Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 56 - O Terreiro

O Waldomiro é um espiritualista, curioso e muito interessado em conhecer a umbanda. Crê em Deus e para ele todas as religiões são boas, mas a nenhuma é filiado ou adepto.

Talvez por isso, buscando ansiosamente a essência de todas as religiões, é uma pessoa muito interessante. esbanjando cultura religiosa, analisando inteligentemente todas elas. Procurou-me, pedindo:

- Fernando, gostaria muito, se você permitir, de conhecer o terreiro, mas não no dia de gira. Queria ter a liberdade para pedir explicações.

- Claro, terei imenso prazer em mostrar tudo.

- Pode ficar certo que respeitarei teus segredos.

- Não tenho segredos. Pai-de-santo quando afirma não poder revelar alguma coisa é porque não sabe responder. Se eu não souber, digo, apenas, que não conto, porque não sei. Tranqüilizei o simpático amigo.

No dia e hora combinada, entramos no terreiro.

- A primeira pergunta vai ser sobre aquela casinha pequena, lá na entrada... Disse, rindo.

Voltamos para a casinha que despertou tanta curiosidade.

- Aqui fica a segurança externa do terreiro, também chamada tronqueira, cuidada pelo exu guardião, no caso um falangeiro do Exu Tranca Ruas. Abri a porta, mostrando o que tinha dentro. Em cima de um toco de madeira, estava a imagem do Exu Tranca Ruas e ao seu lado, a da Pomba-gira Maria Padilha. E saí de lado, para ele olhar melhor.

Ele ficou observando e acho que sentiu alguma coisa, porque ficou muito calado, parecendo impressionado. Apontando para o chão, observei:

- Embaixo desta laje tem um buraco, onde está fincada a segurança feita pelo Exu Tranca Ruas das Almas, chefe da quimbanda em nosso terreiro. Expliquei.

E o que é essa segurança?

- Ele pôs vários elementos, como ponteiro, ferro, cobre e mais uma porção de metais, sal, carvão, ervas, bebidas e algumas coisas mais. É um campo de força e ainda, um ponto riscado, feito por ele.

- E as velas acesas. Ficam sempre aí?

- Toda semana, acendo para o exu uma vela branca, uma vermelhas e outra preta, e para a pomba-gira, uma vermelha, além de encher os copos de suas respectivas bebidas.

- É verdade que as pombas-gira são os espíritos das prostitutas?

- A pomba-gira é o exu feminino. Ao contrário do que muitos pensam, ela não é prostituta. É um orixá trabalhador, buscando sua evolução. Pode ser que algumas delas, em vida, tenham sido mundanas, mas hoje são espíritos evoluídos, ajudando os homens nos terreiros para, como o exu, ganhar sua evolução espiritual.

- Assisti uma gira de quimbanda e elas me pareceram escandalosas. Afirmou.

- Elas exploram esse lado do folclore, fazendo seus cavalos usarem roupas extravagantes, se pintando com exagero. Fumam cigarros sofisticados, algumas até com longas piteiras e não dispensam os perfumes e flores.

- Onde elas se encaixam com os exus?

- Todo exu tem a sua pomba-gira. Elas são auxiliares diretas dos exus. Em casos de amor, desespero e consertos familiares, os exus mandam elas trabalharem. A prova da submissão das pombas-giras aos exus é que elas não riscam ponto para trabalho. Quem risca o ponto para a pomba-gira é o exu. Fique certo, que elas são entidades maravilhosas e doces, embora, às vezes, fiquem embrabecidas. Sua força é indiscutível.

Parecendo satisfeito, entramos no terreiro. Ele curioso, olhava os atabaques, os quadros representando as entidades, espadas, machadinhas, arcos e flechas, que ornamentam as paredes. Dirigi-me ao meio do terreiro e, ajoelhado, bati o dedo três vezes onde tem uma estrela em granito, e saudei, curvando-me e batendo três palmas, claro, suavemente.

- Salve todos os Orixás da umbanda.

- Por quer você faz o cumprimento nessa estrela?

