Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 8 - Obsessão

As pessoas não imaginam, como é grande a influência espiritual nos encarnados, em todos os sentidos, desde o excesso de bebida alcóolica, sexo, doenças mentais e físicas.

Durante um passeio de automóvel, a Yedda estava calada, deixando transparecer alguma preocupação. Pensei ser algum problema na escola, onde era a diretora. Quebrei o silêncio:

- O que te preocupa? – perguntei.

- É uma professora. – esclareceu.

- Encrenca? – arrisquei.

Ela me contou a razão de sua tristeza. Na Escola uma das professoras estava passando por um problema enorme. A professora, ainda bem jovem, morava com sua irmã, casada. Há algum tempo, o cunhado começou a demonstrar ciúmes dela, não a deixando sair com amigos, vigiando seus passos, aliás, comportamento totalmente estranho e inadequado para a situação, até que, o inevitável aconteceu: declarou seu amor por ela, sua cunhada. Não havia outra maneira a não ser ter que se mudar, extremamente magoada, diante do absurdo deste amor. Como contar à sua irmã? Deveria esclarecer a razão de sua saída, ou, para não magoá-la, esconder esta faceta suja daquele que era seu marido. A medida que minha mulher relatava a situação, eu ia tendo uma intuição muito forte. Perguntei:

- A moça é uma chinesa, alta, bonita, com cabelos pretos, longos e bem tratados?.

- A descrição se encaixa, exceto a nacionalidade. Não é chinesa, mas seu apelido é China. – esclareceu.

- Diga para a moça ter paciência que, provavelmente, poderemos resolver. Do lado dela está o espírito de um moço moreno, por ela apaixonado, que se envolve em seus cabelos e tenta um relacionamento sexual. – esclareci.

- Mas como pode um espírito ter relacionamento desta espécie?

- Ele não pode, e aí é que existe o perigo. O espírito tem a emoção e precisa provocar o relacionamento para se embriagar no êxtase. Ele obsidiou o cunhado da moça, influenciando sua cabeça e despertando esta paixão que não existia nele, e sim no próprio espírito. Se acontecer o relacionamento, ele será, com certeza, um parceiro na cama do casal. Mas vamos torcer para reverter este quadro.

O médium, em ocasiões como esta, e também em algumas até de forma inconsciente, atrai para si a energia do espírito obsessor, neutralizando temporariamente a ação dele no obsidiado.

Na sessão seguinte preparei-me para atrair o espírito. Mentalizei a conversa com a Yedda, na cena vista intuitivamente. Não demorou muito, um dos médiuns de nossa corrente, incorporou a entidade. Gritava e afirmava não se afastar de onde estava. Às vezes dizia estar envolvido naqueles cabelos negros e longos. Era o amor que procurava. Ninguém iria prejudicá-lo ou desviá-lo de seu intento, já quase conquistado. Ele esqueceu-se da força de Jesus. Nós, simples médiuns, cheios de defeitos, mas imbuídos da vontade de ajudar nossos semelhantes, conseguimos, com a graça de Deus, afastar a entidade e encaminhá-la, através dos nossos guias, para um hospital do espaço. Foi concluído o trabalho. No dia seguinte, minha mulher dava a noticia.

A professora estava radiante. Seu cunhado rogou-lhe para não sair de casa e jurou-lhe todo o respeito que sempre lhe dedicou. Não sabia como chegou aquele ponto, quase de loucura. Mas caiu na realidade e não sabia como se desculpar. Afirmou amar a sua irmã e não sabe o que lhe tinha acontecido. Ele não sabia, mas nós tínhamos a consciência do afastamento do obsessor pecaminoso. Até hoje a moça desconhece a realização do trabalho deste grupo espírita que atuou no anonimato.

No caso anterior, o espírito sabia estar desencarnado e tinha conhecimento de como manipular as energias da matéria. Não era ruim, apenas perdido, sem orientação e voltado para as banalidades de uma vida comum e devassa, e não tinha nenhuma ligação com a família na qual, vibratoriamente, ligou-se. Espíritos desse tipo, como também os espíritos familiares, são fáceis de serem encaminhados.

