Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 14 dezembro de 2017

CONHEÇA OS NOVOS PONTOS DO TERREIRO PAI MANECO Gravações são projeto para novo CD

Salve a Engoma, sambas e ogans!
Salve seu Ogan Kaian!
Salve a alma musical do Terreiro Pai Maneco!

Com esta saudação vamos começar a falar dos novos pontos cantados do Terreiro do Pai Maneco (TPM) que vamos apresentar aqui. São quatro as novidades: Nas Matas de Oxossi; Salve a Engoma do Terreiro; Falange de Mulambo e Cura do Caboclo Sete Ponteiras do Mar.

É este trabalho da Engoma do TPM e de seus integrantes que está ganhando gravação em estúdio profissional. Uma aspiração da Mãe Lucilia de Iemanjá e dos dirigentes e médiuns do terreiro.

“Queremos gravar mais pontos, queremos fortalecer esse aspecto do terreiro, tanto espiritual como cultural”, diz ela lembrando que esse também era um desejo do Pai Fernando do Ogum.

E já que o fundador do TPM foi lembrado, nada melhor do que reviver o que ele pensava sobre o papel da música no terreiro:

  • - “Os pontos cantados são os mantras na Umbanda para a chamada dos espíritos e suas falanges. São a força e energia dos trabalhos”
  • - “Os pontos devem ser cantados de acordo com a tradição da Casa e das entidades. Entoados com amor, carinho e paz interior”.

NOVAS VIBRAÇÕES
É nessa vibração que o TPM está apresentando esses novos pontos. E já que são a essência da Umbanda vamos explicar o que está acontecendo. Com a palavra o Pai Pequeno Lourenço Guimarães, o Lolô, diretor musical e um dos coordenadores da Engoma.

“O ponto cantado é fundamental na cultura da Umbanda. Portanto é de suma importância histórica que eles sejam registrados, pois hoje lamentamos que muitos pontos tenham se perdido no tempo”, alerta.

E ele vai além, diz que a Umbanda nos ensina a compartilhar e que esse também é um dos objetivos das atuais gravações.

“Quando disponibilizamos os pontos na internet, no site do TPM, damos a oportunidade aos muitos terreiros no Brasil inteiro fazerem uso do que os guias nos ensinam e que traduzimos com a arte de compor pontos”, destaca. “E somos bem conhecidos no Brasil todo por nossos pontos. ”

NO ESTÚDIO “PRETO VELHO”

Para fazer o registro dos principais pontos cantados das giras, o TPM conta com a colaboração inestimável do empresário e produtor cultural Helinho Pimentel, que disponibiliza o estúdio “Old Black” para as gravações e faz a direção artística. O trabalho conta ainda com a colaboração do engenheiro de som Renato Xinu.

“Queremos fazer o registro dos principais pontos do TPM como acontecem nas giras. Da forma mais original possível e como faz a engoma no terreiro”, conta Helinho.

Por isso, explica ele, os arranjos de percussão e de vocais querem passar a simplicidade, a pureza e a energia dos pontos. “Queremos destacar a coisa de raiz que existe nos pontos”, diz.

E por que “Old Black”?, perguntamos. E a resposta veio direta: “Os pretos velhos são grandes mestres musicais. Foi a forma que encontramos para homenageá-los. São eles que abençoam nosso trabalho”, revela.

PROJETO NOVO CD

Todos os envolvidos nas gravações destacam que o projeto é ter ao final das gravações material para lançar um CD com os pontos do TPM. “Quando tivermos 11, 12 pontos gravados e selecionados vamos trabalhar para lançar um CD”, avisa.

 

CONHEÇA CADA UM
DOS NOVOS PONTOS

1 - NAS MATAS DE OXOSSI
Letra e música: Adriana Batista e Patrícia Vitachi

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Lá nas matas da Jurema

Seo Oxóssi me chamou
Foi então que eu chorei
Meu Pai Oxóssi a minha banda saravou
Eu sou seu filho meu pai
Também saravo a sua banda
Dá-me a sua proteção
Que eu sou das matas
Eu sou filho da Umbanda
Okê aro!

