Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 54 - O Fonseca

Como sempre faço, antes de dar a abertura na gira, passo os olhos pela assistência para ver se está tudo em ordem. No meio dela, destacava-se o corpanzil do Fonseca.

Homem alto, bem apessoado, falante e inteligente, daqueles que faz uma pergunta levantando meia sobrancelha moldurando um olhar firme e penetrante, deixando um sorriso maroto de canto da boca como se fosse o deleite do guerreiro vitorioso. Apesar disso, ele é uma pessoa bastante inteligente e agradável. Como sou daqueles que prefere correr o risco de perder um amigo em troca de uma boa piada, quis deixá-lo constrangido, como lição à sua petulância e a boba satisfação. Parando à sua frente diante de toda a corrente e das prováveis trezentas pessoas da assistência, o saudei:

- Temos o prazer de hoje ter entre nós um grande espiritualista, entendido da linguagem esotérica e dos segredos da magia.

Apontando para sua saliente figura, indiquei a todos:

- O Fonseca!

Ele não tinha jeito. Ao invés de demonstrar constrangimento, soltou um largo sorriso, levantou-se e saudou a todos os presentes, a ponto de arrancar aplausos da corrente. Voltei-me para o congá decepcionado com a minha fracassada tentativa e dei início aos trabalhos da noite, uma engira de quimbanda.

Chamei a entidade chefe o poderoso Exu Tranca Ruas das Almas, que incorporou no Pai Luiz de Ogum, o pai-de-santo que me preparou dentro da lei da umbanda para exercer esse honroso grau dentro da nossa religião.

Aproveitando-se de um momento que o Exu Tranca Ruas das Almas levantou de seu toco aproximou-se dele o José Maria, um médium de nossa corrente que pesava cento e quarenta quilos e, mesmo dono desse corpanzil, ficava por mais de quatro horas dançando e cantando, além de incorporar os espíritos. Talvez por isso sua dor na coluna se agravava. Queixou-se:

- Exu Tranca Ruas, será que o senhor poderia dar um jeito em minha coluna? Ela dói muito.

O Luiz é um homem magro, cabeludo e vasto bigode. Deveria pesar naquela época uns sessenta quilos. Com os olhos fixos no José Maria, com os braços cruzados e uma cigarrilha entre os dedos, ficou por uns instantes olhando-o fixamente deixando sem jeito o médium. Puxou-o para perto de si, deu-lhe as costas e, entrelaçando os magros braços com o gordo José Maria, inclinou-se, levantou-o, costas com costas, e saiu com ele andando pelo terreiro.

Eu imagino que se o Pai Luiz ficar na mesma posição, e algum guindaste depositar sobre suas costas um peso igual ao do José Maria, ele será esmagado. É teoricamente impossível o que víamos no terreiro. Em todo caso eu, já acostumado com esses fenômenos, não dei muita importância ao fato, mas fiquei feliz porque passou a dor da coluna do José Maria.

Curioso, procurei ver se o Fonseca estava assistindo a cena. Ele estava. Convidei-o para ir conversar com o Exu Tranca Ruas das Almas.

- Meu Pai, este é um amigo meu, que vem só para buscar um axé do senhor.

O Pai Luiz e eu trabalhávamos – e ainda trabalhamos, com a mesma entidade, o fortíssimo Exu Tranca Ruas das Almas. Pela formação da terceira energia essa entidade modifica-se sem perder sua essência, quando incorporado em mim ou nele. Em mim ele torna-se mais cerimonioso e com o Pai Luiz mais exibido.

- Meu filho, me dê uma vela. Pediu o Exu.

Entreguei-lhe uma vela branca, ele acendeu-a e, encostando-a acesa na parede, deixou-a como se estivesse pregada. O fato da vela, com uma simples pressão ter grudado na parede, como já falei, não me impressionou. Mas fiquei preocupado, afinal a parede era de madeira.

De forma mansa e delicada para não contrariar o Exu, falei:

- Meu Pai, o senhor vai queimar o terreiro.

- Você acha que vou fazer isso?

Enquanto ele falava, o Fonseca ficava só olhando assustado para a vela grudada na parede. Eu também não tirava os olhos da chama da vela para ver se não queimava a madeira. Enfim, a vela não caiu e o fogo nem chamuscou a parede. Pedimos licença e saímos. Naquela noite não incorporei nenhum espírito só para, de minuto a minuto, cuidar da vela.

No dia seguinte o Fonseca foi me visitar, o que eu já esperava. E ele queria trocar idéias sobre a gira e o que viu.

Tomando a iniciativa da conversa, falou:

- Realmente, ontem à noite, vi coisas incríveis.

- Isso quer dizer que você gostou da gira.

- Gostei. E o Exu quando incorpora em você, também faz essas coisas?

- Que coisas? Falei, fazendo-me de desentendido.

- Aqueles fatos diferentes. Tentou explicar, para esconder seu assombro.

Contei algumas passagens do Exu Tranca Ruas das Almas, incorporado comigo, principalmente uma que achei muita graça.

- O Exu estava incorporado em mim, e tinha ganho de um consulente uma cigarrilha. Ele chamando seu cambono, entregou-lhe a cigarrilha e ordenou:

- Acenda.

O cambono naquele momento estava distraído, e entendeu que ele tinha pedido uma pemba. Cuidadosamente entregou a ele uma pemba vermelha. O exu pegou a pemba, encostou na ponta da cigarrilha apagada e devolveu-a para o cambono depois de ter acendido a cigarrilha no colorido pedaço de giz e já estar dando boas baforadas.

O Fonseca estava diferente. Fugindo do seu estilo, não discutia e muito menos tentava impor os seus conhecimentos.

- Como é possível um médium franzino como o Pai Luiz pôr nas costas um homem daquele peso e ainda sair andando um bom tempo pelo terreiro? É por essas coisas que a Umbanda é considerada cheia de magia?

- Ele deve ter usado a energia dos médiuns para deixar seu cavalo mais forte, ou deixar o José Maria mais leve. Nos trabalhos de efeitos físicos, a levitação funciona assim. Expliquei.

- Tem lógica. Você sabe como ele fez para grudar a vela na parede e acender uma cigarrilha com uma pemba?

- Não sei qual foi o processo e nem tenho necessidade de sabê-lo. Deixo essa parte por conta deles. As entidades não costumam brincar e o fato dele ter criado essa situação deve ser por alguma razão que foge ao nosso entendimento. Não vejo isso como magia. Apenas não sei. Falei categoricamente. A grande magia você não reparou. Foi quando ele estava no meio do terreiro manipulando os elementos da terra para criar um campo de força para eliminar uma energia negativa que estava prejudicando aquela família sentada na sua frente. Esclareci, recriminando sua falta de observação.

- Gostei da umbanda. Vou voltar outras vezes. Afirmou o Fonseca, despedindo-se.

Bandeira da Amizade