Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 53 - Espírito não brinca

Meu pai-de-santo Luiz Golini trabalhava comigo no terreiro, com quem eu divida as incorporações do Exu Tranca Ruas das Almas. Em uma gira eu incorporava, e na outra ele.

Em uma dessas giras, eu estava comandando e ele estava incorporado com o exu, nossa entidade comum, fazendo um trabalho no meio do terreiro. Ele era grande, pelo que se via: alguidar com farofa e azeite de dendê, marafo, fitas, charutos e mais alguns elementos. As velas vermelhas, brancas e pretas, acesas no ponto riscado, iluminavam o terreiro. Outros exus e muitas pombas-gira, trabalhavam em cima do trabalho. Era para ajudar uma pessoa que estava passando muito mal e, segundo informações, havia sido vítima de um trabalho de magia mal intencionado. A certa altura, o poderoso exu me chamou:

- Meu filho, hoje quero ir para a calunga.

. Nunca reclamei por excesso de trabalho, principalmente o espiritual, mas ir para a calunga me cansava. Já não tinha mais idade para isso. Em épocas anteriores, quando era necessário, íamos em um cemitério perto do terreiro. O guardião ficou nosso amigo, e fingia não nos ver. Todos de branco, acendíamos velas nas sepulturas e fazíamos entregas, durante a madrugada. Se não fosse a hora avançada que terminava, talvez até gostasse. E foi nisso que estava pensando, mas, por respeito, jamais ia dizer isso para o exu. Pedi sua autorização para comunicar à corrente a sua decisão de ir ao cemitério.

- Atenção, a corrente! O exu Tranca Ruas das Almas avisou que hoje um grupo nosso deverá fazer a entrega do trabalho dentro do cemitério. Preveni.

A gira continuou forte e em alguns momentos exigindo muita atenção minha para que não se desorganizasse. Meia hora depois do aviso da decisão do exu, ele chegou perto de mim e falou:

- Não vou mais ao cemitério, mas vou ficar incorporado até o sol nascer.

Fiquei feliz com a notícia. Esperar o sol nascer dentro do terreiro era bem melhor que ir no cemitério, pois, com certeza, iríamos ver o sol nascer de qualquer jeito . Chamei a atenção da corrente, mais uma vez:

- O Exu Tranca Ruas avisou que ele não vai mais ao cemitério, mas ficaremos aqui até o sol nascer. Aqueles que amanhã precisarem trabalhar cedo estão dispensados.

Meia hora depois, o exu, mais uma vez, chegou perto e, para minha felicidade, avisou:

- Vou subir, depois você pode encerrar o trabalho e pode descarregar o ponto.

Pensei que o exu estivesse nos testando, ou brincando, se bem que nunca tinha visto esse fazer isso.

Um pai-de-santo amigo meu estava participando da gira, incorporado com o Exu Gira Mundo. Com o charuto em uma mão e o copo de bebida na outra, o famoso exu disse:

- Meu filho, o terreiro de vocês está de parabéns! O povo do cemitério veio buscar o trabalho aqui no terreiro. Isso dificilmente acontece.

A explicação do Exu Gira Mundo deu sentido a tudo: o ponto era para chamar o povo do cemitério para assumir o trabalho. Nesse caso, a entrega deveria ser feita no cemitério, local da vibração dessa falange espiritual. No instante que fui comunicado ter que ir ao cemitério, com certeza o Exu Tranca Ruas foi comunicado que eles viriam buscá-la no próprio terreiro, não precisando ser no cemitério. Se eles vinham no terreiro, o Exu Tranca Ruas das Almas teria que esperar a vinda da poderosa falange, nem que fosse até o sol nascer. Eles vieram antes, aceitaram e assumiram o trabalho, não havendo mais razão da sua presença no terreiro, nem da continuidade da gira, podendo ser ela encerrada.

Seria uma grande surpresa se tudo tivesse sido apenas uma brincadeira. Pode parecer, às vezes, que o espírito está brincando, mas no fundo sempre existe uma razão. Nós é que não alcançamos, às vezes, a inteligência das entidades.

Bandeira da Amizade