Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 57 - Encerramento

Minha história acabou. Tenho que encerrar este livro, e não sei como fazê-lo.

Sinto-me como o eloqüente orador que não sabe como e quando deve encerrar seu discurso, muito embora esteja ciente dos ouvintes já estarem cansados e aborrecidos.

Aqueles que, pacientemente, chegaram até aqui, estão convidados para uma reflexão: a morte!

A morte é a libertação do espírito! Estou convencido disso pelas minhas convicções religiosas. Mas se ela é assim, por que nos causa tanto medo e qual a razão do nosso sofrimento, quando um ente querido desencarna? Por temer o desconhecido? Não acredito! Acho que é por amor à vida. Mas existem pessoas, onde eu me incluo, que amam a vida e não têm medo de morrer: são os que têm fé!

Tenho um estilo: enquanto penso, vou escrevendo, para corrigir depois. Vou desligar o computador e dormir. Quem sabe, amanhã, quando acordar, tenha uma inspiração .

Fiz bem em ter ido dormir. Tive um sonho lindo! Envolvido que estava até o parágrafo anterior, sonhei que tinha morrido. Foi assim:

Caminhava com alguém ao meu lado, numa estrada de chão de terra. Estava num lugarejo com casas humildes, mas lindas. Todas tinham uma área em frente, e à medida que íamos passando, as pessoas nos saudavam, alegres e sorridentes. Foi quando consegui ver meu acompanhante.

Era um homem alto, corpo forte, rosto comprido e queimado pelo sol, com vasto bigode preto, carregando ao seu lado um fogoso cavalo branco. Vestia bombachas, exibia um facão na cinta, tinha uma capa preta, levada lateralmente no ombro, e empunhava um laço de couro. Seu chapéu era preto, e tinha um lenço vermelho no pescoço. Ao perceber que eu o enxergava, mostrando um largo sorriso, explicou:

- Estamos na aruanda, na vila dos pretos-velhos.

Minha visão ficou mais clara. Um sol vermelho, atravessando os galhos das árvores, trazia uma luz repousante, e um úmido ar nos abençoava com uma brisa perfumada. Fiquei extasiado!

- João Boiadeiro. É você? Exclamei, eufórico.

- Vim cumprir o prometido. Trazer a liberdade que você sempre reclama não ter conhecido. Respondeu alegremente.

Lembrei-me do João Boiadeiro no terreiro. Vivia no sul do Brasil, era alegre e descontraído, mas não admitia ser desrespeitado, e quando isto acontecia, ficava violento e irritado. Contava passagens de sua vida, sempre ressaltando a liberdade, o amor pela natureza, o respeito aos animais e a fidelidade ao patrão Dizia: tenho patrão, mas quem manda em mim é o sol, a lua, a chuva, o vento, os campos e os rios. Costumava dizer que ninguém pode ser feliz sem a ter liberdade. Fazia trabalhos maravilhosos, tanto na umbanda como na quimbanda.

- Muito obrigado, João Boiadeiro. – agradeci.

Sentados num banco feito de tronco de árvore, vi três pessoas e um menino. Não conseguia enxergar direito, mas senti um amor muito grande por eles. Um deles se levantou e veio em nossa direção, e pude ver direito quem ele era: o Pai Maneco! Alto e forte, com os cabelos brancos e o rosto vincado. Não consegui controlar minha emoção. Ajoelhado, beijei suas mãos, quando percebi sua camisa azul clara, as calças brancas e dobradas na bainha.
- Meu protetor, mestre e amigo. Estou muito emocionado em poder falar consigo. Consegui balbuciar, enquanto as lágrimas corriam em minha face.

- Aqui te deixo com o teu protetor. Falou o Boiadeiro, desaparecendo imediatamente.

Os outros dois já tinham se levantado do banco, e os reconheci imediatamente. Ambos aparentavam avançada idade, mas o brilho dos seus olhos iluminaram minha alma. Um era o Pai Luiz de Xangô e o outro o Pai Joaquim de Angola. São meigos e demonstravam serem muito bondosos. O Pai Luiz tirava baforadas de seu cachimbo e o Pai Joaquim de Angola tinha entre os dedos um cigarro de palha. De mãos dadas com o Pai Maneco estava uma criança, também negra, com os cabelos raspados. Era o Joãozinho da Praia, a criança da linha de Cosme e Damião, que também veio me receber. Minha emoção aumentava. Eu estava realmente na aruanda, o céu dos espíritos da umbanda. Foi quando o Pai Maneco, percebendo o meu estado emocional, iniciou uma conversação.