Encontrei-me com um amigo que estava desesperado: sua filha, com apenas cinco anos de idade, fumava três carteiras de cigarro, diariamente. Apenas conversando vi o espírito de uma moça, ao seu lado, sentada com as pernas cruzadas, aspirando ansiosamente a fumaça do cigarro. Comentei com o amigo e, pela descrição que fiz na ocasião, afirmou ser sua cunhada, desencarnada há uns seis meses. Nem precisou fazer sessão. Só conversando com o amigo, na frente do espírito, ele desligou-se. Tudo voltou ao normal e até hoje a menina, agora mulher feita, não fuma nenhum cigarro. Neste caso o espírito não tinha consciência de seu desencarne e o clima criado pela conversação, deu-lhe um choque, caindo na realidade de estar vivendo num mundo paralelo.

O desencarne dos familiares deve ser tratado, espiritualmente, com muito cuidado. O familiar é um espírito amigo, querido e estimado. Existe o culto à memória do desencarnado, que às vezes chega ao exagero. De princípio, para os familiares, o espírito é evoluído, inteligente, já ocupou sua cadeira no céu ao lado de Jesus e sua figura, jamais pode ser vista como a de um espírito perturbador. Mas, às vezes, ele o é. A passagem do espírito para o outro lado, nem sempre é compreendida pelo desencarnado. Custa, muitas vezes, entender que está morto. Como um sonho, às vezes estamos aqui, de repente lá, mudando de cenário e acontecendo uma porção de coisas num simples cochilo. O espírito desencarnado e ainda não consciente de seu estado vive esses momentos, pensando estar ainda encarnado. Irrita-se, pois não é visto nem entendido. Isto lhe causa um mal estar, transmitindo essa situação para os familiares.

Fomos solicitados para fazer um trabalho em uma casa, onde o chefe da família tinha desencarnado recentemente. A situação tornou-se perigosa. Para se ter uma idéia, se não fosse colocado, durante as refeições, o prato e talhares no lugar que ele habitualmente ocupava, a mesa era desmanchada, voando pratos, copos e talheres. Este estado do espírito, neste caso, trouxe muita complicação, porque, além do próprio fato, acontecia o fenômeno, onde, provavelmente, o ectoplasma retirado para provocar a força da entidade para poder manipular os objetos, podia trazer até mesmo doença física para alguém da casa. Felizmente, após o trabalho e feita a devida e corriqueira doutrinação, o espírito percebeu seu estado de desencarnado, deixando em paz seus familiares.

Os casos mais freqüentes de obsessão são sobre os alcoólatras e os drogados. Dentro do principio que o semelhante atrai o semelhante, os viciados no álcool e nas drogas, atraem os espíritos afins. E o álcool e a droga são consumidos para atender aos dois, tanto o encarnado como o desencarnado, colado em sua aura. Por isso os viciados são chamados de copo-vivo. E o interessante é que são protegidos pelos espíritos obsessores. Cuidam de sua saúde e segurança física, tal e qual, cuidamos dos copos que nos servem de recipiente à água que bebemos, até não servirem mais. Nessas ocasiões, seus corpos estão doentes e debilitados, além de suas cabeças estarem totalmente alteradas pelos excesso da bebida e da droga. Infelizmente, vemos esse quadro, com freqüência. É, talvez, o maior índice da obsessão.

