Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Pena: reclusão de um a três anos e multa.

§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo.

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:

Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.

Chega de choro e vamos à ação.
Essa é minha opinião!




Outubro 2008


Tudo e todos, sem exceção, têm sempre um lado vulnerável. O Aquiles tinha o calcanhar e a Umbanda as incorporações que a tornam incompreendida. Quando as pessoas conversam com a mesma entidade incorporada em médiuns diferentes, percebem que o seu comportamento não é o mesmo. Isso as confunde. Como pode um exu incorporado às vezes ser calmo, educado e aparentemente tranqüilo, e essa mesma entidade em outra incorporação ficar violento e grosseiro? A lógica insinua que não seja a mesma entidade. Até pode ser que não, mas por outro lado pode perfeitamente ser a mesma fonte inspiradora da comunicação.

Infelizmente a pacifica adoção da existência da magia na Umbanda faz os crentes não questionarem nada e os não crentes ficarem mais descrentes ainda. Acho que essas coisas precisam ser enfrentadas, discutidas, polemizadas e, acima de tudo, resolvidas. Claro que a solução definitiva será reconhecida só depois de muito debate e ainda ao longo do tempo. Só não podemos é fechar os olhos supondo que em tudo existe a magia. Muito da magia, como diz o Pai Maneco, é o desconhecimento.

Independentemente da questão do médium ser inconsciente ou não, quando o espírito incorpora fica criada uma nova energia, aquela que é a mistura dele e a do espírito. A proporção da dominância do mental durante a incorporação não é meio a meio, mas vamos adotar essa média para podermos chegar a um consenso. Vamos deixar à margem os médiuns mais experientes, aqueles que aprenderam a deixar o mental da entidade dominar a sua própria inteligência.

Imaginemos uma entidade meiga incorporada em uma pessoa agressiva. Qual será o resultado da mistura? Provavelmente a entidade terá momentos de doçura e outros de hesitações entre a meiguice e a violência. A mesma entidade incorporada em um médium também calmo. Com certeza a entidade terá comportamento dentro de uma linha amiga e carinhosa. Um espírito culto ocupa o corpo de um médium sem recursos culturais. Alguns momentos essa terceira força poderá ditar maravilhosas mensagens, mas talvez mesclada com ausências de um conhecimento mais profundo do assunto que estiver comentando. Por que a entidade escolhe charutos e bebidas de boa qualidade se é sabido que o espírito não faz essas exigências? Claro que isso é uma escolha do encarnado intermediário para satisfazer se proprio gosto. O espírito de um médico terá muito mais facilidade em receitar e curar se estiver incorporado em um médium também médico. Reparem como um médium não consegue falar o idioma original da entidade incorporada, a não ser que ele a conheça. Sobre isso uma entidade respondendo a consulta de um francês, o fez no idioma do consulente. Claro, o médium da entidade falava francês. Uma entidade em sessão kardecista disse que não ia à Umbanda porque não sabia se seria bem recebida. Sem nenhuma duvida o médium é quem tem preconceito com a Umbanda.

Não podemos deixar de dizer que existem médiuns diferenciados que conseguem se entregar totalmente à entidade facilitando que ela domine por completo o seu mental. Como disse acima estou falando da média e distribuindo em partes iguais a influencia na energia criada com a junção dos dois espíritos. O Chico Xavier, para mim o melhor médium de nossa época, conseguia escrever duas mensagens ao mesmo tempo, uma com a mão esquerda e outra com a direita, o que era considerado um fenômeno impar uma vez que o mental de uma pessoa não pode pensar duas coisas ao mesmo tempo. No caso eram dois espíritos incorporados e o extraordinário médium conseguia separar as duas comunicações simultâneas. Confesso que estou dando uma explicação só por dar, porque eu não tenho a mínima idéia de como isso acontecia. Entender o fenômeno Chico Xavier foge da minha competência.