Okê aro meu Pai Oxóssi
Salve guerreiros da Jurema
Com o seu bodoque e sua flecha
Na mata iluminada é quem reina Okê aro!
Okê aro meu Pai Oxóssi
Salve guerreiros da Jurema
Com o seu bodoque e sua flecha
Na mata iluminada é quem reina

HISTÓRIA DO PONTO
Contada pela Adriana Batista:
"Apesar de eu ser filha de Ogum, apesar não né, sou filha de Ogum. Então, eu percebi, um dia na gira, que alguns filhos de Oxóssi não ficam muito à vontade. Assim, num momento, eu percebi que tinham alguns filhos de Oxóssi com uma imensa dificuldade de incorporar.
E eu acho engraçado, não engraçado né, mas porque isso vem muito de olhar a Pati Vitachi, minha parceira. Ela representa muito isso. Meio que essa dor do filho de Oxóssi de não conseguir incorporar, essas suas dificuldades para incorporar caboclo.
Então, o ponto surgiu primeiro desse sentimento. Depois claro, passou-se um tempo, não veio a música, não veio a letra. Daí no dia da gira eu fiquei pensando nisso. Acho que a Pati estava chorando muito e estava na dúvida se caboclo ou cabocla. Foi alguma coisa parecida com isso.
E foi assim que veio a primeira frase: ‘Lá nas matas da Jurema/Seo Oxóssi me chamou/Foi então que eu chorei". Esse ponto é uma entrega do filho ao seu Orixá, a Oxóssi. ’
Já a última frase desse ponto não vinha nunca e foi a Patrícia que terminou. Foi num dia, no final de tarde, indo para o terreiro e eu cantando para ela, na loucura do trânsito, e ela finalizou ali. Nós terminamos a melodia e a última estrofe desse ponto.
Esse ponto foi cantado pela primeira vez de verdade, com entusiasmo, na gira do Pai Beco. Foi quando a gente viu que é um ponto de trabalho de linha, de entrega muito forte.

2 - SALVE A ENGOMA DO TERREIRO
Letra e música: Adriana Batista

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Salve a engoma do Terreiro
Salve Sambas e Ogans
Que vem firmar sua fé
Com a benção de Seo Ogan Kaian
No Congá de Akuan
Salve a engoma do Terreiro
Salve Sambas e Ogans
Que vem firmar sua fé
Com a benção de Seo Ogan Kaian
No Congá de Akuan

HISTÓRIA DO PONTO:
Contada pela Adriana Batista:
“Vem do meu próprio orgulho de ser 'samba'. Eu não sabia que existia esse título. Foi esse o maior presente que o Caboclo Akuan me deu. Eu lembro muito do olhar do Pai Fernando sobre as sambas e sobre os ogans sempre que canto esse ponto. Parece que eu vejo os olhos dele admirando a gente ou dando uma bronca. Ele sempre quis que a gente desse o nosso melhor.
O ponto da Engoma surgiu de ter percebido a necessidade a cada cruzamento de um ogan e uma samba de ter um ponto que homenageasse essa entrega deles que eu acho maravilhosa.
É uma entrega, é uma abdicação de trabalhar com suas entidades e uma dedicação para o bom andamento dos trabalhos. Foi por isso que achei que todas as sambas e ogans mereciam um ponto.
Eu comecei ele bem assim, primeiro vem uma parte, depois vem outra. Tinha um cruzamento que ia acontecer e eu pensei: vou fazer um ponto para a Engoma. Está na hora de fazer. Eu tenho essa coisa de que está na hora de fazer. Não eu né, com certeza são as entidades soprando e falando das necessidades que existem no terreiro. Isso é mágico. É maravilhoso. E foi por causa disso, dessa obrigação, desse cruzamento que surgiu o ponto."

3- FALANGE DE MULAMBO
Letra e música: Juba Akel

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Sou Maria Farrapo, Falange de Mulambo tem poder
Sou soldado de Mulambo e na encruza vou vencer
Ela vem girando, girando, girando, girando, girando
Dando gargalhada, Maria Farrapo, Maria Mulambo
Deu meia noite, a lua se escondeu
Lá na encruzilhada Maria Farrapo apareceu
Ela vem girando, girando, girando, girando, girando
Dando gargalhada, Maria Farrapo, Maria Mulambo
Ela vem girando, girando, girando, girando, girando
Dando gargalhada, Maria Farrapo, Maria Mulambo