- É a segurança do terreiro. Como expliquei lá na Tronqueira, aqui estão enterradas as armas do Caboclo Akuan, o Orixá chefe espiritual da casa.

- E por que ele? Não podia ser outro?. Bombardeou.

Pelas minúcias das perguntas, imaginei uma longa tarde. Lembrei da Cris Mendes, uma médium do terreiro, filha de Ogum e que trabalha com o Caboclo Rompe Mato. Sentou-se à frente do Caboclo Akuan e explicou:

- Seo Akuan, meu filho, o Paulinho, é um admirador do Caboclo Rompe Mato. Ele perguntou, na sua inocência, quem mandava no Caboclo Rompe Mato. Respondi que era o senhor, o Caboclo Akuan. Ele perguntou-me, quem mandava no Caboclo Akuan. Eu não soube responder.

- Diga para ele que quem manda no Caboclo Akuan é o Rompe Mato, na casa dele. Respondeu, deixando uma belo ensinamento.

Voltei ao meu interlocutor.

- Por eu ser o dirigente material da casa, meu orixá, Ogum, é quem manda, no plano espiritual, através de meu pai e filho dele o Caboclo Akuan, por isso que tem seu assentamento embaixo desta estrela. Cada terreiro tem o orixá mandante, de acordo com seus assentamentos. Mesmo que eu saia do terreiro, a casa sempre será de Ogum, exceto se levantarem as armas do caboclo e forem substituídas por outras. É como na vida material: eu mando na minha casa, e você na sua.

- É por isso que nas giras, você chama primeiro a linha de Ogum?

- Sim, exatamente por isso. A linha de Ogum, vem firmar o terreiro para o trabalho subseqüente. Faz parte do ritual.

Pareceu satisfeito com a explicação. Parou em frente ao congá e ficou olhando todas as imagens.

- Quem cuida do congá? Qualquer um pode por uma imagem no altar?

- No congá, só o pai-de-santo pode por alguma coisa. Vejo às vezes velas, tocos de charuto e papeis com pedidos, depositados no congá. Está errado. Aqui só as coisas sagradas do terreiro é que podem ficar depositadas.

- Você disse ser filho de Ogum. E eu, como vou saber de quem sou filho? Perguntou, curioso.

- Existe um ritual para isso. No candomblé, jogam-se os búzios, na umbanda jogamos o obi ou acendemos velas. Pode também ser feito com uma cebola cortada em quatro pedaços. Venha uma noite de trabalho e jogarei para você, muito embora todo teu jeito seja de Xangô. Falei, querendo adivinhar.

Não devia ter falado. Despertei sua curiosidade.

- Como jeito, são diferentes? Conte-me.

- Cada um tem uma influência muito grande de seu orixá. Os orixás agem diretamente na essência e comportamento de cada um. Até na escolha das tarefas, eles recebem influência. Nosso secretário é filho de Oxalá e o Tesoureiro de Xangô. Expliquei, sorrindo.

- Como assim?.

- Se você soubesse os característicos de cada um, ia entender. Respondi, laconicamente.

- Explique tudo, você prometeu. Cobrou.

- Está certo, vou falar, pegue este caderno e tome nota. Vou dizer, um por um, depois não se queixe.

- Venha, sente aqui e fale. Estou gravando desde o começo. Disse, mostrando um pequeno gravador.

Achei graça, sentei-me e comecei a falar:

- O filho de Oxalá é uma pessoa normalmente tranqüila, de andar sereno, sem afobação, com tendência ao sofrimento, quando o busca. Gosta de transmitir seu gênio calmo, quer as coisas sem demonstrar, atingindo seus objetivos de forma bem natural. É teimoso. Na teimosia não gosta de impor suas idéias, mas não cede em seu ponto de vista. De todos os Orixás, o filho de Oxalá talvez seja o mais organizado, no dia-a-dia, nos escritórios e na lida com papéis.

- Agora entendo a história do secretário. Interrompeu.

