Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 9 - Troca de Energia

A doação mútua de energias entre as pessoas tem uma ação sobre elas de certa forma desconhecida da maioria.

Quando nos aproximamos de alguém, acontece uma das duas coisas: ou transferimos nossa própria energia, ou absorvemos a da pessoa, dependendo, do estado de cada um. O interessante deste fenômeno é a sua influência no doador da energia. Se a pessoa tiver consciência do fato, nada lhe acontece, mas, caso contrário, pode ficar fraca e sentir-se mal, até mesmo durante longo tempo.

Fui com uma pessoa visitar um doente no hospital. Ao entrar no quarto, ela sentiu um impacto muito forte: suor frio, mal estar, esteve à beira de um desmaio. Ao sairmos, contou-me o fato, afirmando estar o doente tão perturbado, ao ponto de lhe ter transmitido sua energia negativa. Foi o contrário, expliquei:

- Você doou a sua energia positiva, e ninguém dá mais do que pode.

Tomando conhecimento do fenômeno, imediatamente tranqüilizou-se, voltando ao estado normal.

A doação de energia, dentro das casas espirituais, através dos passes magnéticos tem uma eficiência assombrosa. Quem procura uma casa espiritual não se satisfaz só com o passe. Quer mais é conversar com as entidades. Mas na verdade, às vezes, é melhor um só passe do que dez conversas com os espíritos.

Fiquei confuso com um caso, não sabendo se devo enquadrá-lo como prova de fé, confirmação da eficiência da energia salvadora do passe, ou no anedotário espiritual.

Um Juiz de Direito, exercendo seu cargo em uma pequena cidade do interior, era conhecido pela sua convicção no espiritismo. Foi chamado para atender uma pessoa hospitalizada. Ao entrar no quarto, viu o paciente à beira da morte, desenganado pelos médicos. O Juiz aplicou-lhe, com toda fé, um passe energético, mais para atender a solicitação dos familiares, em choro pela expectativa da morte, do que propriamente por acreditar no milagre da cura daquele homem, já tão debilitado. Dias depois, o homem, completamente curado, foi à casa do Juiz agradecer o milagre de ter dado um sensacional drible no Cavaleiro Negro da Morte. O Juiz ainda não tinha chegado em casa. Sua esposa, gentilmente, fez o homem entrar e o convidou para sentar-se na sala, onde deveria aguardar a chegada do abnegado julgador. Delicadamente, deixou o visitante à vontade e foi cuidar de seus afazeres domésticos na cozinha, pois estava preparando o almoço. Chegou o Juiz, entrou em casa e viu o homem na sala, que, respeitosamente, levantou-se e aguardou-o para o cumprimento e agradecimento formal. O Juiz, homem calmo, sereno e extremamente espiritualizado, tirou seu paletó preto e surrado, um dos seus característicos, sentou-se na frente do homem e sentenciou, o que sabia fazer muito bem:

- Feliz é você que hoje está vivendo a verdadeira vida. Tenha certeza, meu amigo, que nosso querido Mestre Jesus Cristo está cuidando de você. Viva sua vida espiritual, tenha fé e não se apegue às coisas materiais. Ao contrário da revolta, agradeça aos bons espíritos terem facilitado seu desencarne...

- Não, doutor. Eu não estou morto. O senhor me curou e só vim agradecer-lhe! – interrompeu, sem graça, à entusiasmada doutrinação do mestre da lei.

Muitas histórias são contadas sobre esse notável homem, hoje aposentado como Desembargador. Quando foi Juiz na Vara de Execuções Criminais, e era ele quem deferia ou não os pedidos de soltura dos presos, sua casa foi assaltada. Por ser importante figura nos meios jurídicos, a imprensa deu destaque a ocorrência criminosa. Dias depois, recebeu, em sua casa, de portador anônimo, uma trouxa, contendo todos os objetos roubados, com um bilhete: "Desculpe, doutor. Não sabíamos que era o senhor".

Para concluir, vou contar mais uma. Um Secretário de governo, estava passando momentos difíceis. Solicitou um trabalho ao nosso grupo. Fomos, excepcionalmente, à sua casa. Enquanto a dona da casa preparava a sala para a sessão, conversávamos com o importante homem público. Ele gabava-se ao Juiz:

- O Governador não faz nada sem me consultar. A carga é muito pesada. Todos os assuntos políticos do Estado, quem tem que resolver sou eu – dizia, não sei se para justificar seu estado espiritual, ou para se exibir.

E continuava a contar sua importância nas graves decisões políticas e governamentais. A certa altura, o sisudo juiz, interrompeu-o:

- Secretário, o senhor acha que está sendo vitima de um obsessor espiritual?

