Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, terça-feira, 22 agosto de 2017

Capítulo 5 - Reencarnação

A reencarnação é a base da filosofia espírita. Ela explica todas as distorções e diferenciações sociais e culturais entre os homens. O resgate do carma, a lei da causa e efeito, e a certeza que o semelhante atrai o semelhante, são princípios básicos da doutrina.

Se hoje você sofre, a causa está no resgate dos erros das vidas anteriores. Os que não crêem na possibilidade do espírito voltar várias vezes, em corpos diferentes, não conseguem entender porque uns são privilegiados com a fortuna e o bem estar e outros são jogados à má sorte, ao desamparo, ao vício ou à pobreza nem porque uns morrem em tenra idade e outros ganham a sorte de, com uma vida feliz, alcançarem longo tempo de vida. Não entender esse critério traz a alguns o fantasma da revolta e do descrédito nas religiões. A reencarnação ajusta essas diferenciações, pois todos terão a oportunidade de usufruir da sorte, senão nesta, na outra vida.

Estava reunido com um culto grupo diretivo da elite espírita, e o assunto discutido era exatamente sobre as diferenciações sociais, privando alguns, pela pobreza, até mesmo de alcançar o entendimento religioso. Foi quando um capitão reformado do exército, interrompeu:

- Isso não é desculpa. Mesmo que eu tivesse nascido na família mais pobre deste planeta eu seria sempre um religioso, e espírita. – gabou-se. E sabem por quê?. – falou na sua costumeira arrogância. Aprendi nos livros, sozinho, sem precisar de ninguém. – arrematou.

- E se o senhor não tivesse tido um pai que pagou seus estudos, e não soubesse ler, seria o que? Ateu? . – interrompi com sarcasmo.

Pela empáfia do capitão, sempre o dono da verdade, talvez minha irônica observação tenha causado mal estar. O fato é que a roda dissolveu-se, sob pequenas desculpas de todos.

Particularmente, tenho uma opinião: o conhecimento das reencarnações anteriores, nada acrescenta às pessoas. Acima do conhecimento, está a fé. Se um familiar foi assassinado, o fato de saber que este assassino foi morto pela atual vitima, atraído pela lei do carma, não traz consolo. Mas, se antes de procurar uma justificativa na vida anterior, a dor da tragédia for baseada no entendimento que nada acontece por acaso, a aceitação será bem mais fácil.

Aconteceu há algum tempo, na cidade balneária de Guaratuba, um acidente trágico, por muito tempo manchete dos jornais, nacionais e internacionais. Um prédio inteiro desabou, matando várias famílias. Recebi a visita de um familiar de uma delas. Contou-me como aconteceu.

- Estava no automóvel, com minha esposa e meus três filhos. Um deles, sugeriu ir à praia, com o esportivo carro Bug. Concordei. Enquanto trocávamos de carro, minha esposa, aproveitando o momento, foi até o apartamento buscar algumas coisas que tinha esquecido, no que foi acompanhada por dois dos meus filhos. Dei a ré no Bug, e, enquanto conversava, fora da garagem, com meu filho menor, vi o prédio desabar. Todos morreram.- balbuciou, emocionado.

- Faz um mês que aconteceu, não foi? - perguntei, mas claro, sabia disso. É muito recente, tenha calma, que o tempo lhe dará conforto. – disse, por não ter encontrado palavras para consola-lo.

- Não sou religioso, nem conheço o espiritismo, mas, no momento, o único consolo que posso ter é saber se eles estão bem. Na verdade, este desastre coletivo envolvendo tantas mortes, só pode ter sido pela vontade de Deus. – respondeu, resignado.

Felizmente, assistido pelas entidades protetoras, pude descrever seus familiares e dar provas indiscutíveis de estarem todos eles, esposa e filhos, muito bem amparados pelos mentores do espaço, tendo ele saído de minha casa, bem mais animado. Mas não é este o caso. Adiantaria ele saber acontecimentos de alguma vida anterior, que justificasse o que lhe aconteceu? Se o filho não falasse em trocar de carro hoje todos estariam vivos. E o homem, destacava esse fato. Mas, apesar de não ser religioso, teve fé. E isso lhe fez bem, muito mais do que conhecer o filme de suas vidas anteriores.