HISTÓRIA DO PONTO:
Quem conta é a Juba Akel:
“Tudo começou numa gira de esquerda na qual o Seu Exu Veludo começou a ficar irritado com excesso de mulambos que vinham na gira.
Então, ele pediu para conversar com a Maria Mulambo que eu trabalhava. E ela falou que não eram todas Maria Mulambo, que tinham muitas Maria do Farrapo vindo junto porque não eram chamadas em separado. Ele não se convenceu disso.
Eu fui para casa e a Dona Mulambo ficou me mandando intuições e mensagens de que eu deveria levar um ponto para o terreiro. Um ponto para as Farrapos serem chamadas separadamente para o convencimento do Seu Veludo.
Fiz todas as pesquisas possíveis. Li histórias na internet sobre a Dona Maria do Farrapo. Ouvi uns cinco ou seis pontos, mas nada batia com a mensagem que Dona Maria Mulambo estava passando para mim.
Nas histórias e nos pontos cantados sempre indicavam a Dona Farrapo como rainha das prostitutas, rainha do cabaré. Mas não foi nada disso que a Dona Mulambo passou para mim.

Ela foi bem clara comigo, disse que Maria do Farrapo tinha tido uma vida semelhante, mas que tinha vindo da base da sociedade. Que ela era um soldado da Mulambo e que executava muitos dos trabalhos elaborados pela Dona Maria Mulambo. Contou também que o trabalho da Dona Farrapo era feito na encruzilhada.
Assim, comecei a pegar algumas partes de alguns pontos e tentar adaptar essa história. Então peguei algumas melodias misturei, sacudi e contei a história que a Dona Maria Mulambo me contou, de que a "Maria Farrapo é soldado de Mulambo e na encruza ela vai vencer". Aprendi também que Dona Maria Mulambo, Exu mulher, não quer ser única, não quer ser só ela. Que quer trabalhar e para isso precisa formar um exército. ”

4 - CURA DO CABOCLO SETE PONTEIRAS DO MAR
Letra: Giovana Neiva; Música e adaptação: Patrícia Vitachi

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Se são sete, as cores da Umbanda
Os dias da semana e as ervas de Oxalá
A cura também é de Sete
É de Ogum Seo Sete Ponteiras do Mar
Com o amor de Iemanjá e a força de Ogum Nesse terreiro não entra mal algum
Nem a dor que ouse machucar
A lua é quem tira o mar pra dançar

Seo Sete Ponteiras curou, a vida dos filhos de fé
Sua espada virou flor, é a magia das marés

Seo Sete Ponteiras vem ver essa fé que ilumina o conga
Ogum, Iemanjá Ogunhê, Iemanjá e Ogum, Odoyá Seo

HISTÓRIA DO PONTO
Contada pela Giovana Neiva:
“Não me lembro ao certo da data, mas o ponto de cura do Seu Sete Ponteiras do Mar veio a mim em uma noite de 2014. Conversava sobre pontos no ‘WhatsApp’ com um amigo, naquela época eu andava recebendo vários deles, então, ele comentou que seria lindo se existisse um ponto de cura para Seu Sete, e pediu, brincando, para que eu fizesse.
No mesmo momento intuí a primeira estrofe. Foi muito rápido e forte, as palavras e a melodia pareciam certeiras. Fiquei bastante emocionada. Cantei e ele me encorajou: "continua, tem mais!"
Já era tarde e peguei no sono. Quando acordei, o restante da letra já estava comigo. Liguei para o meu amigo, mostrei o que havia recebido e durante nossa conversa as rimas da última estrofe vieram. Desliguei o telefone, agradeci e chorei.
Alguns meses antes disso tudo minha mãe tinha passado por uma situação gravíssima pós-cirúrgica e fui ao terreiro, desesperada, me consultar com Seu Sete Ponteiras. Sem que eu dissesse nada, ele falou sobre saúde, sobre confiança e pediu ajuda ao Seu Akuan para cuidar da minha mãe. Ela foi curada.
De algum modo, sinto que o ponto e a cura da minha mãe estão relacionados, são próximos, parte de uma mesma energia. E eu tenho muita, muita sorte de desfrutar dela.
Muito, muito obrigada, seu Sete. Saravá. ”

Bandeira da Amizade