Todas essas confusões e mal-entendidos não existiriam se fosse aceito o fato que em uma incorporação espiritual as mentes da entidade e do médium se misturam e criam outra força que se modifica se a mesma entidade incorporar em outros médiuns. Evidentemente que a essência espiritual da entidade não desaparece e isso que qualifica a Umbanda como uma religião inteiramente diversificada, pois uma mesma entidade pode ter várias formas de comportamento, dependendo das qualidades e defeitos do médium que a incorpora.

Se os médiuns fossem treinados para não interferirem nas incorporações e soubessem que a sua participação na criação dessa parceria é perfeitamente normal, traria a todos a explicação das modificações do comportamento variado das entidades.

Essa é a minha opinião!


Setembro 2008

Nos próximos dias será lançado o filme sobre a vida do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, interpretado pelo ator Carlos Vereza. Recomendo aos umbandistas conhecer a vida desse médico e hoje líder espiritual da linha kardecista no Brasil. Quem sabe assim possamos reparar uma injustiça que cometemos com os espíritos que não fazem parte da estrutura da Umbanda.

A Umbanda foi anunciada como uma religião nova, brasileira, e que foi criada para que os espíritos de pretos velhos africanos e escravos pudessem trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, raça, credo ou posição social.

A Tenda Espírita N.S. da Piedade foi fundada com a promessa de: "...a tenda acolherá todos que a ela recorrerem e todas as entidades serão ouvidas, e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas e nem diremos não, pois esta é a vontade do Pai".
Foi o espírito do jesuíta que em sua ultima encarnação chamava-se Padre Gabriel Malagrida quem anunciou a vinda da Umbanda e o Caboclo das Sete Encruzilhadas foi quem a instalou.

Bem, essas coisas aconteceram faz um século e hoje a Umbanda esqueceu que ela foi anunciada pela primeira vez através de um espírito da linha kardecista, com a intenção de abrir espaço para os espíritos dos negros, índios e caboclos poderem trabalhar e praticar a caridade. Se não fosse ele, que tinha a liberdade para se manifestar em uma casa da elite espírita, a Federação Espírita de Niterói, quem sabe o Caboclo das Sete Encruzilhadas tivesse que buscar outra forma de anunciar a nova religião.

Hoje a situação está assim: os kardecistas continuam achando que os espíritos da Umbanda são atrasados e os dirigentes da Umbanda só permitem a manifestação dos espíritos que se enquadram dentro das linhas relacionadas por seus dirigentes.
Como os espíritos do jesuíta Gabriel Malagrida e do Caboclo das Sete Encruzilhadas viabilizaram juntos a fundação da Umbanda, não seria razoável que os kardecistas abrissem suas sessões permitindo que as entidades de Umbanda pudessem deixar suas mensagens de luz, e os Umbandistas passassem a ouvir as lindas mensagens dos espíritos iluminados da linha kardecista?

Será que o Padre Gabriel Malagrida e o Caboclo das Sete Encruzilhadas estão gostando desses preconceitos? Estamos merecendo o que eles fizeram? Não seria esse um momento de reflexão para abrirmos espaço a um avanço social?
Vejam como as linhas da Umbanda às vezes são injustas: eu posso chamar no terreiro os espíritos dos esquimós, embora não conheça nenhum deles, mas não posso chamar os espíritos do meu pai-de-santo, dos meus familiares de carne, como pai, mãe, avós, irmãos, tios, sogro, sogra, cunhado, primos e amigos.

No terreiro que dirijo, fazendo uso da diversidade, vou tentar reparar essa falha.

Essa é a minha opinião!

Agosto 2008

Através dos tempos a Umbanda consagrou fundamentos que alicerçam a sua qualidade religiosa, inclusive o que diz respeito ao homem e sua liberdade: o livre arbítrio! Felizmente a maioria dos praticantes solidificou sua fé em cima desse preceito. Ninguém pode ficar prisioneiro dos dirigentes religiosos, seja a religião que for. Tanto o espiritismo Kardecista como a Umbanda ensinam que somos livres para tomar nossas decisões. Ninguém pode interferir na nossa vontade. Mas, não é o que acontece!