Sou muito desconfiado com as revelações sobre o passado. As viagens astrais, tão na moda hoje, podem nos levar à irrealidade, por força da imaginação. Regredir em vidas anteriores, sob a hipnótica fala do terapeuta, é passível de erros, causando, algumas vezes, irreparáveis transformações psicológicas, ou ridículos convencimentos irreais.

Conversando com algumas pessoas, defendia a posição que até hoje mantenho, quando fui interpelado por uma defensora desta pratica:

- Mas quem conta não é a terapeuta, nós vemos. – rebateu indignada as minhas afirmações.

- Pior ainda. Você entra em transe para isso. Jamais vai voltar ao estado normal sem uma resposta, mesmo enganada. – retruquei.

Uma pessoa ligada à espiritualidade e ao esoterismo ensinou uma forma de se enxergar vidas anteriores. Um espelho grande, de cristal, colocado no escuro, iluminado apenas por uma vela, reflete imagens das vidas anteriores. Fizemos, à guisa de curiosidade, como foi ensinado, ainda com a vantagem do espelho ter sido cruzado espiritualmente por algumas entidades. Umas vinte pessoas participaram da experiência. As revelações foram acontecendo. Cada um que parava em frente ao espelho, descobria várias reencarnações. Romano, pirata, bandido, príncipe, pessoas gordas e magras, enfim todo tipo foram revelados pelo espelho mágico. Na minha vez, fiquei olhando o espelho, e nada disse aos presentes. Alguém falou com euforia:

- Fernando, eu estou vendo. Você está completamente diferente. Está enxergando?

Eu nada vi. Apenas minha própria imagem. Mas não podia deixar a moça sem resposta. Respondi:

- Estou vendo também. Um homem magro, careca e irreverente...

Contou-me, um jovem médium, ter sido informado de uma das suas encarnações: seu espírito, conforme contaram, tinha sido o de Cleópatra, a rainha do Egito.

- Pode?

- Ainda bem que nem o César nem o Antonio reencarnaram com você.

Ele não entendeu a piada, deixando-me sem jeito, afinal, para ele o assunto era grave e eu, mais experiente, jamais deveria menosprezar a dúvida do jovem. Expliquei, demonstrando seriedade:

- Acredito no espírito masculino e feminino. O masculino não reencarna em corpo feminino, como o feminino não ocupa cascão masculino. O fato de você ser um homem, com visível masculinidade, tira-lhe toda possibilidade de ter sido mulher em vida anterior.

Desconheço provas concretas, sobre a veracidade das afirmações, quer de médiuns intuitivos, videntes ou esotéricos, praticantes das rendosas leituras das vida anteriores.,

Sei que existem, mas por que conhecê-las? Hoje eu sou, ontem já fui, e amanhã nem sei se serei. Conhecer o passado, ou o futuro, em nada vai afetar minha atual vida.

Tenho razões para ser um desconfiado nesse assunto. Quando moço, visitava com freqüência, uma excelente médium vidente. Ela me cativava, por ser uma pessoa simples, já de idade, lembrando muito minha avó, até com o cheiro do pó de arroz empoado atrás das orelhas. Ótima em sua vidência, sempre relatando fatos íntimos, impressionava os consulentes, com seu jogo de cartas. Uma seleta freguesia garantia sua sobrevivência. Quando usava sua mediunidade, nada cobrava, pelo respeito que tinha aos espíritos. Recebi, através de um amigo comum, um recado para eu ir lá com urgência, porque ela tinha tido uma revelação sobre uma minha vida anterior. Quase fui à loucura, pois, o que mais procurava, era saber quem fui. Estava ansioso na sala de espera, aguardando a agradável médium. A porta abriu-se, e nem bem a consulente tinha saído, eu já estava sentado, lá dentro, esperando por ela.