Retomando a palavra continuei:

- Não é líder, mas não se submete facilmente à liderança de outro, ou seja, não manda e não gosta de ser mandado. Não é agressivo e quando agredido prefere demostrar superioridade. Tem um tendência muito forte para a solidão, buscando, pelo isolamento, um encontro com a harmonia universal.

Para que o filho de Oxalá tenha uma vida melhor, deve procurar despertar em seu interior a alegria pelas coisas que o cerca e tentar deter a sua natural teimosia.

Oxalá é o Orixá maior e por isso mesmo não atua diretamente em elementos do planeta, fazendo isso por intermédio dos outros Orixás.

- Explique melhor.

- Ogum atua no ferro, Oxóssi na mata, Xangô na pedreira, Iemanjá no mar, Oxum nas águas doce e cachoeiras, e Iansã no raio. Oxalá atua em todos, através dos seis orixás. – expliquei.

O Waldomiro ficou em silêncio, demonstrando muito interesse nas explicações. Continuei:

Ogum é o Orixá da guerra, da demanda e da luta. Seu filho carrega em seu gênio esses característicos. É uma pessoa de tipo esguio e procura sempre se manter bem fisicamente. Adora o esporte e está sempre agitado, em movimento. A sua impaciência é tão marcante que não gosta de esperar.

- Então, é por isso que ouvi falar que os oguns não ficam parados no terreiro. Comentou.

Continuei:
- Sim, é verdade. Ele é afoito. Tem decisões precipitadas. Inicia tudo sem se preocupar como vai terminar e nem quando. Está sempre em busca do que é considerado impossível. Ama o desafio. Não recusa a luta e quanto maior o obstáculo mais desperta a garra para ultrapassá-lo. Como os soldados que conquistavam cidades e depois a largavam para seguir em novas conquistas, os filhos de Ogum perseguem tenazmente um objetivo: quando o atingem, imediatamente o largam e partem em procura de outro. É insaciável em suas próprias conquistas.

Uma marca muito forte de seu Orixá, é tornar-se violento repentinamente. Seu gênio é muito forte. Não admite a injustiça e costuma proteger os mais fracos, assumindo integralmente a situação daquele que quer proteger. Leal e correto, é um líder. Sabe mandar sem nenhum constrangimento e ao mesmo tempo sabe ser mandado, desde que não seja desrespeitado. Normalmente o filho de Ogum é relaxado com seu cuidado pessoal. Adapta-se facilmente em qualquer lugar. Come para viver, não fazendo questão da qualidade ou paladar da comida. Por ser Ogum o Orixá do Ferro e do Fogo seu filho gosta muito de armas, facas, espadas e das coisas feitas em ferro ou latão. É franco, muitas vezes até com assustadora agressividade. Não faz rodeio para dizer as coisas. Não admite a fraqueza, falsidade e a falta de garra. O “difícil” é a sua maior tentação.

Nenhum filho de Ogum nasce equilibrado. Seu temperamento difícil e rebelde o torna, desde a infância, quase um desajustado.

- Espere aí. Explique melhor essa parte. Me parece muito forte. Observou.

- Isso é um aviso aos pais. Muitas crianças às vezes são levadas aos psicanalistas por mostrarem um gênio difícil de lidar. Brigam e enfrentam os pais sem nenhum medo. Se for um filho de Ogum, os pais devem ter paciência, pois quanto mais provocados, mais eles teimam. Esta frase é para chocar mesmo. Falei, lembrando das minhas indignações na infância.

- Pela tua explicação, muitos problemas seriam evitados com os jovens, se houvesse essa conscientização. Observou.

- É verdade. Como os filhos de Ogum não dependem de ninguém para vencer suas dificuldades, com o crescimento vão se libertando e se acomodando às suas necessidades. Quando eles conseguem equilibrar seu gênio impulsivo, a vida lhes fica bem mais fácil. Se conseguissem esperar ao menos vinte quatro horas para tomar qualquer decisão, evitariam muitos revezes, muito embora, por mais incrível que pareça, sejam calculistas e estrategistas.

Contar até dez, antes de deixarem explodir sua zanga, também lhes evitaria muitos remorsos. Seu maior defeito é o gênio impulsivo e sua maior qualidade é que tem tudo para ser um vencedor.