Bem, o termo “livre arbítrio” já faz parte da umbanda. Só falta ele sair da falácia para ser aplicado na plenitude do seu sentido. O livre arbítrio é usado naquele momento que a decisão pode levar ao certo ou ao errado. Essa vontade escolhida por nós terá uma importância futura de forma inevitável e por ela teremos que responder, como premio ou castigo, tanto faz.

Vejam o trecho de uma carta que recebi : “...diziam que eu tinha um Karma e eu tinha me comprometido a resgatar este Karma nesta vida fazendo a caridade, por meio da umbanda e tinha que fazer. E que nada pra mim daria certo se eu nao trabalhasse.” A pessoa não queria fazer mais parte da corrente e ao comunicar a sua decisão ouviu as coisas acima narradas. O dirigente que interfere na vida espiritual do médium está cometendo o crime de desviá-lo do seu livre arbítrio e ele, o médium, cometendo o grave pecado de fugir do dever de decidir.

Gosto de dirigir meus textos aos médiuns, aqueles que estão iniciando e equivocadamente costumam não questionar as coisas que lhes são ensinadas pelos dirigentes. Essa posição é muito cômoda principalmente porque passam a responsabilidade para os dirigentes. Isso está errado. Não se deve entregar a dádiva de poder optar pelo certo ou errado, porque esse é o caminho da evolução. Não tem outro.

Sobre o uso do livre arbítrio varias situações se apresentam, desde uma simples vontade até o desejo de seguir uma religião. A liberdade tem que ser exercida em sua plenitude. Nenhum dirigente deve interferir nesse sagrado direito e nenhum médium deve permitir essa influência.

Não têm fundamento as ameaças feitas por alguns da necessidade de que as pessoas entrem em um terreiro porque as entidades estão cobrando, ou que suas vidas ficarão atrapalhadas se não desenvolverem suas mediunidades. Maldades feitas pelos dirigentes, carmas e missões são coisas que não se deve acreditar. O bom dirigente não prende ninguém em sua casa. Preocupa-se com o destino do médium que está saindo, aconselha e deseja que ele encontre um lugar onde possa trabalhar e ter paz.

Essa é a minha opinião!

Julho de 2008

Perguntaram-me o que eu pretendia fazer para festejar o centenário da Umbanda. Sem hesitar respondi perante o questionador e mais trezentas pessoas que não existe nada para ser festejado. Em todo caso, como todos fazem parte do nosso terreiro, deixei a questão por conta deles, aguardando sugestões. Algumas foram feitas, desde a vigília sob o som de trombetas até um encontro musical. Não gostei de nenhuma, até que apareceu uma idéia de um grupo de umbandistas: a tentativa de sensibilizar as autoridades para que em seu centenário a Umbanda seja reconhecida como patrimônio imaterial. Achei que a idéia tem corpo e saúde, parecendo ter o dom de unir os umbandistas. Isso sim será motivo para uma grande festa.

Para quem não sabe, Patrimônio Imaterial é tudo aquilo que faz parte da cultura e não tem como ser exibido fisicamente. É base cultural de um povo. Por ser um assunto de grande valia para a solidificação da Umbanda como religião autenticamente brasileira, resolvi de imediato associar-me a esse movimento. Ele também me atrai uma vez que o seu criador é a voz dos umbandistas, aquela força que não tem cor, sexo ou classe social. Por esse motivo os membros de nosso terreiro estarão misturados com os membros dos outros terreiros que trabalham na idéia. O terreiro do Pai Maneco apenas assumiu a tarefa de por à disposição desse grupo o seu site onde foi feito um programa especial para a lista de adesões. Essa lista ficará à disposição de todas as organizações que queiram por um motivo ou outro usá-la em beneficio da Umbanda.

Estamos convocando todos os membros, adeptos ou simpatizantes da Umbanda para que se unam a esse chamado, inclusive assinando a lista de adesões a qual já está disponível em nosso site.

Acho que o reconhecimento da Umbanda como cultura brasileira e o respeito que todos devem ter pela diversidade da religião deve ser protegido pela vontade soberana dos umbandistas comuns e que não se subordinam a mandos e desmandos religiosos. Os pequenos unidos sempre terão a força e o respeito de todos. Hoje eu comando um terreiro relativamente grande e abri mão dele para marchar em algum lugar da multidão que com certeza vai fazer a umbanda ser definitivamente respeitada.

