Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 6 - Sonho

No exercício das minhas atividades mediúnicas, era eu quem doutrinava os espíritos obsessores ou ainda não esclarecidos. Estava habituado a convencê-los de seus erros, e encaminhá-los ao mundo dos mensageiros do espaço que nos atendiam e acompanhavam.

Era um entusiasta dessa atividade e, por ter sensibilidade, percebia quando alguém estava acompanhado de um espírito, mas não podia aquilatar a sua qualidade espiritual. Mas eu sabia ser um espírito. Imediatamente, através do pensamento, mandava-o embora, dizendo ter que seguir seu caminho, e toda aquela falácia do kardecista aplicado, mas, às vezes, inconseqüente.

Divido, para meu consumo, o sonho em duas partes: o produzido pelas nossas impressões, aquele que vemos uma pilha e dias depois sonhamos com uma lanterna, e os encontros espirituais, os mais fortes, onde coisas nos são reveladas e entramos em contato com os espíritos e o mundo paralelo É difícil saber, e impossível explicar, como perceber a diferença entre eles. Felizmente, sei distinguir os meus. E foi em um deles que curei minha mania de afastar, imprudentemente, os espíritos dos outros. Tudo começou quando, sonhei ter morrido. Gritava aflito:

- Nossa, eu morri. Não vejo ninguém. Como vou fazer? –

Em volta de mim não havia luz. Era uma espécie de meio termo, ou seja, eu enxergava, mas no escuro. Senti-me totalmente desamparado. Foi quando me lembrei:

- Hoje é terça-feira, noite que o meu grupo de trabalhos espirituais está reunido. Vou lá conversar com eles e, com certeza, vão me encaminhar para o lugar certo, aquele que mereço. Pensei, cheio de vaidade, embora muito assustado.

Como o pensamento me dirigisse, estava na porta do centro espírita.

- O pessoal vai levar um susto, mas, graças a Deus, estou salvo.

Pessoas estavam entrando, e percebi serem espíritos. Não me lembro deles, mas não é o caso. A verdade é que, quando chegou minha vez, um homem alto, forte e de camisa, sem paletó, empurrou-me e disse:

- Vá embora. Você não pode entrar aqui. – mostrando determinação pela sua força e a cara fechada.

- Espera aí. Este é meu grupo. Eu tenho direito a entrar e falar com eles.

- Vá embora, já disse.- respondeu. A primeira parte do trabalho já acabou. Agora só vêm os guias – encerrou.

Não podia acreditar. Logo eu, um dedicado médium atuante daquele grupo. Eu tinha que contar para a Zezé, Manoel, João Luiz, Nega, Stasiak, a Leda e os outros meus companheiros, o momento difícil que meu espírito estava passando. Precisava de ajuda. Não era justo, afinal nunca me neguei a prestar auxílio a ninguém. Por que comigo? Lembrei-me. Por várias vezes, enxotei espíritos obsessores durante a sessão, por entender não ser aquele o momento da manifestação.

- Bem, o jeito é ir buscar socorro em outro lugar – falei comigo mesmo.

Fiz um pensamento forte, e, da mesma forma que parei na frente do centro, me vi junto com uma roda de pessoas, que conversavam trivialidades, animadamente. Senti-me bem. A luz, em meu redor, já estava mais clara. Senti que naquele grupo estranho eu poderia resolver meu problema e reencontrar meus guias e familiares desencarnados. Sabia não ser culpa deles, e sim meu estado de recém desencarnado, que impedia este momento. Eles não me viam, e exalavam uma energia amorosa, e de muita luz. Eu absorvia tudo aquilo e melhorava a todo instante. Mas, de repente, senti um corte naquele meu envolvimento. Olhei, um por um, e notei que um deles - da roda, mantinha o rosto fechado e não participava daquela gostosa sintonia dos seus companheiros. Ele olhava para onde eu estava. Fiquei em dúvida. Seria um médium vidente? Dirigi-me a ele.

- Você está me enxergando?

- Estou. E é bom você ir embora. – respondeu secamente.

- Ir embora? Eu preciso de ajuda. Você pode me ajudar – falei, determinado.

- Olha, seu malandro. Vá obsidiar outras pessoas. Aqui não tem nada para você. Vá embora, já disse –

Ao mesmo tempo que falava, saia de si uma energia muito forte. Não posso dizer ruim, mas me fazia sentir cada vez mais longe do grupo. Ele continuava firme em seu pensamento, e eu, cada vez mais, ia enfraquecendo.

- Por favor, meu irmão. Você está enganado, sobre mim. Não sou obsessor. Só quero ajuda. Por favor, me ajude – suplicava, em prantos.

Mas não adiantou. O homem era um médium forte, mas não preparado para casos como o meu. Não sabia distinguir o necessitado do obsessor. Antes de me revoltar, tive a consciência que eu fui igual. Fazia, exatamente como ele. Foi quando eu ouvi uma voz:

- Não adianta. Eles não vão te ajudar. Mas não fique preocupado. Venha comigo.

Voltei-me e vi um homem alegre, divertido, parecendo feliz da vida mesmo. Senti um alívio. Encontrara, felizmente, um espírito que ia me ajudar. Era da minha estatura, mais moço, bem vestido e deixava transparecer segurança.

- Que bom. Mas, onde vamos?

- Vamos dar umas voltas. E tomar uma bebida naquele bar. Depois vou te apresentar uns amigos. Nossa turma é grande e divertida.

Acedi a seu convite. Quando entramos no bar, o ambiente ficou carregado. Escuro. Ouvia gritos aflitos. Não enxergava direito. Começaram a me empurrar, de um lado para outro. Fiquei nervoso, quase em pânico gritei:

- Não quero ficar, vou embora.

Ouvia gargalhadas, choros e gritos. Já não via o homem que me acompanhava. Senti-me fraco, tendo a sensação que iria desmaiar. Foi quando ouvi uma voz forte mas serena, falando:

- Não ceda. Ore, e pense em Jesus.

Senti um alívio. Consegui me desprender do lugar. Fiquei relaxado e já não ouvia as gargalhadas e gritos, criando forças para pensar.

- Seja quem for, meu irmão. Obrigado! Jesus Cristo, socorra-me. Dê-me luz, Senhor. Orei, com muita força, pronunciando, emocionado, o Pai Nosso.

Mantinha os olhos fechados e me envolvi no que fazia. Quando aos poucos fui abrindo os olhos, deu para enxergar um lugar lindo, cheio de luz e serenidade. Não sei descrever, apenas sei que era assim. Procurei meu salvador, mas não o enxerguei. Foi quando o ouvi novamente falar:

- Que sirva de aprendizado o que hoje te aconteceu. Volte ao teu corpo, e lembre-se sempre o que ocorre com um espírito desencarnado e, quando você tiver a felicidade de ser útil, não perca a oportunidade de estender-lhe a mão, como eu fiz com você.

Acordei, sentei-me na cama aflito, levantei-me e fui para a sala, pensar no apavorante, mas esclarecedor sonho, aquele que modificou meu comportamento. Nunca mais deixei de atender os espíritos carentes, mesmo correndo o risco de ser um trevoso.

Bandeira da Amizade