Oxóssi age na Natureza, especificamente nas matas e no reino animal. É o conhecedor das ervas e o grande curador. É a essência da nossa vida.

Seu filho tem um tipo calmo, amoroso, encantador, preocupado com todos os problemas. Um grande conselheiro pelo seu gênio alegre, muito embora com forte tendência à solidão. Incapaz de negar qualquer ajuda a alguém, sabe, como poucos, organizar o caminho para as soluções complicadas. Com respeito à sua própria organização familiar, é muito apegado às suas coisas e à sua família, à qual dedica atenção total no sentido de provê-la e encaminhá-la. Diante das dificuldades próprias é muito hesitante, mas acaba vencendo, sustentado pelo seu espírito alegre e otimista. É carente. Não assume os problemas dos outros, mas fica lado a lado ajudando-os. Ama a Liberdade e a Natureza. O mato, as águas, os bichos , as estrelas, o sol e a lua, são a bússola de sua vida. Não discute a fé. Acredita e é fiel seguidor da religião que escolheu. Não é ciumento e muito menos rancoroso. Quando atacado custa revidar. Quando o faz se torna perigoso. É, neste particular, ladino como os índios. Pisa macio, mas é certeiro. Tem um gosto refinado. Gosta das coisas boas, veste-se bem e cuidadosamente.

O filho de Oxóssi é talvez o mais equilibrado. Para que sua vida melhore, deve despertar aquele gigante que habita sua essência, o que o tornaria mais disposto a encarar as suas próprias dificuldades.

Xangô, o Deus da Justiça, Senhor das pedreiras, exerce uma influência muito forte em seu filho. Todos os Orixás, evidentemente, são justos, e transmitem esta característica aos seus filhos. Entretanto, em Xangô, a Justiça deixa de ser uma virtude, para passar a ser uma obsessão, o que faz de seu filho um sofredor, principalmente porque o parâmetro da Justiça é o seu julgamento e não o da Justiça Divina, quase sempre diferente do nosso, muito terra. Esta análise é muito importante.

- Explique melhor.

Contei o caso de uma moça que, num acidente, atropelou um homem, totalmente embriagado, tirando-lhe a vida. Apesar da vítima ter sido a única culpada, sua família entrou na justiça com uma ação de indenização, provocando uma crise emocional na moça. Ela não admitia, pelo senso da justiça, que sua inocência fosse questionada. Procurada pelo advogado da família da vítima para um acordo, recusou-se a sequer conversar.

- Sou inocente e a justiça vai provar. Dizia, confiante.

O seu marido queria fazer o acordo, para tranqüilizar sua esposa, no que ela não concordou. Queria, independente do valor da causa, provar sua inocência. Ela foi ganhadora na pendenga judicial. Feliz, contou-me a novidade, no que lhe respondi:

- Que bom ver você outra vez feliz. Mas correu um risco enorme.

- Como assim?

- Você trocou a justiça de teu pai Xangô, pela do homem. No julgamento você não estava sendo julgada por ele, e sim por um juiz da terra, passível de erros. E se ele errasse? Você iria culpar Xangô?

O filho de Xangô apresenta um tipo firme, enérgico, seguro e absolutamente austero. Sua fisionomia, mesmo a jovem, apresenta uma velhice precoce, sem lhe tirar, em absoluto, a beleza ou a alegria. Tem comportamento medido. É incapaz de dar um passo maior que a perna e todas as suas atitudes e resoluções baseiam-se na segurança e chão firme que gosta de pisar. É tímido no contato mas assume facilmente o poder do mando. É eterno conselheiro, e não gosta de ser contrariado, podendo facilmente sair da serenidade para a violência, mas tudo medido, calculado e esquematizado. Acalma-se com a mesma facilidade quando sua opinião é aceita. Não guarda rancor. A discrição faz de seus vestuários um modelo tradicional.

