Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 25 julho de 2017

LEITURA DE PÁSCOA - Por Pai Leonardo

Já ouvi comentários por aí que os umbandistas não leem o evangelho de Jesus. Bem, eu não sei se os meus irmãos, filhos de Pai Maneco, leem ou não, mas acho que leem sim. Ou se não o fazem sempre, ao menos já o fizeram para conhecimento, pois sabem da importância que a crônica de Cristo tem para a vida de toda pessoa de fé. Não só sabemos que o Domingo de Pascoa é o dia em que Jesus venceu a morte e ressuscitou entre os homens para confirmação de sua missão redentora, como nos sentimos à vontade, seja por nossa herança cultural católica, seja pelo sincretismo que caracteriza a Umbanda, a agregar ao arcabouço de nossa fé e de nossas reflexões religiosas todos os profundos significados que a Pascoa carrega e ensina, pois aprendemos com os pretos-velhos que Jesus Cristo, de fato, foi o herói enviado por Zambi para expiar os pecados do mundo, personificação humana perfeita de Oxalá.
Sim, em relação à teologia judaico-cristã a Umbanda disponibiliza um lance a mais entre Deus e seu avatar humano, Jesus. Entre o Pai e o Filho temos a energia cósmica que foi chamada pelos africanos de Oxalá, que no máximo pode ser definida como “a nossa própria concepção mais ampla possível do que seja a essência benfeitora de Deus”.
[Por via das dúvidas, a quem seja útil, deixo ao final uma pequena síntese dos derradeiros dias da história de Jesus Cristo, segundo os evangelistas Lucas, Mateus, Marcos e João]
Oxalá, sabemos, é a parte essencial, o mais fundamental princípio que regula a vida e os destinos das criaturas na terra e em todo o universo, esteja essa criatura existindo no plano material ou espiritual da vida. Oxalá é a vontade divina e a lei em torno da qual a nossa existência se justifica, se confirma e se consolida. Oxalá é o poder mais sublime da Umbanda, é o axé essencial presente na base de todos os outros axés. Sim, todo comando, toda permissão e toda atribuição necessária para a Umbanda funcionar parte primeiro de Oxalá. Existem sete reinos de orixás e em todos um atributo coincidente, básico, um fio que costura e une todas as sete ordenanças, e esse fio é o AMOR. E o AMOR é a essência natural de Deus que tem sua primazia em Oxalá.
Tanto é assim que percebemos que Oxalá não incorpora, quase não vibra, não tem armas, tem se faz presente de forma tão objetiva, pois não se vale de enviados. No entanto, todo umbandista sabe que sua presença está disseminada em tudo a todo tempo e seu nome é repetidamente mencionado pelas entidades de todas as linhas existentes. Oxalá, por sua sutileza, não se comunica diretamente e também por isso só nos cresce a importância das reflexões sobre o pensamento, os exemplos e as palavras deixadas por Jesus. Dos ensinos da última ceia tiramos a certeza de que Oxalá nos proverá e nos ensinará sempre. Do martírio e da paixão de Cristo tiramos as preciosas lições de humildade, resistência, fé e compaixão. Pelo relato de sua ressurreição, renovamos nossa comunhão com a Umbanda e toda a lei astral, confirmamos o poder infinito de Zambi e reconhecemos a lei cristã como idêntica à lei de Oxalá e a mesma que nos conduz ao exercício do amor fraterno e da permanente busca de nossas virtudes.
Páscoa é tempo de arrependimento e perdão. De renovação da fé. De comunhão em família e de profundo conforto aos que tem fé, seja em Jesus, em Oxalá, ou em ambos.
Feliz Pascoa a todos,
E Saravá!
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OS ULTIMOS DIAS DE CRISTO.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, concebido pelo Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, batizado por João Batista, viveu pela missão de glorificar a Deus e redimir os homens até que, contando 33 anos de idade, ao tempo da última semana da quaresma, retornou a Jerusalém montando em um burrico, símbolo de humildade e intenção de paz, juntando-se ao povo judeu, pelo qual foi recebido com honrarias no hoje chamado Domingo de Ramos e lá esteve até quinta feira, nesses que seriam seus últimos dias na terra, quando para a santa ceia juntou seus apóstolos, lavou seus pés, ensinou-lhes a eucaristia, proclamou-se pão da vida, consagrou o mandamento do amor*, pediu oração e vigília aos seus discípulos, ofereceu-se a ser seguido por quem tomasse a própria cruz, rogou a Deus Pai que se possível lhe afastasse aquele cálice, mas como previsto nas profecias foi traído por Judas, em seguida preso, humilhado, acusado junto ao sinédrio, renegado três vezes por Pedro nesse mesmo dia, escolhido pela multidão para morrer em lugar de Barrabás, foi por fim condenado à cruz por Pilatos. Cruz essa que carregou calado, coroado de espinhos, até o calvário, onde foi crucificado e veio a morrer algumas horas depois, não sem antes rogar a Deus o perdão para os homens - pelo que até então fizeram, eis que não sabiam o que faziam -, consagrou os cuidados de sua mãe Maria a São João e foi então terminar de sofrer toda a dor mundo, ali dependurado por pregos, fazendo o dia de repente virar noite, até que pediu água e recebeu vinagre, dando assim cumprimento às sagradas profecias de sua vida e de sua morte, morte essa que se consumou na hoje chamada Sexta-Feira da Paixão, após proferir a Deus as seguintes palavras: - Pai, em vossas mãos entrego meu espírito!, ocasião em que a terra toda tremeu, rachando rochedos e fazendo ressuscitar-se muitos mortos e o povo comentar: - Esse era mesmo o filho de Deus!. Pela manhã teve seu corpo ungido e sepultado por José de Arimateia, seu sepulcro fechado por uma grande pedra, lacrada e vigiada por guardas naquele dia de sabbath judaico, hoje sábado de Aleluia, ocasião em que seu espirito desceu à mansão dos mortos para só no dia seguinte pela manhã ressuscitar, aparecer a Maria Madalena, aos apóstolos e por fim a todo povo, dando provas do poder de Deus e de seu próprio amor, sua compaixão, de sua palavra, de sua promessa e de sua hierarquia, hierarquia essa que usou para expressar a ordem de que fossem as boas novas divulgadas a todos os homens pelo exemplo de seu evangelho, sendo isso o que os cristãos festejam hoje, Domingos de Páscoa, e assim para mais cinquenta dias, até domingo de Pentecostes, que comemora o sétimo dia da ascensão de Jesus aos céus, quando ao lado direito de Deus se assentou para de lá dirigir e velar pela terra e por toda a humanidade.
(*Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.)
 

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