- O João Boiadeiro te deu a liberdade, o Pai Joaquim e o Pai Luiz vão se encarregar de te fazer mais humilde. A mim compete de dar a conscientização. Vamos adiante.

Fomos subindo a ladeira de terra, sempre festejados por seus felizes e delicados moradores, até que ela terminou, onde começava linda campina. Ouvi uma música festiva. Em volta de uma imensa fogueira, vários ciganos cantavam e dançavam alegres.

- Esta festa é em tua homenagem. Esclareceu o Pai Maneco.

Fiquei sem entender, mas agradecido deixava transparecer minha surpresa. Estava encantado com a alegria do povo cigano. Procurava ansioso, o meu amigo Cigano Woisler. Não o encontrava dentre eles. Nós quatro ficamos no meio da dança e da música. Eles pararam de dançar, e os violinos silenciaram, juntamente com os violões e os pandeiros. Não estava entendendo nada, mas fiquei quieto. A roda dos ciganos foi abrindo e deu para deslumbrar, vindo do meio da campina, montado em um cavalo negro, sem rédeas nem selas, em apurado galope, com a cabeça e os dois braços para cima, com os cabelos grisalhos, esvoaçando, o competente chefe de tribo, o Cigano Woisler. Parando seu corcel, desmontou e parou na minha frente. Trajava roupas discretas, com um colete preto todo enfeitado.

- Meu amigo, que bom você estar aqui. Vou roubar um cavalo de alguém para podermos correr juntos nesta campina mágica. Exclamou, dando-me um forte abraço.

O Cigano Woisler gostava de contar estórias, principalmente relacionadas com roubos de cavalos, profissão que exercia com grande orgulho. Nasceu na Hungria, e por lá peregrinava, sempre fugindo de seus inimigos, os guardas dos reis, príncipes ou nobres. Dizia não entender porque era perseguido pela guarda real, uma vez que seu pai, seu avô e todos os seus ancestrais eram ladrões de cavalos. O Pai Maneco tratou de me tirar dali, embora contra a minha vontade e a do cigano. Enquanto caminhávamos, o Pai Maneco esclareceu:

- O Cigano foi a responsável pela harmonia da tua família. São especialistas em trazer a felicidade para vocês.

Eu não falava nada. Estava ainda muito embevecido com aquela situação. Já não sentia ter morrido, ao contrário, estava cada vez mais vivo e esperto. Nós andávamos sem cansar. Os lugares eram longe, mas a distância parecia curta, sem cansaço ou marca do tempo. Uma imensa mata estava à nossa frente. Era deslumbrante e misteriosa. Ficamos observando, todos calados. Via pequenas criaturas correrem de um lado para outro. Alguns eram esquisitos. Fiquei confuso. Pareciam serem pessoas anãs. Intrigado, perguntei ao Pai Maneco:

- São animais?

- São os elementais, os duendes, que habitam as matas. São seres que nunca tiveram uma encarnação terrena. Foram gerados pela força da Natureza. – explicou.

Vi dois índios. Claro, nem perguntei quem eram.

- O Caboclo da Cachoeira e o Caboclo Junco Verde! Exclamei, eufórico.

O Caboclo da Cachoeira já não mostrava o seu característico rosto sisudo e vincado. Sorriu e me abraçou, sem nada dizer.

Seu forte abraço elevou o meu espírito. O Caboclo da Cachoeira demonstra ter idade avançada, embora tenha um corpo esguio. É um legitimo representante da linha de Xangô. No terreiro, seu senso de justiça era dominante. Cumpria todo o ritual da Umbanda, rigorosamente, e era capaz de subir durante a gira, se não lhe dispensassem respeito. Era intransigente e embora aparentasse mau humor, tinha um coração imenso, capaz de se emocionar diante alguma tristeza dos seus filhos da terra. Certa vez uma pessoa sentou-se à sua frente. Sem nada perguntar, o Caboclo da Cachoeira foi contando sua vida:

- Eu era revoltado e não gostava dos meus semelhantes. Saí da tribo e fui viver sozinho. Minha casa ficava á margem de um bonito rio. A solidão foi minha companheira. Meus pensamentos giravam só pelas coisas que tinha deixado para trás. Meu amargo coração aumentava cada vez mais a mágoa que carregava. Descobri que ninguém pode viver sozinho. Quem se isola não consegue colher bons pensamentos. Terminando a história, olhou fixamente para o rapaz à sua frente e perguntou-lhe o que queria.

