Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 51 - Um caso que não é para exu

No automóvel, indo apressadamente para casa, fui surpreendido com um pedido da Yedda:

- Estou com vontade de ir visitar o cemitério. – expressou.

Esses são os sinais que devem ser observados. O histórico de nunca ter demonstrado desejo de ir visitar o cemitério, nem levar flores para nenhum morto, me fazer um pedido desses, num dia comum da semana, em horário de almoço, sabendo que o trabalho profissional nos aguardava, não me fez hesitar: dei meia volta, rumando ao santuário dos mortos. Descemos, ela comprou umas flores e estávamos entrando pelo portão principal, quando adverti:

- Você, na entrada, deve, com a ponta do dedo médio bater no chão três vezes e pedir licença para o Exu Caveira; dar três passos, cumprimentar seu Omulum; mais três passos, fazer a saudação ao Exu Tranca Ruas das Almas e a todo povo do cemitério. Ensinei, pacientemente, por ter entendido ter sido seu pedido mais uma inspiração do que uma vontade.

Ela, sem se importar com que ensinei, continuou andando, e retrucou:

- Faça isso você, por nós dois.

Às vezes faço coisas estranhas. Atendi seu pedido, sem nenhuma surpresa pela reação. Ela foi, igual borboleta nas flores, parando em várias sepulturas, toda amorosa, até que, no jazigo da família dela, depositou o ramalhete de flores e começou a ajeitar os demais enfeites, deixados por outros familiares. Foi quando senti a presença forte do Exu Tranca Ruas das Almas, para variar, reclamando:

- Tenho que puxar tua mulher para cá, só para falar com você. Aquela pessoa doente está com um encosto: é o espírito da mulher que morreu na cama que ela dorme.

De fato, uma familiar nossa, estava passando momentos difíceis, pelo inesperado surgimento de incomoda depressão, sem ter tido sucesso na medicina tradicional. Estava mal, preocupando a todos, diante de estar definhando a olhos vistos, além de não poder, pela doença, dispensar toda atenção à sua jovem família. E isso nos preocupava.

Foi quando me lembrei que sua cama pertencia à uma das tias que estava enterrada no túmulo que a Yedda estava cuidando, e era uma pessoa extremamente apegada às suas coisas.

- E por que o senhor não a tirou de lá? Resmunguei, em forma de cobrança.

- Seu burro! Esse tipo de espírito, um familiar apenas desorientado, não deve jamais ser levado por exu. É trabalho para uma linha mais suave, talvez a dos pretos.

Espírito que faz isso, de forma delicada, inteligente e cuidadosa, pode fazer o mal? Não acredito! E ele tem outras histórias, cheias de moral.

Bandeira da Amizade