Quando o filho de Xangô consegue equilibrar o seu senso de Justiça, transferindo o seu próprio julgamento para o Julgamento Divino, cuja sentença não nos é permitido conhecer, torna-se uma pessoa admirável. O medo de cometer injustiças muitas vezes retarda suas decisões, o que, ao contrário de prejudicá-lo, só lhe traz benefícios. O grande defeito dele é julgar os outros. Se aprender a dominar esta característica, torna-se um legítimo representante do Homem Velho, Senhor da Justiça, Rei da Pedreira. Por falar em pedreira, adora colecionar pedras.

Iemanjá, a Senhora do Mar, tem grande força, com indiscutível domínio no gênio e personalidade de seu filho. Pelo fato de Iemanjá representar a Criação, sua filha normalmente tem um tipo muito maternal. Aquela que transmite a todos a bondade, confiança, grande conselheira. É mãe. Sempre tem os braços abertos para acolher junto de si todos aqueles que a procuram. A porta de sua casa sempre está aberta para todos, e gosta de tutelar pessoas. Tipo a grande mãe. Aquela mulher amorosa que sempre junta os filhos dos outros com os seus. O homem filho de Iemanjá carrega o mesmo temperamento: é o protetor. Cuida de seus tutelados com muito amor. Geralmente é calmo e tranqüilo, exceto quando se sente ameaçado na perda de seus filhos, porque não divide isto com ninguém. É sempre discreto e de muito bom gosto. Veste-se com capricho. É franco e não admite a mentira. Normalmente fica zangado quando ofendido e o que tem como ajuntó (o segundo santo masculino) o orixá Ogum, torna-se muito agressivo e radical. Diferente é quando o ajuntó é Oxóssi. Aí sim, é pessoa calma, tranqüila, e sempre reage com muita tolerância. O maior defeito do filho de Iemanjá é o ciúme. É extremamente ciumento com tudo que é seu, principalmente das coisas que estão sob sua guarda.

- O que é ajuntó?

A força de Iemanjá, nas incorporações, são as ondinas. Daí não ter um pai-de-cabeça, que, no caso, pertence a linha seguinte que influencia sua personalidade. Geralmente, um caboclo de Ogum ou de Oxóssi, dado que Xangô tem ligação íntima com a linha da Iansã. Expliquei, detalhadamente.

O filho ou filha de Oxum, a Rainha da Água doce, dona dos rios e das cachoeiras, carrega todo o tipo de Iemanjá. A maternidade é sua grande força, tanto que quando uma mulher tem dificuldade para engravidar, é à Oxum que se pede ajuda (pelo Amalá). A diferença entre Iemanjá e Oxum é a vaidade. Filho de Oxum ama espelhos (a figura de Oxum carrega um espelho na mão), jóias caras, ouro, é impecável no trajar e não se exibe publicamente sem primeiro cuidar da vestimenta. A mulher trata com zelo o seu cabelo e não descuida da pintura. Normalmente tem uma facilidade muito grande para o choro. É muito sensível a qualquer emoção. Talvez ninguém tenha sido tão feliz para definir a filha de Oxum como o pesquisador da religião africana, o francês Pierre Verger, que escreveu: ”o arquétipo de Oxum é das mulheres graciosas e elegantes, com paixão pelas jóias, perfumes e vestimentas caras. Das mulheres que são símbolo do charme e da beleza. Voluptuosas e sensuais, porém mais reservadas que as de Iansã. Elas evitam chocar a opinião pública, à qual dão muita importância. Sob sua aparência graciosa e sedutora, escondem uma vontade muito forte e um grande desejo de ascensão social.” Seu maior defeito é o ciúme.

