Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 17 novembro de 2017

OS PRETOS E PRETAS-VELHAS E A PEDREIRA PAULO LEMINSKI - Mãe Cris Mendes

Por dois anos, os encontros do Terreiro Pai Maneco na Pedreira Paulo Leminski aconteceram em datas próximas ao dia em que se comemoram dois grandes eventos: a abolição da escravatura e o dia das mães. A homenagem aos Pretos Velhos reverencia os legisladores da Umbanda, os quais são cultuados em função do grande conhecimento mágico, da capacidade de ensinar a humildade e do exercício do amor incondicional.
Acreditamos que as entidades que incorporam nos rituais umbandistas conseguem estabelecer uma relação diferenciada com os médiuns neste oásis de natureza, com pedreira, lago e muita mata nativa. O palco, por outro lado, potencializa o caráter musical da cerimônia e o grupo musical, a Engoma, se reúne quase na íntegra: mais de 20 cantoras, as quais chamamos Sambas de Terreiro e cerca de 30 Ogans se revezam nos atabaques e demais instrumentos de percussão, dentre os quais destaco a orquestra de berimbaus.
A musicalidade de raiz africana é uma das marcas da nação brasileira e seu valor para a cultura nacional é amplamente divulgado. De que forma podemos reconhecer momentos nos quais MPB e ponto de Umbanda dialogam? Esta espécie de trânsito entre sagrado e profano me parece algo importante para se manter a atenção. A música, entoada num palco e não dentro do Terreiro, adquire novo status: cada palco tem sua história, todo teatro seus espíritos. É a única data do ano em que o Terreiro Pai Maneco vai à casa de Leminski.
Canções populares ligadas ao culto dos Orixás e músicas criadas por ou para os Pretos-Velhos são entoadas num coro de mais de 600 vozes, que intentam divulgar e preservar a Umbanda, patrimônio imaterial do Paraná, cuja valorização nas últimas décadas é evidente. Uma das possibilidades de se pensar a relação entre sagrado e profano são os pontos de raíz, criados na Tenda Nossa Senhora da Piedade, dirigida por Zélio de Morais nas primeiras décadas do século passado.
Percebo a dimensão de nossa responsabilidade quando Mãe Lucília relata que em alguns terreiros do Brasil, os pontos feitos no Terreiro Pai Maneco são considerados pontos de raíz. E o são. É importante e gratificante saber que nosso trabalho está sendo reconhecido e que é útil para outras casas que praticam a caridade espiritual.
De que modo acontecerá o encontro de 2017? Sabemos que os terreiros que participam do projeto “Bandeira da Amizade” estão convidados. Tal convite visa propiciar a maior união entre os umbandistas, já que a aproximação entre os adeptos de uma religião tão plena de sutilezas padece de tais tipos de encontro; via de regra, esforços nesse sentido são realizados em forma de apresentação musical ou assembleias políticas. Raramente temos a oportunidade de realizar o trabalho espiritual com um grupo tão numeroso. Por sermos uma casa estruturada sobre os fundamentos de Ogum, os trabalhos iniciarão com a força do Orixá guerreiro, que nos auxilia nas batalhas da vida e na transformação interior.
Depois de Ogum, os Pretos e Pretas-Velhas: pais e mães, vovôs e vovós, tios e tias; entidades tão queridas por todos os filhos de fé. Quem conhece a Umbanda sabe o quanto eles são, ao mesmo tempo, bondosos e exigentes, compreensivos e severos. O carinho do Preto carrega a dor de quem conhece a luta por liberdade e respeito. Se o problema hoje enfrentado não é simplesmente a falta de dinheiro, mas a insegurança e instabilidade material e espiritual (conforme aprendi na última gira), ninguém melhor do que um Preto ou uma Preta para ensinar a valor da perseverança e da fé.
Somos muitos, pensamos e vivemos de forma distinta, compartilhamos a fé, mas divergimos em tantas outras opiniões. Mais do que nunca, exercitaremos a prática do respeito e da caridade, num trabalho espiritual cuja meta é auxiliar aqueles que procuram a Umbanda para caminhar com mais sabedoria. Tenho certeza de que, com a força das Entidades e o desejo de aprendermos um pouco mais a cada novo encontro, o Trabalho da Pedreira nos trará o equilíbrio necessário para prosseguirmos com tranquilidade nossa jornada material e espiritual.
No fundo, desejo apenas que o Pai Maneco tenha orgulho de seus filhos, que o Pai Joaquim considere o trabalho correto, que Dona Maria Redonda fique feliz por ver os filhos unidos no amor, enfim, que possamos cumprir nossa missão perante os espíritos e que eles fiquem satisfeitos. Neste ano, ao invés de estarmos próximos à data da abolição da escravatura e do dia das mães, realizaremos o trabalho nas vésperas do dia consagrado a Santo Antônio e aos namorados. Aguardemos as novidades da gira, pois ela costuma trazer importantes revelações.
 

Bandeira da Amizade