Essa é a minha opinião e desta vez tomara que seja a de todos.



Junho de 2008

O ano de 1954 foi trágico para o Brasil. O carismático Presidente Getulio Vargas deu um tiro no peito, avisando por escrito que ia sair da vida para entrar na história. Eu, como a maioria dos brasileiros, idolatrava esse homem. Hoje ainda é maior essa admiração, porque mesmo vivendo só na história, continua sendo o melhor presidente brasileiro. Por isso eu não podia entender que ele estivesse no vale dos suicidas, condenado à eternidade e a banda do Gregório, o desonesto chefe segurança, estivesse passeando na Aruanda. Apelei para o Pai Maneco. Ele disse que o espírito do Getulio Vargas continuava trabalhando pelo Brasil. E suicida é o espírito que não quer viver no planeta Terra. Matar-se por pressões externas, ignorância, medo da vida e inconsciência do certo e do errado, não caracteriza suicídio. São pessoas que nesse momento não estão exercendo o direito do livre arbítrio. O Getulio Vargas espalhou o sangue de seu coração como exemplo de dignidade. Foi um ato digno da bravura dos gaúchos e estava longe de um suicídio que pudesse receber qualquer tipo de condenação. Falei disso para abrir o espaço para este tema bastante polêmico e cheio de mistérios.

Esse assunto é dirigido às pessoas que têm a idéia de cometer o suicídio. Não sei quantas pessoas que já tiveram esse desejo vão ler esse texto. Essa idéia assusta as pessoas, mas não sai de suas cabeças. Quando elas procuram um centro espírita ou terreiro de Umbanda e contam esse íntimo desejo são ameaçados de viverem eternamente no vale dos suicidas, além de serem aconselhadas a fazerem trabalhos espirituais para darem mais amor à vida e com isso descartar a hipótese do suicídio. Nada errado, pois os espiritualistas estão cumprindo seu papel. Mas, qual a origem dessa vontade de se matar? Da vida difícil, das coisas da família ou da escassez do dinheiro? E por que a idéia de se matar ainda continua mesmo para quem nada sofre?

Allan Kardec foi um mestre inigualável. Seu poder de raciocínio era tão brilhante que suas fuçadas na atuação dos espíritos culminou com a codificação do espiritismo tradicional. Ele dizia que o médium inconsciente era aquele que era dominado por um espírito e não sabia.

Essa sensação tem como causa a aproximação de um espírito ainda abalado com o desencarne. O morto transmite a idéia porque ele carrega ainda o cheiro e o ranço da morte. Não é intencional e ele não é um obsessor. É um espírito que se imanta na aura da pessoa com a intenção de sugar sua energia. Essa negra idéia provocada pela sua presença é transmitida durante as vinte e quatro horas do dia, muito embora a pessoa não tenha conhecimento dessa aproximação. Foi o que Allan Kardec ensinou. Uma simples ação de uma entidade em um centro espírita ou terreiro de umbanda ou mesmo o conhecimento deste texto, fará tudo desaparecer.

O esclarecimento que faço sobre o suicídio não tem nenhuma intenção de inocentar aqueles que cometem o ato. Ao contrario, as lesões que ficam gravadas em seu perispirito são de gravíssima monta. Muitas reencarnações futuras ficam comprometidas pela sua destruição. A idéia de um permanente confinamento em um vale sombrio e cheio de trevas na minha ótica não existe, mas a destruição voluntária de seu organismo espiritual pode ter a mesma intensidade do sofrimento pelos aleijões das vidas futuras. O melhor que se pode fazer é trocar essa triste sensação pelo amor a vida e vive-la com toda intensidade.

Essa é a minha opinião!

