Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 55 - O Monte dos drogados

Em minha casa ouvia pacientemente um jovem extravasar todos os seus recalques. Na sua opinião o seu pai era o culpado pela sua vida desastrada.

Reclamava deixando transbordar revolta.

- Não gosto dele. Somos diferentes, e ele não me entende.

Eu observava o jovem. Seu nome era Lucas, o mesmo do apóstolo. Era corpulento, a sua tez morena e os seus cabelos eram longos e caídos sobre os ombros. Uma camiseta justa e sem mangas deixavam à mostra seus braços fortes onde se via uma enorme tatuagem de um dragão. Nariz bem feito, com uma enorme boca e dentes corretos. As orelhas estavam cobertas pelos cabelos, mas quando os alisava, dava para ver dois brincos prateados. Usava uma calça jeans e uma bota marrom. Ele estava destoando da minha fina poltrona clássica. Sua expressão irradiava ódio, mantendo sempre as sobrancelhas cerradas.

Estava procurando argumentos para sensibilizá-lo. Lembrei que fiquei órfão, com onze anos.

- Você não pode imaginar o que é ser criado sem um pai. O meu morreu quando era criança, e até hoje amargo não ter tido um. Bom ou ruim, ele está ao teu lado. Aproveite essa benção, Lucas.

- Não quero que ele morra, mas se isso acontecer não vai me fazer nenhuma falta. Protestou.

Como os filhos são injustos. Ao pai cabe todas as tarefas difíceis. É ele quem educa o filho, o protege e provém, além mil e tantas outras tarefas de sua responsabilidade. Continuei paciente. Perguntei:

- Quantos anos você tem?

- Vinte e três. Respondeu secamente.

Menino ele não era mais. Com essa idade, eu já tinha dois filhos e mantinha a família à custa de meu trabalho.

- Você trabalha?

- Não, só estudo.

- Quem paga os teus estudos?

- Meu pai.

- Você já repetiu ano da escola?

- Duas vezes. Mas por que você pergunta?

Não dei oportunidade para ele refletir. Engatei outra pergunta:

- Você mora sozinho?

- Não, moro com meus pais.

- Eu não conheço teu pai. Como ele é? Perguntei para descontrair.

- Toma o café da manha de gravata, não gosta de musica e briga comigo sempre que pode. Respondeu com a revolta inicial.

Sempre gostei de conversar com os jovens mostrando a máxima sinceridade.

- Na verdade, não sei o que você quer de mim. Como posso ajudar você?

- Eu acho que meu pai está perturbado, por isso estou aqui. Estou pedindo para você falar com os espíritos para ver se eles podem resolver esse problema.

Não sei até que ponto entendo os jovens. O Lucas me confundiu. Não gostava do pai, era um péssimo estudante e jogava fora o dinheiro dele , vivia da mesada, comia e dormia na casa dele. E ainda reclamava? Do que? Ele era um néscio desajustado e ingrato. Tem momentos que corremos o risco de sermos injustos, mas eu já estava do lado do injustiçado pai. Refreei esse sentimento por ter sido procurado pelo Lucas como pai-de-santo. E uma das tarefas do dirigente espiritual é ajudar os outros sem julgamentos. Agi dessa forma. Falei delicada e paternalmente:

- Eu espero que Xangô te faça mais justo. Você quer que teu pai te aceite do jeito que você se veste e pensa, mas ao mesmo tempo não o aceita como ele é. Vocês são gerações diferentes, cada um vivendo o seu mundo, e o respeito mútuo deveria prevalecer. Se é ajuda espiritual que você está buscando preciso que você vá no terreiro falar com a entidade.

Minhas palavras surtirem efeito. O Lucas ficou calado e por alguns momentos pensativo, o que me deixou satisfeito. Ajeitei para ele uma consulta com o Exu Tranca Ruas das Almas. Orientei bem como ele deveria falar com a entidade. Já sentado diante do poderoso exu ele começou a explicar:

- Exu, eu tenho um problema...