- Diga, quem eu fui? – perguntei ansioso. Ah, sim, desculpe-me! Boa tarde, como vai a senhora? – completei, para justificar minha esquecida educação.

Ela riu, abriu uma pequena gaveta, tirou uma vela, acendeu, rezou um pouco. Voltou-se à mim:

- Eu vou bem, e você? - respondeu.

Já tínhamos nos cumprimentado, mesmo às avessas, a vela já estava acesa e a reza feita, nada mais eu tinha que esperar. Ansioso, perguntei, outra vez:

- Diga, quem eu fui?

Calma e pausadamente, ela explicou:

- Uma entidade, tua protetora, pediu para revelar a você, uma vida anterior tua. Achei até engraçado, a forma como me contou. Eu estava na cozinha, porque amanhã é dia que reuno minha família...

Interrompi:

- Diga, quem eu fui? – perguntei, pela terceira vez, demonstrando minha impaciência em ouvir histórias das suas reuniões familiares.

- Está bem. Muitas encarnações atrás, numa outra vida, você chamava-se Marcos. – e parou de falar.

- Sim, meu nome era Marcos, mas que tipo de pessoa eu era?

- Marcos, o apóstolo de Jesus! – encerrou, emocionada.

Foi a primeira e última vida que tentei pesquisar uma minha vida anterior. Nunca mais quis saber de nenhuma. Não tenho nada a ver com o autor do segundo Evangelho. Se alguém duvida, leia o Evangelho – o que seria até bom, e compare com meus textos. Se hoje seria uma má companhia para nosso Mestre, imaginem há dois mil anos. E por que não poderia ser Marcos, o sanguinário, ou o soldado covarde, ou o ferreiro, padeiro, sei lá o que? Tinha que ser o apóstolo? Nada feito, tudo errado! As vidas anteriores existem, mas não devem ser reveladas pela absoluta falta de seriedade nas informações, o que pude perceber, vindo da fiel e honesta médium, presumindo, ela também ter sido enganada, em devaneio, como quase todos.

Mas um fato merece destaque. Por que não nos lembramos da vida anterior? Esta pergunta foi feito ao Pai Maneco, e vejam a jóia de resposta:

- O homem é composto pela matéria, mente e espirito. Matéria é o corpo carnal. Nasce, cresce, envelhece e morre. Dentro deste corpo físico se aloja o cérebro, depósito da memória. A memória é o arquivo do nosso conhecimento. Hoje, lembro de ontem, por ter sido registrado na memória todos os acontecimentos. Tudo isso faz parte do espírito, um complexo maior: matéria, cascão, perispírito e a alma. É a chamada aura. O perispírito é a cópia exata do corpo físico. O homem morre, seu corpo físico se decompõe, e com ele o cérebro e a memória. Fica destruída a lembrança da vida presente. Sobra, entretanto, o registro no perispírito, cópia, como já foi dito, da matéria. Ao desencarnar, o espírito readquire a lembrança dos registros de suas reencarnações, uma vez que está livre da mente física morta. Este é o filme que, segundo dizem os convencionais, é passado aos desencarnados para lembrança de suas vidas anteriores. Quando este espírito reencarna, ao dar o primeiro sinal de vida com o choro tradicional da criança, começa um novo registro dos acontecimentos, em uma memória totalmente nova. Como esta memória não tem registrada a vida anterior, só gravada na mente do espírito, não pode, pela lógica, lembrar-se dela, isto só acontecendo quando desocupar este corpo. Este é o processo natural que faz o homem não lembrar da vida anterior, exceto em isoladas lembranças da memória do perispírito. No caso, quando acentuadas, provoca a precocidade na criança. Daí surgirem alguns gênios, podendo até com sete anos compor músicas clássicas ou surpreender com revelações fantásticas. – concluiu o mestre da umbanda.

Bandeira da Amizade