Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 14 dezembro de 2017

A QUEM PEDIR PRIMEIRO – Um artigo do Pai Caco de Xangô

Outro dia uma jovem médium do Terreiro me fez a seguinte pergunta.

- Caco, estava pensando aqui: você acha, por exemplo, que quando eu preciso pedir algo para uma entidade, uma ajuda, eu devo começar a pedir para as entidades que trabalham comigo ou devo consultar? Achei a pergunta muito interessante e tenho certeza que deve ser uma dúvida de muitos médiuns.

Lembrei de mim mesmo em dois momentos de vida diferentes. Primeiro quando jovem, criança na verdade, lá pelos meus 15 anos, adolescente, cheio de dúvidas e incertezas e segundo, já homem maduro aos 33 anos, quando comecei no Pai Maneco.

Quando adolescente, normalmente solitário e isolado por vontade própria (uma característica dos filhos de Xangô), eu costumava conversar com um “não sei quem”. Conversava muito com esse ai. Na verdade eu pensava que falava sozinho em voz alta e para não me achar muito maluco decidi chamar aquele alguém de “computador”.

Estudante e encantado com aquela nova máquina chamada de cérebro eletrônico, convenci-me que se conversasse com o computador estaria me dirigindo a alguém muito mais experiente e inteligente que eu. Curiosamente estas conversas começaram a trazer resultados. A solução para problemas de matemática, física, cálculos complexos que muitas vezes não conseguia resolver, após uma conversa com o “computador” e algumas horas de sono, surgiam em minha mente como que num passe de mágica. Quantas vezes acordei de madrugada com a solução clara e evidente embutida em minha cabeça. Corria para um pedaço de papel e rapidamente deduzia a enigmática equação. Parecia tão simples. Como eu não tinha visto isso antes?

 Hoje não tenho dúvidas. Estava na verdade falando com meu guia espiritual, meu Anjo da Guarda, meu grande amigo e protetor e ele me ajudava, não antes de que eu tivesse me esforçado muito, quebrado a cabeça e quase desistido. Pedir socorro a ele era meu último recurso e sempre, sempre fui atendido.

 O Pai Fernando tinha uma opinião polêmica com relação ao Anjo da Guarda. Afirmava ele que o anjo da guarda é o nosso próprio espírito. Disse, uma vez quando por mim indagado:
- Imagine se você pudesse ter bem claro em tua cabeça todo o conhecimento adquirido ao longo de todas as encarnações que você já teve na terra. Não seria fantástico? Sim, seria. Concordei, mas aquela teoria não tinha me convencido. Ter muito conhecimento acumulado com certeza poderia ser muito útil, mas não seria suficiente para resolver situações novas e inusitadas.

Por exemplo: posso ter sido um militar numa encarnação qualquer, mas se agora eu quiser ser dentista, por exemplo, aquele conhecimento não será muito útil para este fim específico. Pensei muito no por que dele defender essa tese e cheguei à conclusão de que consciente ou inconscientemente o Pai Fernando estava nos ensinando a cultuar o nosso próprio espírito, ou seja, nos auto cultuarmos.

Acender uma vela para nós mesmos procurando assim fazer fluir com mais naturalidade as experiências vividas em todas as nossas encarnações e com isso sermos capazes de nos protegermos. Como ele mesmo cita em Grifos do Passado, um visitante teria dito que “dentro do terreiro cada médium é um pequeno deus”. Tinha encontrado uma lógica para aquilo e agora estava convencido do benefício de cultuar a mim mesmo. Despertando o conhecimento eu incomodaria menos o meu anjo da guarda e me tornaria mais livre e confiante. 

Ah esse Pai Fernando, esperto mesmo. Fez com todos os seus médiuns cultuassem os sete orixás e também a si mesmo. Passei a ver isso apenas como uma questão de semântica: o anjo da guarda que eu acreditava ser um espírito amigo poderia ser sim o meu próprio espírito e aquele a quem eu chamava de anjo da guarda passei a chamar de “meu guia espiritual”. Pronto, estava encerrada a polêmica.

Mais tarde quando comecei no Pai Maneco, surgiu uma dúvida, uma enorme dúvida : a quem pedir socorro primeiro? A Umbanda descortina uma nova realidade. Um orixá para cada problema e ainda tem os Exus, as Pomba-Giras, os boiadeiros, ciganos, o povo do oriente. Isto falando em linhas e falanges. Tem também as entidades individuais e mais as entidades do dirigente.