Maio de 2008

Desmistificar a Umbanda é uma necessidade premente. Os dirigentes devem entender que hoje os seguidores da religião são culturalmente exigentes e muitos desistiram das religiões tradicionais por repúdio à imposição dos seus dogmas. A negação ao direito de querer saber e exigir explicações faz parte do mundo moderno que vive interligado por satélites e aparelhos de tecnologia de ponta. Os pais e mães-de-santo têm a obrigação de mostrar uma Umbanda alegre, voltada só para o amor, sem usar energias densas em seus trabalhos, nada cobrar por seus serviços em favor do seu semelhante e descortinar esse véu místico de segredos. Eu vou cumprindo essa tarefa aos poucos. Hoje vou falar da consciência dos médiuns durante a incorporação.

Quando iniciei na Umbanda, durante uma gira de desenvolvimento, incorporei o Exu Tranca Ruas das Almas. Ele veio calmo, elegante e com uma postura de fidalgo. Isso me atrapalhou porque esperava que fosse diferente. No final, quando o grupo discutia a gira e seus desdobramentos e como não sabia ainda que o Exu Tranca Ruas das Almas é exatamente assim, não hesitei em dizer ao pai-de-santo que ia voltar ao kardecismo pela dificuldade de me adaptar às incorporações dos exus, pois não sabia me entortar, torcer as mãos e andar como animal. O pai-de-santo, demonstrando surpresa, cumprimentou-me pela coragem de dizer que eu era médium consciente. Afirmou que todos os presentes se diziam inconscientes. Olhei os quarenta e tantos companheiros na roda, todos de branco, olhando-me também surpresos. Bem, nesse momento os fatos posteriores não vêm ao caso. O importante foi que todos eles, de uma forma ou outra, “confessaram” que eram conscientes durante a incorporação, como se isso fosse um crime. A culpa é dos dirigentes que não explicaram ser isso comum.

A consciência tem sido um tabu para os médiuns iniciantes. Pelo fato de perceberem tudo em volta de si passam a crer que são eles e não o espírito o dono das ações. Ninguém pode deixar de considerar que mesmo o médium tendo um comportamento influenciado pelo seu mental, a energia do espírito comunicante está presente e tendo uma participação ativa. A preparação cultural e ética é muito importante para as comunicações fluírem até o ponto que ele verá que as palavras não são suas, mas vindas de uma força maior. Não se esqueçam que a verdade faz parte da ética.
Alguns dirigentes têm o péssimo hábito de dizer que são inconscientes durante a incorporação de seus guias apenas para não constranger os consulentes ao contarem seus problemas. Quando comecei no espiritismo o Hercílio Maes contava que era consciente e por isso ele tinha algum conhecimento da espiritualidade. Concluía sempre dizendo que se fosse inconsciente todos os ensinamentos do mestre Ramatis, do Nhô Quin e do inteligente Irmão Atanagildo seriam totalmente estranhos para ele. Eu sempre fiz questão de dizer que sou médium consciente. Isso, entretanto, nunca inibiu ninguém de contar-me seus problemas. A verdade e a honestidade de guardar os segredos fazem a confiabilidade do médium.
Se você que está lendo esse texto tem o problema que acabo de relatar, não hesite em cobrar providências de seus dirigentes. Eles têm a obrigação de esclarecer a situação de cada um.

Essa é a minha opinião!



Abril de 2008

Os costumes dos umbandistas do passado têm hoje a mesma força de antes. Um ponto inquestionável do ritual da nossa religião é o culto sagrado ao Anjo de Guarda, havendo muita possibilidade de ser a ele que os adeptos mais prestem devoção e façam os pedidos de força e proteção. Particularmente eu acho esse comportamento muito estranho porque pouca gente se preocupa em saber que entidade é essa tão cultuada e homenageada no ritual de quase a totalidade dos terreiros. Os umbandistas preocupam-se em saber quem é o preto-velho, o caboclo ou de que linha é o exu, mas, quanto a ele, o misterioso Anjo da Guarda, ninguém pergunta absolutamente nada. Ao menos para mim nunca ninguém perguntou. E eu tenho cinqüenta anos de espiritismo. Fica bem claro: o Anjo da Guarda é um mistério e ninguém tem a curiosidade de querer saber quem ele é. Basta acender uma vela e tudo fica bem.