- Nada meu pai. Na verdade vinha lhe contar que ia sair da casa dos meus pais para viver sozinho...

Ainda abraçado com ele, consegui deixar escapar um cumprimento.

- Kaô Kabecille.

Não dava para cuidar de tudo ao mesmo tempo. Era demais para mim, tudo que me estava acontecendo. Ouvi uma voz atrás de mim:

- Okê Odê, pai-de-santo!

Claro, só podia ser o Caboclo Junco Verde. Corpo enorme, cabelo curto, se apresentava com idade madura. Era desajeitado mas tinha um humor que a todos contagiava. Quando descia no terreiro, a vibração do lugar ficava intensa. Era muito ligado com o Caboclo 7 Flechas e o Caboclo Tupinambá. Sabia, como poucos, fazer seus consulentes elevarem suas vibrações positivas. Por várias mensagens deixa claro ter vivido antes da invasão no Brasil, pois desconhecia o espelho. Vi seu cocar longo, marca dos chefes, e o saiote com a dominância da cor verde, de seu honroso pai Oxóssi.

- Salve meu Pai. O senhor veio me trazer a alegria.

- Sem a alegria, não existe o amor. Nós ainda vamos nos ver. Falou, demonstrando ir embora.

- Que pena. Não pude agradecer ainda a linda mensagem que deixou na terra: A Magia da Umbanda! Falei ao Pai Maneco.

Vi um outro índio sair da mata. O Caboclo Akuan. Foi o clímax da minha emoção. Eu sabia que ele viria. Moço, corpulento, com invejável físico, com cabelos longos, caídos sobre os ombros. Seu cocar era de penas brancas e vermelhas, trazendo em uma das mãos uma lança e no braço direito uma águia. Garbosamente parou na minha frente, fez sua águia voar, levantou os braços como todo poderoso guerreiro:

- Ogunhê! – gritou, fazendo ecoar por toda mata o cumprimento de Ogum, anunciando minha chegada.

Aquilo me abalou. Meu corpo tremia inteiro. Minha cabeça zoava e minhas pernas bambeavam. Foi quando me vi na beira de um profundo buraco. Já não era nítida a iluminação, e ninguém estava ao meu lado. Comecei a entrar em pânico. Será que depois de toda essa beleza que assisti, vou mergulhar no inferno? Antes que isso acontecesse, ouvi uma voz firme, emitindo um som forte e poderoso:

- Chega de sonhos! Volte à terra.

Não obedeci. Sou um ogum teimoso. Não iria obedecer quem não conheço. Recuperando meu estado nervoso, finquei os pés no chão, determinado a discutir e brigar com esse estranho.

- Antes quero ver você.

Alto e forte, vestindo uma camisa de seda branca, com as calças pretas, exibindo os sapatos finos, de verniz, mostrando belíssimos cabelos castanhos e cacheados, olhos azuis que mudava ás vezes para o acinzentados, ele apareceu, dizendo:

- Sou o teu equilíbrio, o Exu Tranca Ruas das Almas.

Não me dei por vencido.

- Exu Tranca Ruas das Almas, não quero mais voltar para a terra. Quero ficar aqui com vocês.

- Está esquecendo a tua família? Volte ao corpo e vá terminar a tua missão. Sentenciou.

Acordei. Que pena! Não queria voltar, pois estava gostando do mundo paralelo. Mas, por outro lado, estou feliz por estar vivo. Continuo contraditório: gostei de morrer e ao mesmo tempo de estar vivo. Mas não será isso que nos acontece? A vida não é uma passagem reparadora do espírito, que anima o corpo físico, buscando a liberdade pela morte?

O Jofre Cabral e Silva foi um advogado, empresário e presidente de vários clubes sociais. Apresentava sérias lesões em seu coração, a causa de seu desencarne em pleno campo de futebol, quando assistia um jogo de seu clube. Ao receber do seu médico orientações para cuidar da sua saúde, deixou escapar uma frase, que escolhi para encerrar minha história: "prefiro morrer vivo, do que viver morto!"

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