Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 24 novembro de 2017

A VIDA NÃO TEM TRILHA SONORA - Uma crônica do Pai Caco de Xangô

Se tem algo que os americanos sabem fazer bem feito é o cinema. A qualidade da produção cinematográfica de Hollywood é surpreendente. Figurino, efeitos especiais, luzes. Atores e atrizes maravilhosas, diretores de altíssimo nível além de todos os outros recursos que a ciência e a técnica podem oferecer. Sem falar é claro, no orçamento que é praticamente ilimitado para as grandes produções. Entretanto, nada disso causa tanto impacto nas pessoas quanto a trilha sonora. Não bastam interpretações perfeitas, caras, bocas, olhos, expressão corporal sem um acompanhamento musical a altura. Efeitos especiais, fotografia, cenários, nada disso tem brilho não fosse pela trilha sonora. Ao lembrar do título é praticamente impossível não ouvir a música.

Outro dia estava imaginando por que as pessoas gostam tanto de música. Ah, porque é bacana, faz bem à alma, preenche um vazio, acalma, relaxa, muitas vezes agita, sensibiliza, emociona e como emociona. Encoraja e outras vezes entristece. Hinos para elevar o moral (o canto do Hino Nacional num estádio lotado nos leva às alturas e nos enche de coragem e patriotismo). Marchas para os combatentes, blues, soul, jazz, rock para o lazer e a distração. Músicas populares para o dia a dia, gospel nos cultos, pontos nos terreiros, cânticos de louvor nas igrejas. Qual o casal de namorados que não elegeu a sua música e anos depois de casados ao ouvirem aquela canção se olham e lembram: - A nossa música! Doce recordação.
Todas as pessoas têm as suas músicas. Canções de época que inseridas num contexto naquele momento de suas vidas transformaram-se em pilares de sustentação de infinitos sentimentos. Jamais esquecerão daquelas canções e se tornarão cansativos de tanto cantarolarem diante da esposa ou dos filhos “sempre a mesma música”. Qual a causa desta lembrança eterna? Uma paixão, um grande amor ou a perda dele, um amigo que nos deixa, uma separação, um casamento, um curso que terminamos e aquela melodia de formatura:

Já está chegando a hora de ir
Venho aqui me despedir e dizer
Que em qualquer lugar por onde eu andar
Vou lembrar, de você...

Muitos se encantam com um ritmo e passam a vida ouvindo sempre o mesmo estilo: só rock, só samba, só jazz. Outros são ecléticos e gostam de tudo que é bom. Do pagode à valsa, do sertanejo universitário à música clássica, da música nacional à internacional, não importa. Ser for boa, curte-se. Mas ainda permanece a pergunta: Por quê?

Tudo isso são apenas os efeitos da música e para mim ainda não explica por que todos gostam tanto de letras e melodias reunidas. Vamos tentar mais um pouco: faz companhia, alegra, diverte, ajuda a passar o tempo, traz boas recordações. Ainda são apenas efeitos. Imagine novamente um filme de cinema sem trilha sonora. Não estou falando de cinema mudo não, apenas de cinema sem trilha sonora. Assista um filme antigo no telecine cult com trilha apenas incidental e escassa. Pode até emocionar pela qualidade da interpretação de seus atores, mas não transborda, não transcende, não ultrapassa. “Um Lugar Chamado Nothing Hill” sem trilha sonora seria um fiasco. É preciso mesmo a trilha sonora para que tudo isso aconteça.

Veja o que as pessoas fazem para ouvir música: o rádio do carro, o cd player, o dvd e até mesmo o antigo LP de vinil. O celular com a memória carregada de canções. O ipod, o pendrive, a internet, o spotfy e tantas outras formas de ouvir música como a conexão bluetooh entre o telefone celular e o radio do carro ou o home theater. Logo teremos a liberdade total de escolher as canções que ouviremos dentro do carro por meio da conexão móvel com a internet. Perceba a evolução tecnológica que esta vontade maluca de ouvir acordes reunidos tem causado no planeta. E tudo isso por que? Porque a vida não é um filme.

 

A vida não tem trilha sonora. A vida é real, muda e surda. Totalmente silenciosa enquanto o ser humano é musical, porque o nosso espírito é musical e a música é uma fuga desta nossa realidade ou talvez ela nos aproxime de uma outra, talvez da verdadeira realidade. Acredito que seja por isso que as pessoas gostam tanto de música. Uma forma de fugir das coisas reais e mergulhar num sonho, numa utopia, no amor perfeito.

 

E os pontos do Terreiro, são também uma fuga? Se pensarmos bem, sim. São mantras na verdade, mas nos ajudam a fugir desta realidade e entrar em outra. Numa outra dimensão onde tempo e espaço não existem, onde tudo vibra numa frequência infinitamente mais alta. Numa nova realidade onde não existe medo, não existe fome ou sede, não existem doenças, onde não há pressa. Onde o amor é verdadeiro sem a influência do sexo ou das paixões. Por meio dos pontos cantados chamamos as entidades ao terreiro e com elas vem também a realidade do mundo espiritual, que nos alegra, nos anima, nos encoraja, nos fortalece nos aproxima do criador e nos estimula na determinação de seguirmos em frente com a certeza de que um dia, logo, num instante, estaremos de volta à verdadeira vida reunidos num grande concerto celestial.

Pai Caco de Xangô
 

Bandeira da Amizade