Eu sou um questionador incorrigível. Tudo eu quero saber e nada me escapa. Eu quero saber quem é o meu Anjo da Guarda. Será um Ogum, um caboclo, um preto-velho ou um exu? Ele tem nome? Lugar? Linha?

A Umbanda é reconhecidamente um culto diversificado. Cada dirigente é dono de seu terreiro e independente e é ele quem dita as regras e impõe a filosofia aos seus componentes. Isso é reconhecido e aceito por todo o mundo umbandista. Aliás, essa é a sua grande força e sabedoria. Dentro da religião há uma multiplicidade de ritos e entendimentos. E todos estão certos, porque ninguém tem parâmetro do errado, exceto a ética e o bom costume. Provavelmente cada dirigente tem a sua explicação de quem é o Anjo da Guarda e todas vão ser diferentes. Eu vou dar a minha: o Anjo da Guarda é a soma das nossas reencarnações sem a interferência da atual encarnação.

Quando eu era menino, na minha casa diariamente um homem que chamávamos de João ia tomar café e comer um pão. Sua caneca e prato ficavam separados. Ele era doente. Não falava e babava muito. Foi uma figura que me impressionou bastante, principalmente porque eu tinha medo dele. Nessa ocasião eu tinha uns oito anos de idade. Uns trinta anos depois, em uma sessão kardecista, manifestou-se o espírito desse homem. Não vem ao caso como eu sei e o que ele disse para se identificar. Acreditem, era ele mesmo. A sua manifestação deixou a todos perplexos pela doçura, pureza e sabedoria. Perguntei seu nome: ele disse que na última encarnação chamava-se João. E quando cuidava dele - do João, tinha mil nomes...

Para mim a palavra do espírito é indiscutível, muito embora nem sempre eu a entenda imediatamente, mas com o tempo acabo descobrindo o que ele quis dizer. No caso foi uma revelação maravilhosa: ele era o Anjo da Guarda do João. Imagino assim: o João era um pobre coitado que vivia da caridade alheia, doente da cabeça e do corpo, com seu espírito resgatando alguns carmas e ainda vivendo o sofrimento da pobreza. Entretanto o seu espírito era iluminado, inteligente e com uma cultura imensa adquirida ao longo de varias reencarnações. E esse espírito era o seu Anjo da Guarda. E esse Anjo da Guarda hoje não existe mais, pois desapareceu com a morte do João. Hoje só existe a maravilhosa entidade dos mil nomes.

Por isso quando acendemos uma vela para nosso Anjo da Guarda, estamos iluminando o nosso próprio espírito.

Essa é a minha opinião!

Março de 2008

Muitas vezes a repetição de perguntas provoca a necessidade de se buscar as razões das dúvidas levantadas. Apesar de elas serem muitas, vou simplificar a questão com suas perguntas:

Em um terreiro, um Exu trabalha com dois médiuns, o que é perfeitamente normal. Acontece que um deles tem um palavreado chulo e um comportamento contrário a ética. O outro, ao contrário, como incorpora em um médium de excelente formação cultural e idoneidade ilibada, tem um comportamento refinado e gentil. Foi gerada a grande dúvida: é a mesma entidade? Como então pode ser tão diferente nas comunicações?

Outra situação refere-se ao Exu Tranca Ruas. No terreiro questionado, age de forma violenta, abusiva, usa o sangue como elemento de trabalho e não recrimina seu ganancioso médium que se aproveita financeiramente das consultas que faz. Eu trabalho com o Exu Tranca Ruas das Almas, e tanto ele como todos os outros Exus que participam nas várias giras no nosso terreiro condenam o uso do sangue como elemento de trabalho e proíbem a cobrança pelos serviços prestados por seus médiuns. Agora eu pergunto: como pode a mesma entidade usar o sangue em seus trabalhos, ser grosseiro e permitir que seus cavalos sejam devassos, bêbados e cobrem fortunas pelos serviços prestados? Como isso pode acontecer se é a mesma entidade?

