Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 25 julho de 2017

A viola de mil faces

Com quase cinco séculos de vida, a viola é indissociável da historia brasileira.
- Doutrinas e cerimônias religiosas - segredos - identificação - misticismo.

Hoje fazendo parte da Umbanda e neste início de longo aprendizado, traço uma relação da Viola de 10 cordas instrumento que realizo todo trabalho musical composicional e investigação (pesquisa), com a Umbanda - Os Orixás músicos.
Existe uma história, a dos Orixás músicos, mais particularmente, Orixás que em suas vidas terrenas tiveram contato com este instrumento, a viola, uma historia oculta, um esquecimento, uma lacuna não preenchida: indios, caboclos, pretos velhos, boiadeiros negligenciados pelo racismo cultural manipulados por interesses mercantis de uma época obscura (não catalogada) na historia deste instrumento.

Instrumento ligado ao modo de vida de seres que de um modo ou outro tornaram-se homens do campo, das matas, de miscigenações sofridas ao longo dos séculos não só no Brasil, mas da Europa, do Oriente.
Historia que em grande parte não tem documento algum por não ter sido considerada de importância e ficando na oralidade que se perdeu ao longo de séculos.

Hoje me coloco numa nova empreitada, não só cientifica de documentos comprovativos, mas a espiritual, as memórias musicais terrenas de índios, caboclos, pretos velhos, boiadeiros, exús que possivelmente tiveram contato com este instrumento .

UMA PEQUENA PARCELA DO VIOLEIRO, DA VIOLA, DE SEU UNIVERSO MÍSTICO.

O violeiro é uma figura supersticiosa. Na folia de Reis, coloca no bojo de sua viola um guizo de cascavel para protegê-lo de mau olhado; e para demonstrar sua devoção religiosa, enfeita o braço de seu instrumento com fitas nas cores de seu santo. E se um tocador alcança inusitada excelência na sua arte, pode-se levantar a suspeita de que ele fez um pacto com o Diabo em uma das tantas meias-noites gastas na tentativa de atingir o som perfeito.

Histórias como essas estão ligadas à viola porque ela é indissociável dos hábitos e da mentalidade interioranos. Até suas variadíssimas afinações, com nomes exóticos como Rio Abaixo, Cebolão, Boiadeira e Moda Velha, vêm acompanhadas de lendas que fazem parte da mística do violeiro. Quem utiliza a do tipo Rio Abaixo conta que o capeta adora essa afinação, surgindo muitas vezes na madrugada, tocando sua viola em cima de uma canoa; e, desse modo vai enfeitiçando as caboclas que o seguem rio abaixo, para nunca mais voltar.

Presente em todos os cantos do país, onde recebe nomes variados como “viola paulistana” ou de “serra acima “(São Paulo, Sul de Minas Gerais e Região Centro-Oeste) e “viola branca” ou de “fandango”(no litoral sul do Rio de Janeiro e Paraná), ela deriva de uma das violas de arco do medieval que em um determinado momento foi posicionada de maneira horizontal ao corpo e utilizada em dedilhado em vez do arco(existem outras teorias) e com o passar dos séculos sofreu modificações, onde surge no século XV a vihuela instrumento muito difundido nas cortes européias.Quase paralelamente a este instrumento nasce do mesmo a viola barroca de onde derivam todos os tipos de violas encontradas no mundo. – Foi trazida até nós pelos colonizadores portugueses.

Aqui, antes de se mesclar aos costumes dos índios, negros,caboclos, portugueses e imigrantes que comporiam a sociedade brasileira, foi de grande ajuda na catequização indígena e na diversão dos bandeirantes.

Fernando Deghi

Bandeira da Amizade