Existem casos mais graves, com razões inexplicáveis. Estávamos no início de uma de nossas sessões, quando entrou um homem, carregando um rapaz. Outras pessoas o ajudavam. Ajustado na cadeira, tentei conversar, mas em troca, recebia apenas um olhar raivoso. O pai contou que o menino estava com quatorze anos e, quando tinha doze, ou seja, dois anos antes, era uma pessoa normal, aluno comum na escola e gostava de jogar futebol. Foi ficando arredio, quieto, deixou de estudar, dormia bastante, falava muito pouco. E essas coisas foram se agravando. Naquele momento, o rapaz não andava, não falava e demonstrava muita impaciência. Iniciamos uma série de passes. O menino não se mexia. Percebi estar seu espírito ausente e longe. Comecei a chamar pelo seu nome de batismo, e pedia que seu espírito voltasse ao corpo. O menino teve uma espécie de convulsão, jogou sua cabeça para trás na cadeira e olhou-me. Foi, de certa forma, uma atitude assustadora. Seus olhos revirados estavam totalmente brancos. Foi quando, com voz cavernosa, gritou:

- Não adianta, eu não sou ele.

- Você vai sair já deste corpo, em nome de Jesus Cristo. Você não tem o direito de prejudicar este rapaz, podendo levá-lo ao desencarne, fato que aumentará bastante seu carma. – falava rispidamente, enquanto todos os companheiros do grupo aplicavam-lhe passes.

Nós tínhamos fé. Não desistimos e insistíamos nos passes vibratórios, enquanto eu chamava de volta ao corpo o espírito do moço. Foi quando aconteceu. Ele relaxou na cadeira, olhou para todos nós, como se estivesse, e de fato estava, voltando de um transe. Animei-me, falando mansamente com o rapaz e perguntei-lhe o que acontecia com ele.

- Não sei, é um bicho feio que pula em cima de mim. – foi a lacônica, mas esclarecedora, resposta.

Fiz o rapaz acompanhar um Pai Nosso, chamamos as entidades para abençoá-lo e pedimos, com todo respeito e humildade, a proteção de Jesus para aquele nosso humilde e sofrido irmão. A verdade é que ele saiu andando com suas próprias pernas e, na saída, o João Luiz da Veiga, um dos baluarte do espiritismo e companheiro do grupo, prometeu presentear o rapaz com uma bola de futebol, por ocasião do Natal. Cumpriu a promessa, e o garoto jogou muito futebol com a bola dada pelo João Luiz. Ficou completamente curado. Este é um espírito diferente. A medida que os espíritos desta faixa- os trevosos, regridem, eles vão criando forma de animal. Praticamente perdem o raciocínio e, em conseqüência, o livre arbítrio. Este, simplesmente, aninhou-se na energia do rapaz, da qual se alimentava para seguir sua negra jornada. Existem muitos desses animais por aí. Não devemos temê-los, mas, sim, dominá-los e enviá-los à alta espiritualidade, que os encaminhará à compreensão e recuperação.

Tivemos um caso interessante. Em nosso grupo, na parte inicial dos trabalhos, colocávamos várias cadeiras e os médiuns, um na frente e outro atrás, aplicavam os passes energéticos nas pessoas. Durante um desses passes, um homem pareceu-me muito perturbado. Enquanto lhe aplicava o passe, cochichei ao seu ouvido:

- Vou arriscar e fazer-lhe uma pergunta. Meio sem jeito, completei dizendo-lhe que, se não tivesse acontecido, me perdoasse. Você matou um homem? - completei.

- O que? – respondeu, demonstrando indignação. Não matei ninguém. Levantou-se e foi embora.

- Sujou! Pensei.

O médium não deve se abater por erros no exercício de sua mediunidade. Continuei, normalmente, o meu trabalho. Surpreso, vi que o homem tinha voltado à fila. Dirigiu-se a mim e confessou ter matado um homem. Não lhe perguntei as razões, quem foi o assassinado, muito menos se outros sabiam do crime. Apenas o fiz sentar-se novamente e roguei fosse aquele espírito, ao seu lado, encaminhado e parasse de fazer aquele homem sofrer, fossem quais fossem suas razões. Foi um alívio. O homem agradeceu e passou algumas semanas tomando passes em nosso grupo, até que veio a mim e confessou o seu bem-estar, afirmando sentir-se um novo homem, agora pacífico e bem humorado. Este é o espírito vingativo: sabia ter sido morto por aquele homem e veio, em busca de vingança, aterrorizar sua vida.

Bandeira da Amizade