Não é novidade a explicação que insistentemente temos divulgado sobre a criação da terceira energia, aquela criada pela junção dos espíritos do médium e do espírito comunicante, com o exemplo da mistura do café e do leite que cria uma terceira bebida. Só não tinha ainda, por julgar então desnecessário, falado que a qualidade dessa mistura depende da pureza do leite. Se ele estiver azedo ou talhado, a bebida fica ruim e com má qualidade. Imaginemos que o café é o espírito e o leite o médium. Se o médium não for preparado culturalmente, não tiver uma índole de boa formação e com propósitos elevados, a terceira energia, embora o espírito seja de boa qualidade, as impurezas do médium, tal e qual o leite estragado, provocam distorções de grande monta nesta energia.

Não vou considerar a possibilidade de serem entidades obsessoras se fazendo passar por Exus dirigentes, porque o excesso de casos nos vários terreiros da Umbanda inviabiliza essa hipótese. Vou me aprofundar na busca de uma explicação sensata e plausível. Um pai é pai e ele enxerga e cuida de todos os seus filhos com a mesma dedicação, independente de seu gênio e desvios típicos dos homens fracos. Não poderemos jamais esquecer, usando o nome do Exu Tranca Ruas, que ele é o pai de todos os seus médiuns. O seu amor e proteção têm a mesma força em todos que são seus filhos. Se ele age de forma diferenciada é porque todos nós precisamos aprender com seus ensinamentos. O nosso aprendizado varia de acordo com nosso conhecimento. E assim os espíritos vão ensinando seus filhos!

Seguindo essa linha, além de não cometermos o pecado do julgamento errado, vamos entender que todos somos irmãos.
Essa é a minha opinião!



Fevereiro de 2008

A Umbanda é cheia de ensinamentos divergentes. Cada autor diz uma coisa, falam sobre falanges e sub-falanges, linhas maiores e menores, entidades chefes com escalões e posições hierárquicas e até mesmo alguns divulgam o número exato dos espíritos trabalham no espaço. Eu, pelo meu lado, não sei nem quantos médiuns trabalham na minha corrente. Na verdade sei mais ou menos... Bem, eu sou simples.

Gosto das coisas às claras e sem mistérios, embora eles existam. No linguajar comum, gosto de ter os meus pés no chão e por isso prego a Umbanda nesse nível. Rememorando, a Umbanda é praticada dentro da filosofia de cada terreiro e os chefes sempre são as entidades que trabalham com o dirigente principal. Cada entidade é soberana dentro dos limites da casa que dirige. Os rituais de cada terreiro nunca são iguais muito embora seja respeitada a filosofia básica. O pai-de santo (ou mãe) tem como objetivo principal cuidar e desenvolver dentro da ética, moral e bom senso a espiritualidade dos médiuns da corrente. As entidades em cada terreiro dão consulta e orientação espiritual aos consulentes e resolvem casos que a medicina tradicional quem sabe não pudesse diagnosticar. As entidades dentro do terreiro usam seus médiuns para fazer a caridade independentemente uns dos outros. É a liberdade espiritual que cada um tem para desenvolver seu trabalho. Voltando ao foco, os terreiros têm suas defesas e os dirigentes recebem proteção do espírito chefe.

E dos médiuns, quem cuida? Como eles ficariam se fosse observada a categoria das linhas das entidades? E se a entidade que me cuida for de uma hierarquia menor? Terei menos proteção? Não acho que seja assim. Com meus pés no chão eu constato a realidade: cada terreiro é independente e o chefe espiritual é a autoridade maior.

Ali, em sua casa, quem manda é ele. Assim sendo vou refutar a tese que existe hierarquia conhecida entre as entidades e vou simplesmente aceitar a constatação que na tribo dos orixás da Umbanda não existem caciques e eles habitam a Aruanda em perfeita comunhão e respeito. Voltando ao médium, quem manda é o seu pai-de-cabeça, que é o responsável pela sua vida espiritual. Eu tenho como meu pai-de-cabeça o Caboclo Akuan. Tudo que eu preciso e peço só me será concedido com a aprovação dele. E todo médium tem aquele que o protege, defende, orienta e sempre está ao seu lado. Esse assunto não é tratado com muita importância pelo mundo umbandista, mas deveria ser.