E para completar, não vamos esquecer das entidades dos médiuns mais antigos e ainda as entidades carismáticas como o Sr. Zé Pilintra ou as mais simpáticas como a Vovó Catarina e mais, as nossas próprias entidades. Isso sem falar nas crianças, nos eres, nos curumins, nos exus-mirins. Meu Deus, que confusão.

A quem pedir primeiro? A dúvida é mesmo pertinente. Eu mesmo fiquei perdido. Não sabia mais a quem recorrer para obter o melhor resultado. Antes mesmo de entrar para a corrente, tinha feito pedidos ao Sr. Akuan, ao Sr. Caveirinha, ao Pai Jerônimo e sempre fui atendido. Tinha fé em todos eles, mas a quem pedir e como pedir. Fazer uma consulta, pedir mentalmente, fazer um amalá, acender uma vela? Afinal, como se pede na Umbanda? Antes mesmo de começar no Pai Maneco eu já pedia para a Mãe Mariana, para o Cacique Marambaia, para o Dr. Andre Luiz e agora já não sabia mais a quem recorrer. A crueldade da dúvida, o desespero por não saber a resposta. Com o passar do tempo e com a experiência da adolescência, cheguei a algumas conclusões.

Primeiro: no mundo espiritual nada vem de graça. Para recebermos algo, o mínimo que as entidades esperam de nós é esforço e dedicação. Por isso temos que primeiro pedir a nós mesmos, ao nosso espírito, ao nosso subconsciente, ao nosso anjo da guarda ou sei lá que nome se queira dar a esse conhecimento adquirido e acumulado ao longo de nossas encarnações. Pedir ao nosso próprio espírito significa demonstrar o nosso empenho, o nosso esforço pessoal na busca da solução. Significa não esperar que as coisas “caiam do céu”. Ficou doente, vá ao médico. Perdeu alguma coisa, procure. Foi demitido do seu emprego, busque outro.

Segundo: se um ladrão invadir a casa ao lado, a dona da casa vai gritar desesperada e com certeza a primeira pessoa a ouvir será aquela que estiver mais perto, ou seja, o vizinho. Quem está mais próximo de nós e que assumiu o compromisso de nos orientar desde antes de encarnarmos e até depois do desencarne é o nosso guia espiritual. Portanto, a ele deve-se primeiro pedir uma iluminação, um caminho, um conselho. Para muitos problemas uma boa intuição, uma sugestão, um assopro dele pode ser tudo que precisamos para resolver um problema. Além disso, se o que precisamos estiver além das possibilidades do nosso guia espiritual, ele poderá buscar a solução com outros espíritos que tenham o conhecimento necessário. Se ainda assim não for possível para ele nos ajudar, ele poderá ser o intermediário entre nós e quem poderá efetivamente nos auxiliar.

Terceiro: as entidades com as quais trabalhamos, na verdade aquelas a quem servimos como intermediários, estão sempre dispostas a ajudar, a quem lhes peça, desde que esta ajuda não interfira no carma. Vejo as entidades como seres espirituais que com a nossa permissão para usar nosso corpo, trabalham muito por quem as procura pedindo socorro. É claro que podemos pedir a elas, apesar de acreditar que elas realmente sabem tudo o que precisamos.

Quarto: a maturidade do médium fará com que ele peça sem necessidade de direcionar o pedido. Na Umbanda as entidades são chamadas de Pais e Mães. Portanto, pedir ao Pai ou pedir a Mãe sem especificar quem, significa ter a certeza de que a sua necessidade, o seu pedido será atendido pela entidade que estiver mais apta a auxiliar naquele momento e para aquele assunto.

Quinto e último: apesar de tudo que eu disse, o pedido está diretamente relacionado à fé. Se você acreditar que pedindo a você mesmo, ou que pedindo ao teu guia espiritual, ou pedindo ao teu Caboclo ou Preto-Velho ou Exu, será atendido, então peça. Peça com fé e com a certeza de que o melhor para você será feito. Se esforce. Faça tudo que você puder fazer para auxiliar o mundo espiritual a te ajudar. E ainda assim se você tiver fé numa entidade específica e acreditar que só ela poderá te ajudar, não tenha dúvida, faça uma consulta e peça. Pode ser que você mesmo pelo teu subconsciente tenha pedido ao teu guia espiritual para falar com as tuas entidades e que uma delas disse que você devia consultar com o Pai Fulano ou com o Caboclo Ciclano. Isso chama-se intuição, a melhor mediunidade que existe.
Acredite no Pai. Acredite na Mãe. Acredite em você. Tenha fé.

Pai Caco de Xangô
14/03/2016
 

Bandeira da Amizade