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Pai Fernando
 
Com vinte anos de idade, iniciei minha vida espiritual participando de todos os tipos de trabalhos, muitos deles orientados por médiuns experientes e de renome. Materialização, transfiguração, doutrina, trabalhos de cura, encaminhamento de espíritos perturbadores, contato com espíritos de outros planetas, muita leitura e a constante busca da experiência dos médiuns práticos que, aliás, não se cansavam de transmitir-me seus conhecimentos, tornaram meu aprendizado emocionante e pautado no bom senso e severa observação.

Nos primeiros vinte cinco anos pratiquei o espiritismo inspirado na doutrina kardecista, embora avesso ao radicalismo típico dos pregadores das obras codificadas pelo mestre francês. Por ordem do Pai Maneco fui visitar, embora contrariado, o terreiro do Edmundo Ferro. Era engira de Quimbanda. Nunca tinha visto um terreiro de Umbanda. As paredes vermelhas e pretas, ao som de vibrante música, a cachaça rolando e os charutos fumegando, mexeram comigo. Fiquei fascinado. Acho que até perplexo. Nunca podia imaginar que Umbanda fosse aquilo. Minha alma agitou-se e minha cabeça ferveu. Foi o sinal do renascimento. Sentia-me um pássaro em seu primeiro vôo, tomando consciência da liberdade e de um mundo novo. De médium espí rita contrário a qualquer ritual, transformei-me no mais dedicado e fervoroso adepto da lei da Umbanda até tornar-me pai-de-santo, ou melhor, zelador-de-santo.

A Umbanda é uma religião muito gostosa, autenticamente brasileira, com rituais bel íssimos, aliada do bem, cheia de rígidos princípios morais e com estreita ligação com a natureza. Foi criada pelo sr. Zélio de Moraes através do Caboclo Sete Encruzilhadas em 1908. Por ser nova, a sua literatura é marcada por desencontros, confundindo bastante seus adeptos sequiosos dos seus conhecimentos e entendimentos.

As obras com brochuras mais requintadas são as da chamada Umbanda Esotérica. Prega linhas espirituais definidas, onde os espíritos ocupam hierarquias esquisitas, com estranhos e pomposos nomes, tornando-a inatingível para o raciocínio comum. E eu não gosto de elite. Por outro lado, existem livros que ensinam magias desconcertantes, como conquistar a pessoa amada cozinhando calcinha de mulher. E eu não gosto de ignorantes. Por isso prefiro buscar meu conhecimento nas mensagens dos espíritos. E dos espíritos eu gosto.

O Pai Maneco, o preto-velho que me assiste pacientemente há anos, quando lhe perguntaram quando nasceu a Umbanda, de pronto respondeu: "se você pergunta sobre a Umbanda, esta religião que praticamos, nasceu há menos de um século terra. Se você pergunta sobre as 7 vibrações originais, que regem a Umbanda, é impossível precisar. Na verdade quando o homem sentiu sede ele encontrou a fonte da água cristalina. Quando precisou de Deus, descobriu as 7 vibrações e sentiu a Sua presença".

Quando o Pai Maneco fala, não discuto. Se ele entende ter a Umbanda nascida com o sr. Zélio de Moraes e com o Caboclo Sete Encruzilhadas, fico com esta linha. Como minha verdade nasceu de uma mensagem espiritual, resolvi dividir com todos, outras tantas recebidas, devidamente comentadas em suas entrelinhas. Separei a primeira, sem comentários, porque ainda não entendi:"o espírito não pensa. Ele é o pensamento".
 

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