Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 21 setembro de 2017

A Obrigação na Umbanda

No último domingo, o pai de santo Gustavo de Oxóssi celebrou o ritual de obrigação, no Terreiro Pai Maneco.

Segundo o pai de santo, a obrigação é um rito sagrado, há muito consolidado na Lei da Umbanda. “Necessário e de muita importância, através do qual se firmam compromissos de trabalho entre o médium e a entidade, e vice-versa”, explica.

A partir disso, ambos estão oficialmente se obrigando naquele determinado terreiro, validando definitivamente uma parceria, que certamente já vinha com grande afinidade e comprometimento. “Passa, a partir de então, a entidade a trabalhar apenas com aquele médium e o médium com aquela entidade, na linha em questão”, diz.

Gustavo explica que o rito em si é relativamente simples: inicialmente prepara-se uma amalá para a entidade. Então o pai de santo saúda o espírito chamando seu nome e cantando seu ponto, convidando-o, então, para aceitar obrigação. A entidade incorpora no médium, confirma sua identidade e dá o aceite, riscando seu ponto magístico e definindo quais seus elementos de trabalho, bebida que porventura fará uso nas giras, elementos de guia e outras orientações que se façam necessárias. “Pela lei da Umbanda, num rito de obrigação, o guia de luz que trabalha com o médium só pode arriar caso sua identidade esteja correta e só pode dar aceite caso ele seja mesmo o guia que irá permanecer trabalhando com o médium em definitivo naquele terreiro”, relata.

“O rito de obrigação tem uma importância prática e dou exemplo: o médium pode estar trabalhando incorporado com uma Cabocla e no rito de obrigação um Caboclo arriar e tomar a frente do médium, ou mesmo manifestar-se uma entidade que não aquela com a qual o cavalo trabalhava até então. É bastante comum também, um guia deixar clara sua identidade por ocasião do convite para o rito de obrigação, afastando-se dúvidas de que uma determinada entidade poderia não ser aquela cujo nome foi dado anteriormente”, conta.

Os médiuns que participam do rito, são médiuns que estão prontos para a obrigação. “Evidentemente a confiança no médium deve ser grande, a experiência do médium no toco também deve ser observada e, há que se considerar a firmeza, a desenvoltura e a confiança com o qual o médium trabalha incorporado. Eventualmente um médium trabalha incorporado com mais afinidade em uma linha do que em outra”, diz.

Gustavo explica que a partir disto, fica claro o entendimento de que o médium não precisa fazer a obrigação com todas as entidades com as quais trabalha, ficando a critério dele - pois cabe a negativa - e do dirigente, tais escolhas.

De maneira prática depois do rito da obrigação a relação entre médium e entidade fica bastante mais estreita e este pacto de compromisso fortalece laços, aprofunda a relação mediúnica e energética e promove afinidade entre ambos. “Por experiência própria posso colocar que a partir de obrigação feita, o guia de luz não somente manifesta-se com maior plenitude na incorporação como passa a promover uma comunicação intuitiva muito maior e mais efetiva. Digo ainda, sem a menor dúvida, que obrigar-se com a entidade é um privilégio, um abraço de pai e certamente um evento único na caminhada dentro da Lei. Exige comprometimento, respeito e dedicação. Ao mesmo tempo quem dá, também o recebe. Médium com obrigação é cavalo firme, e cavalo firme fortalece a sua Casa”, explica.

“Um acontecimento marcante para mim na religião foi o rito de obrigação que tive oportunidade de empreender com Pai Fernando de Ogum. Já trabalhando com o Exu Arranca Toco há tempos, ele pediu ao seu Trança Ruas que lhe fosse permitido usar capa, no que foi de pronto atendido. Ocorre que o próprio Exu Arranca Toco impôs a condição de ter obrigação feita para que pudesse receber a capa e posteriormente sua guia. Então fomos à Morretes. Eu, Pai Fernando e Pai Beco, fazer a obrigação com o Exu Arranca Toco, meu mestre que eu tanto admiro. Para esta ocasião levamos alguns elementos pré-estabelecidos por ele.

Já mata adentro, Pai Beco saudou e cantou o ponto do Exu. Ele arriou, numa vibração incomum e correu pelo mato, cavalo descalço, depois riscou seu ponto, abriu um mamão e colocou dentro dele uma corrente fechada por cadeado. Pediu ao Pai Fernando que lavasse os pés do cavalo com a sua bebida e que regasse também às costas. Depois disso jogou a chave no mato. Então disse ao Pai Fernando, com o humor que lhe é característico, que para desfazer esta obrigação bastaria pegar a chave e abrir o cadeado. Salve Exu. Salve a boca do mato. Salve o rito de obrigação”, finaliza o pai de santo.

Bandeira da Amizade