- Sim, creio estar com um espírito maligno ao meu lado. – confirmou o político.

- O Governador do Estado nada faz, sem pedir teu conselho. Você, pela obsessão, está sendo aconselhado por um espírito atrasado. Ora, então todos nós, estamos sendo governados por ele, o espírito maligno. – concluiu.

Consertei rapidamente a constrangedora situação. Quebrando o silêncio, e fechando o disfarçado riso do juiz brincalhão, convidei a todos:

- Vamos iniciar o trabalho. A sala já está pronta.

Existe uma outra forma da troca de energia. É a por afinidade espiritual. Entre mim e minha mulher, acontece com freqüência.

Começou a aparecer, em meu braço direito, incomoda coceira provocando pequena ferida. Alguns dias depois ela foi aumentando, parecendo infeccionada. Até que, ao meu lado, a Yedda, pegando em seu braço e no mesmo lugar da minha estranha ferida, queixou-se.

- Minha vacina pegou. Que azar!...

- Vacina? Que vacina?, deixe eu ver. – pedi.

As feridas eram iguais. Contou ter sido obrigada a se vacinar no colégio onde era diretora, para dar o exemplo. Elas foram secando, criaram uma casca e quando a do meu braço caiu perguntei a ela:

- Como está a ferida de tua vacina?

- A casca caiu hoje, respondeu.

- É, estou imunizado, sem ter tomado a vacina. – brinquei.

Quando tenho qualquer dor, ela também tem; ou se estou preocupado, por mais que tente dissimular, ou ela descobre, ou fica do mesmo jeito. Isso é afinidade, temos em comum nossas vibrações. Um alivia a necessidade do outro. E mais: a comunicação, por pensamento, torna-se bem mais fácil.

Sábado é o dia que não tenho compromisso. Saio cedo, sem destino. Vou aqui, ali, comprar qualquer ferramenta. Apelidei o sábado, de "o dia da bobagem", feito para pequenas coisas. Num deles, resolvi passar no escritório de um amigo. Ao entrar, a Sonia, sua secretária, deu-me um recado:

- Senhor Fernando, é para o senhor telefonar para sua casa, pois dona Yedda precisa falar.

- Yedda, o que quer? – perguntei-lhe.

- Fernando, sua mãe está aqui e precisa falar com você.

- Já vou indo.

- Espera! Como você sabia que eu precisava falar com você?

- Recebi o recado, pela Sonia.

- Que recado? Eu não falei com ela.

- O que?. – pondo de lado o telefonei, perguntei à Sonia. Você não me disse que a Yedda telefonou e precisava falar comigo?

A Sonia me olhou, mostrando estar surpresa com a pergunta, e respondeu:

- Não senhor Fernando. Eu não lhe disse nada. O senhor entrou no escritório, foi ao telefone e o usou. Até estranhei. Finalizou.

Fiquei atrapalhado. Tinha certeza do que dizia. Disse já estar indo e fui para casa. Atendida minha mãe, a Yedda contou-me ela ter chegado à minha procura, e que precisava falar comigo com urgência. Não era hábito dela ir visitar-me. A Yedda explicou:

- Como ela estava nervosa, e eu não sabia onde te encontrar, fiquei mentalizando o pedido para você ligar para mim. Sou forte, não sou? – finalizou, triunfante.

Este é o tipo da materialização de um pensamento, que só acontece entre pessoas de muita afinidade.

A energia em harmonia também tem seu lado negativo. Entre as pessoas de sexo diferente, às vezes, na prática da espiritualidade, em qualquer religião, quando existe a afinidade, pode ser levada para caminhos perigosos, ao ser confundida por atração física, um dos grandes problemas dos terreiros e templos religiosos. Um cuidado que todo praticante da umbanda deve ter quando isto acontecer: lutar contra este sentimento, e, em caso de não o superar, contar ao dirigente do terreiro. Um pai-de-santo, nosso conhecido, trabalha com o Caboclo Tupinambá, a mesma entidade de um médium de nosso terreiro. Numa visita, ambos, já velhos conhecidos, se abraçaram. Ao sair o médium, o pai-de-santo observou:

- Este menino tem uma vibração muito boa. Tenho muita afinidade com ele, talvez por trabalharmos com a mesma entidade. Quando o abraço, fico até arrepiado.

- Bem, você já pensou se ele fosse mulher? Perguntei irônico.

Ele olhou-me espantado, pois já havíamos trocado idéias sobre o assunto.
- Agora entendo o que você diz.- Concordou.

Mas, inegavelmente, a presença da comunhão de vibrações entre os homens é boa, interessante e, se exercida com inteligência, pode ser muito útil, principalmente na divisão dos sofrimentos e na telepatia.

Bandeira da Amizade