Iansã, a Senhora dos Ventos e das Tempestades, a Deusa Guerreira. Seu filho é conhecido por seu temperamento explosivo. Está sempre chamando a atenção por ser inquieto e extrovertido. Sempre a sua palavra é que vale e gosta de impor aos outros a sua vontade. Não admite ser contrariado, pouco importando se tem ou não razão, pois não gosta de dialogar. Em estado normal é muito alegre e decidido. Questionado torna-se violento, partindo para a agressão, com berros, gritos e choro. Tem um prazer enorme em contrariar todo tipo de preconceito. Passa por cima de tudo que está fazendo na vida, quando fica tentado por uma aventura. Em seus gestos demonstra o momento que está passando, não conseguindo disfarçar a alegria ou a tristeza. Não tem medo de nada. Enfrenta qualquer situação de peito aberto. Ciumento, demonstra um certo egoísmo porque não se importa com que os outros sofram pelo seu gênio reconhecidamente mal-humorado. É leal e objetivo. Sua grande qualidade, a garra, e seu grande defeito, a impensada franqueza, o que lhe prejudica o convívio social. Por ser tão marcante seu gênio, se este fosse controlado, o que não é difícil, seria pessoa muito mais feliz e querida.

Encerrando as explicações, perguntei:

- Cansou-se de ouvir?

- Não, claro que não. Gostei muito, vou passar a observar as pessoas para conferir. Achei interessante a descrição das filhas de Oxum. São assim mesmo?

- Vou te contar uma história. Estávamos reunidos num grupo, e tentei dar as diferenças dos orixás. Exemplifiquei duas pessoas brigando. Se passar um filho de Oxalá, ele vai orar, pedindo a Deus que acabe aquela briga. Um filho de Xangô vai ficar indignado, querendo saber qual dos dois está com a razão, e por ele vai torcer para que seja o vencedor. Um filho de Ogum, ou passa direto e não olha ou entra na briga, do lado do baixinho que está apanhando. Um filho de Oxossi, vai parar, senta, fica assistindo a briga, achando graça. E parei, quando fui interpelado por uma senhora, por coincidência, uma filha de Oxum.

- E o povo das águas. Como iriam se comportar?

Meio sem jeito, falei:

- Não sei. Não pensei.

O Fernando Cecchetti, fazendo parte da roda, pediu licença para terminar a história, no que concordei. Tomando a palavra, continuou:

- Se for uma filha de Iemanjá, vai chamar os dois, encostar a cabeça em seu peito, vai alisá-los, acalmá-los, como uma mãe, e eles acabam fazendo as pazes. Se for uma filha de Iansã, vai brigar com os dois. E parou, como se tivesse terminado, no que foi interpelado:

- E se for filha de Oxum. O que faria?

- Nada. Eles estavam brigando por causa dela. Encerrou com muita graça, arrancando gostosas risadas do grupo.

O Waldomiro também achou graça, mas perguntou:

- Mas por que você disse eu pareço filho de Xangô?

- Os filhos de Xangô são detalhistas, o que você parece ser.

- É. Sou mesmo. Concordou.

- Vou te mostrar a Casa dos Exus e o Roncó.

- Casa dos Exus e Roncó. Pode explicar? .

- Sim, venha comigo. Aqui fica a Casa dos Exus. É o lugar que cultuamos as imagens dos exus e pombas-gira, onde deixamos os pontos firmados, quando eles pedem, e alimentamos a segurança para os dia de trabalho. Quando entrarmos, bata três vezes, como fiz lá na estrela.

Entramos e ele ficou olhando. Não se conteve e falou:

- As imagens são feias, mas a vibração é muito boa.

- É. Faz parte do folclore. Estamos habituados dessa forma. Qualquer modificação, iria tirar nosso referencial.

- Quando sair, venha de costas. É um gesto de respeito.

Entramos no Roncó. Ele ficou maravilhado, tanto que exclamou:

- Não estou entendo nada, mas que lugar de energia forte.

Nosso roncó tem muitos alguidares, pela quantidade de médiuns. Mais de trezentos. Eles são colocados em prateleiras, com o nome dos médiuns escrito na frente, com uma vela de sete dias, água, bebida e ervas do orixá dentro do alguidar. Fica iluminado, tornando-o muito bonito.

- Aqui é o nosso lugar sagrado. Só eu e a hierarquia podemos entrar, exceto os convidados. Minhas coisas ficam aqui. Quando preciso de axé, venho aqui. Semanalmente alimento o meu alguidar e as ervas que usamos nos trabalhos. Cada alguidar de barro pertence a um médium da corrente. Ele é alimentado, criando um campo de força, que é usado pela entidade protetora de cada um, em benefício do próprio médium.