O espírito interrompeu. Falou no seu estilo:

- Conte-me as besteiras que você fez.

alar com o Exu Tranca Ruas das Almas não é fácil. Sua marcante presença faz dos consulentes presas fáceis.

- Não entendi. Balbuciou o Lucas.

- Você pode enganar os teus pais, meu cavalo e teus amigos, mas a mim não. Você é um idiota que fuma maconha, come cogumelo feito um animal e se droga com freqüência. Essa porcaria da tua cabeça já esta quase destruída. Você não gosta do teu pai porque ele sabe disso e não te dá dinheiro para você se corromper.

O Lucas arregalou os olhos. Foi descoberto. Sem nada dizer, ficou ouvindo o exu falar. Ouviu uma ameaça assustadora:

- Se não interromper esse vicio imediatamente quando você desencarnar poderá ser atraído para o monte dos drogados.

O Lucas ficou sensibilizado. Em prantos concordava com todas as revelações do exu. Seu estado geral exigia socorro. O exu determinou:

- Vá para o meio do terreiro que vou fazer uma série de trabalhos, começando hoje.

O Lucas já estava sentado diante de várias velas, das bebidas, do ponto riscado e de outros elementos como ponteiro, imã e fio de cobre. Algumas entidades incorporadas em seus médiuns trabalhavam com o Lucas, enquanto o exu Tranca Ruas das Almas, sentado em seu toco, explicava aos cambones o que era o monte dos drogados:

- A droga e o álcool, provocam lesões cerebrais que se espalham pelo perispírito, criando larvas circulantes dentro da aura do viciado. Quando desencarnam, obedecendo um processo natural, todas essas máculas retornam ao lugar de onde saíram, ou seja, no cérebro da pessoa. Obedecendo o princípio que não existe retrocesso espiritual, vocês imaginam que o espírito do desencarnado permanece igual ao estado que mantinha quando ainda encarnado. Puro engano, pois quando se concentram elas aumentam a lesão cerebral, fazendo o espírito perder seu livre arbítrio, e muitos deles ficam inertes, amontoados em um tipo de vala. Apesar da assistência e cuidados dos espíritos obreiros preparados para atenderem esse tipo de doença podem ficar animalizados durante um estagio que na medição do tempo da terra pode durar centenas de anos. O lugar é escuro e, mesmo eu, não gosto de ir lá. Explicou pacientemente o exu.

Depois de encerrado o trabalho eu relatava às pessoas que ouviram a explicação do exu sobre as visões que eu como médium gravei sobre o que o exu chamou de o monte dos drogados.

- Vocês devem ter a lembrança daquelas fotografias divulgadas após a guerra dos campo de concentração dos nazistas. Os corpos eram jogados em valas, amontoando-se uns sobre os outros, formando um quadro inesquecível da maldade humana. O que eu vi, enquanto o exu falava, era parecido com isso com algumas diferenças. Os corpos estavam deformados, esqueléticos e se moviam como vermes Suas mãos estavam sempre buscando algo como se fosse um socorro para sair daquele dantesco inferno e, tudo isso, sob uma tênue luz avermelhada.

O Lucas melhorou, mas não sarou. Sua incapacidade mental o obrigou a abandonar os estudos, e sua idiotice o tornou incapaz para o trabalho. A dependência das drogas foi mais forte que sua vontade. Hoje se droga para suavizar a necessidade. O relacionamento com seu pai foi normalizado, principalmente porque ele é hoje, como foi outrora, o seu sustentáculo, quer provendo suas necessidades, quer dando – como todo pai faz, o seu amor. E tudo isso com terno, gravata e trabalho.

Quando tenho oportunidade aconselho os jovens:

- Procurem saber o que é e porque existe no espaço o monte dos drogados. Quem pode ensiná-los? Ora, falem com o melhor amigo de vocês: seus pais.

Bandeira da Amizade