Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 25 julho de 2017

SOBRE O RITO DE OBRIGAÇÃO NA UMBANDA

SOBRE O RITO DE ‘OBRIGAÇÃO’ NA UMBANDA

O QUE É A ‘OBRIGAÇÃO’?
‘Obrigação’ é um rito de Umbanda através do qual se confirma o compromisso de trabalho entre o médium e a entidade e entre a entidade e o médium. Através dela, ambos estão oficialmente se obrigando um com o outro no sentido de servirem-se mutuamente naquele determinado Terreiro. É, então, uma validação definitiva da ‘parceria’ que já havia, após a qual o espírito não pode abandonar seus deveres com seu médium e nem vice-versa.

COMO É FEITA A ‘OBRIGAÇÃO’?
Em nosso Terreiro, como é de praxe, fazemos algo muito simples, sem firulas ou ritos desnecessários. Primeiro, prepara-se uma oferenda para a entidade, com comida, bebida e fumo. Então, com a presença do médium, chama-se no terreiro a entidade através do seu respectivo ponto cantado, ou (caso ainda não tenha um) através de um ponto de linha precedido de uma saudação do nome do espírito em som alto e claro. Essa saudação deve ser feita pelo dirigente (ou membro de hierarquia sob ordem desse).
Então, para a aceitar a obrigação, a entidade arria (incorpora) no médium, confirmando assim sua identidade. Em seguida aceita a oferenda através do ato simbólico de ingerir da comida oferecida. Ao beber e fumar, confirma que que são esses mesmos os elementos que usa. Pode ainda ser pedido ao guia que risque seu ponto de pemba para ratificar sua identidade e o compromisso junto ao Terreiro.
Pela Lei de Umbanda, na chamada de Obrigação a entidade que trabalha com o médium só pode arriar caso a sua identidade esteja correta, e só pode aceitar a comida caso ele seja mesmo o guia que irá permanecer trabalhando com o médium em definitivo naquela Casa.

QUAL A IMPORTÂNCIA PRÁTICA DA ‘OBRIGAÇÃO’?
Acontece muito, por exemplo, de uma médium estar trabalhando há tempos com certa Pomba Gira ou Cabocla e, na hora da obrigação, um Exú ou um Caboclo vir tomar a frente. Também já vimos casos de determinado Caboclo ou Exú trabalhar com o médium mas depois outro Caboclo ou Exu vir assumir o cavalo em definitivo, sendo que os primeiros vieram tão somente cumprir uma função de padrinho e desenvolvedor.
Depois de a obrigação firmada, nenhuma entidade pode mais tomar a frente sobre aquela que foi confirmada.
O ritual de Obrigação é importante por esses motivos e também para afastar de uma vez por todas a eventual hipótese de que a entidade, que se acreditava ser uma, por acaso seja outra.
Para os dirigentes de gira são muito úteis essas confirmações, porque dali por diante saberão que podem contar mais profundamente com aquela entidade e com aquele médium a servi-la nos trabalhos.

ALGUMA COISA MUDA DEPOIS DA ‘OBRIGAÇÃO’?
Depois que a Obrigação é firmada entre médium e entidade, a relação entre ambos fica mais estreita em todos os sentidos, possa ou não isso ser sentido na prática pelo médium (normalmente sente). A ratificação do pacto de compromisso mútuo fortalece os laços e aprofunda ainda mais relação mediúnica e energética. Tudo fica mais firme do que antes já estava entre cavalo e "cavaleiro".

A ‘OBRIGAÇÃO’ DEVE SER FEITA COM TODOS OS GUIAS QUE O MÉDIUM TRABALHA?
A importância da obrigação está relacionada às linhas de Caboclo, Pretos Velhos e Exús (ou respectivos femininos), porque essa é a tríade de sustentação do Axé de Umbanda.
Quanto aos Caboclos, a obrigação essencial é com o Pai de Cabeça, mas, pode, a critério do dirigente, ser feita com Caboclo que não seja o pai de cabeça, especialmente quando a ‘parceria’ com tal espírito se mostre robusta e importantes para o médium ou para a gira.
Não fazemos obrigação com Linha de Erês porque não possuem gira própria e estão associados aos Pretos Velhos.
Não se faz obrigação com entidades de Linhas Neutras, justamente por serem neutras.

O MÉDIUM CONVIDADO A FAZER ‘OBRIGAÇÃO’ TEM QUE ACEITAR O CONVITE?
O médium é convidado pelo dirigente de sua gira porque esse acredita que está pronto e irá aceitar. Contudo, essa é uma decisão de livre arbítrio do umbandista, que por isso não deve e não precisa se sentir coagido de forma alguma.
Caso, por qualquer razão, não esteja clara para o médium a intenção íntima de prosseguir servindo seus guias com constância e compromisso na gira da qual faz parte, ele deve refletir bem sobre o assunto. Afinal, não faz sentido formalizar um compromisso se não for para cumpri-lo estritamente.
Assim, se o médium por algum motivo não esteja confortável e satisfeito com a entidade, com a gira ou com o dirigente aos quais está ligado, ou não pretenda ou possa prosseguir trabalhando, não deve aceitar o convite.
Já se for um caso de mera insegurança sobre o assunto, vale uma conversa franca com o dirigente de gira, a fim de clarear o que for necessário.

A OBRIGAÇÃO É PARA SEMPRE OU PODE SER DESFEITA?
Aceitar obrigar-se com a entidade não quer dizer que, por parte do médium, esse compromisso seja irrevogável. Quer dizer, somente, que enquanto durar o compromisso assumido esse tem que ser devidamente cumprido.
Caso o médium queira deixar a Casa à qual pertence, ou queira parar de trabalhar na Umbanda, ou por outro motivo não possa prosseguir servindo seu guia, pode, com a orientação de seu pai/mãe de santo, proceder a respectiva desobrigação.
Isso é importante ficar ressaltado, porque a verdadeira Umbanda é sempre livre e aberta, não obriga ninguém a fazer ou prosseguir fazendo algo que não queira.

QUAL O CRITÉRIO PARA O MÉDIUM SER CONVIDADO A FAZER A ‘OBRIGAÇÃO’ COM SUAS ENTIDADES?
Em nosso terreiro, o critério para o médium ser convocado para efetivar Obrigação com seu guia cabe exclusivamente ao pai/mãe de santo, sob concordância da direção da Casa. Contam nessa decisão, certamente, a antiguidade, a assiduidade, a firmeza da relação mediúnica, o comprometimento com o dirigente e com a gira, a maturidade e retidão moral do médium entre outros critérios mais particulares.
O convite por ser feito em relação a uma, mais de uma ou a todas as entidades com as quais o médium trabalha, também a critério do dirigente da respectiva gira.
Não cabe contestação sobre a decisão do dirigente de não convocar esse ou aquele médium a obrigar-se com sua entidade. Nenhum médium deve ficar melindrado ou desanimado caso isso aconteça, até porque não significa que não será chamado em outra oportunidade. Assim, nenhum médium que ainda não tenha sido convidado a obrigar-se deve ficar se comparando aos irmãos de corrente que eventualmente o tenham sido. Se assim o fizer, se se sentir preterido, ofendido ou magoado, é porque, estará deixando claro, ainda não está pronto!

Pai Leonardo de Oxóssi
 

Bandeira da Amizade