- Mas como você faz para que eles recebam os alguidares? Todos têm?

- Só os que já fizeram o Amaci.

- O que é o Amaci?

- Amaci é a lavagem do chacra coronário de cada um. É a abertura de sua espiritualidade e a entrada dele na umbanda. É feito durante o ritual do Amaci. O médium traz um alguidar, vela e a bebida do orixá. O Caboclo Akuan lava a cabeça dele, primeiro com as ervas por mim preparadas, e depois com a bebida do orixá. Sua cabeça é coberta com um pano, que chamamos pano de cabeça, e é levado para o roncó, conforme você está vendo.

- Existem outros rituais, na umbanda?.

- Claro. Entre outros tem o batizado e o casamento.

- A umbanda faz casamento?

- Faz e é muito bonito. São parecidos, tanto batizado como casamento, com os da igreja católica.

- Gostaria de fazer uma pergunta que sempre me intrigou, e não têm nada a ver com este momento. Mas creio ser uma boa oportunidade. É sobre as benzedeiras. Solicitou, na expectativa de minha reação.

O que você quer saber?

- Vale a pena consultá-las?

- Tenho o maior respeito pelas benzedeiras. São médiuns de extraordinária potencialidade, mas não seguiram uma linha de trabalho em grupo. Eu mesmo posso testemunhar.

Quando minha filha era bebê, costumava jogá-la para cima, à guisa de brincadeira e, também, para ver o susto que sempre levava. Coisa de pai novo, sem medir as conseqüências de seus atos. Surgiu um vermelhão em seu rosto, principalmente atrás das orelhas, que estava infeccionando. Os médicos não conseguiam resolver. Levamos, minha mulher e eu, à uma benzedeira. Ela, enquanto rezava, derrubava cera de uma vela acesa dentro da água num copo. Ficou concentrada e perguntou:

- Quem está jogando a menina para o ar?

Envergonhado, confessei fazer isso.

- Esta é a causa. Falou, secamente.

Apagou a vela e encerrou. Em três dias, ela ficou completamente curada.
- Quando eu torcia o tornozelo, era uma benzedeira que me curava. Continuei. E existe um caso muito interessante. Uma criança estava doente, pálida, e não se desenvolvia. A mãe consultou uma benzedeira. Ela fez suas rezas e diagnosticou:

- A menina está com uma cobra dentro de seu corpo. Dê chá de semente de abóbora, durante sete dias.

- O que significava? Indagou o curioso amigo.

- A semente de abóbora é vermífugo. E a cobra devia ser uma lombriga.

O Waldomiro ficou pensativo e não fez mais perguntas.

- Porque os santos da igreja católica são cultuados na umbanda?

- Era proibido aos escravos africanos o culto à sua religião, o candomblé, sendo-lhes permitido, apenas, a prática do catolicismo. Eles, de forma esperta, construíam os altares, pondo em cima as imagens da Igreja, e embaixo, escondido atrás dos panos, as comidas, ou Amalás, aos seus Orixás. Para Oxalá, escolheram Jesus Cristo; para Ogum, São Jorge; Iemanjá, tinha a imagem de Nossa Senhora; Oxossi, S. Sebastião; Xangô, S. Jerônimo; Oxum, representada por N.S. da Conceição, e Iansã, por Santa Barbara. Foi assim que houve o sincretismo das religiões católica e afro-brasileira.

- Então, umbanda e candomblé são iguais?

- Candomblé é uma religião, e umbanda é outra. Alguma coisa a umbanda trouxe do candomblé, principalmente os Orixás, e mesmo assim, os sete cultuados e mais Omulum. No candomblé os orixás são mais numerosos. Mas não entendo de candomblé, por isso não sei explicar. Candomblé é uma religião africana e a umbanda é autenticamente brasileira. Completei.

O Waldomiro se deu por satisfeito com o passeio pelo terreiro e com as explicações.

Bandeira da Amizade