Todos os médiuns sabem o nome do terreiro que trabalham, da entidade espiritual dirigente e dos dirigentes materiais, mas não sabem quem são seus protetores da vida espiritual. Não se esqueçam que quando um médium, por um motivo qualquer, muda de terreiro, o seu pai-de-cabeça vai junto. Pensando assim, resolvemos chamar a atenção de todos para a importância de conhecer e zelar pelas maravilhosas entidades que cuidam da vida espiritual dos médiuns, incluindo dentro do nosso ritual uma homenagem aos nossos pais-de-cabeça. Vejam na seção “Feito em Casa-Pontos Cantados Inéditos” deste site o ponto criado e que será cantado em todas as nossas giras. O que escrevi é

A minha opinião!



Janeiro de 2008

Neste ano o mundo da religião do Zélio de Moraes vai entrar em festa e a Umbanda será reverenciada por todos os seus adeptos. O motivo é que no dia 16 de Novembro vai completar cem anos de fundação. Antes de fazer parte do bloco da contagem regressiva, resolvi fazer uma reflexão na minha vida espiritual, uma vez que ela também está fazendo aniversário: cinqüenta anos dividida entre a linha kardecista e a dos Orixás.

Nesse período, o fato mais importante que me aconteceu foi eu ter me livrado do espiritismo codificado onde eu era vigiado, controlado e recriminado quando tentava fugir da mesmice dos seus ensinamentos, embora eu reconheça que foi onde eu mais aprendi a lidar com os espíritos. Exercer o direito de escolha na minha nova religião foi a benção que ganhei dos Orixás que fizeram questão de me ensinar, como a todos ensinam, o respeito pela diversidade da Umbanda, o que não me tira o direito de querer algumas mudanças. Como estamos no início do ano e todos fazem pedidos também vou fazê-los. Fiquem tranqüilos, que ninguém poderá alterar os seus rituais e a sua filosofia fundamental de amor e caridade e sua marca de liberdade ao não se subordinar a ninguém. Como sou teimoso e gosto de contrariar aqueles que anunciam minha morte, acho que nos próximos vinte cinco anos ainda vou estar encarnado só para ver se o meu pedido foi atendido não sei por quem.

Quero que seja assim:
Os médiuns não vão mais beber e fumar porque se conscientizaram que não precisam se embriagar para receberem os seus guias e protetores e que o fumo pode prejudicar pessoas doentes que freqüentam os terreiros. Os chefes de terreiro vão continuar sendo chamados de Mãe e Pai-de-santo. Em respeito à vida ninguém mais vai fazer trabalhos matando pombos, frangos, bodes ou qualquer outro bicho. Para ganhar dinheiro, ao invés de cobrar por seus trabalhos de caridade, vão exercer uma profissão qualquer que lhes dê o direito à assistência social.

Todos vão descobrir que o Exu é o espírito de um homem gentil e a Pomba-gira não é prostituta. Nas engomas musicais os terreiros vão exigir mais refinamento tanto no uso de instrumentos como no canto e o samba vai ser enaltecido. Os médiuns não terão mais medo dos pais-de-santo porque eles se tornarão humildes. Vai ficar no ar uma preocupação com a possibilidade da extinção dos cemitérios considerando que as prefeituras vão resolver incentivar as cremações a baixo custo. As entregas e pedidos nesses locais estarão ameaçados.

Os dirigentes vão aceitar nos terreiros as incorporações dos espíritos familiares dos médiuns nem que para isso tenha que ser criada uma linha especial. Os kardecistas vão reconhecer os espíritos da Umbanda como entidades de luz. E finalmente, depois de subir significativamente nas pesquisas, a Umbanda vai ser reconhecida como religião autenticamente brasileira. As autoridades até lançarão um selo comemorativo tendo como símbolo a figura de Jorge, o matador de dragões, que depois de ter tido seu título de “santo” cassado pela Igreja Católica, passou a ser a bandeira oficial da Umbanda.

Acho que o sonho é livre e todos têm esse direito.
Essa é a minha opinião!

 
     
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