Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 49 - Quimbanda

Aceitei o convite de uma turma universitária de teologia para fazer uma palestra sobre a umbanda, especificamente a quimbanda. Eram uns trinta alunos, fazendo anotações e gravando toda conversação.

Eu dizia que a quimbanda está subordinada à umbanda. É ela quem executa os grandes e perigosos trabalhos de magia para combater o mal. Um dos alunos fez uma pergunta:

- E o exu, segundo dizem, é ou não é o agente do mal? Pode esclarecer?

- Ele é a entidade mais polêmica, misteriosa e distorcida dentro da umbanda. Sua imagem, na crença popular, é uma figura demoníaca, moldada em gesso de cor vermelha, algumas ainda possuindo chifres e pés de animal. Absurdamente, é assim que ele é cultuado, inclusive, confesso, por mim, muito embora eu saiba estar fazendo parte desta massa ignorante.

- O senhor diz "na crença popular". Como pode saber se não são realmente assim? Insistiu a moça.

- Eu conheço alguns espíritos de exus, através da vidência,. São maravilhosos e não são retratados com fidelidade nas imagens materiais.

- Mas, se não são assim, por que são cultuados dessa forma? Voltou a insistir a esperta universitária.

- É estranha esta força da imagem em gesso do exu. O que estará escondido por trás dessas figuras mal feitas e de péssimo gosto artístico? Não será um proposital engodo espiritual? Quem sabe para esconder suas verdadeiras identidades?

- Verdadeiras identidades? Mas quem são eles?

- A umbanda é brasileira, baseada em fatos e personagens na época do descobrimento, tendo nos caboclos, nossos ameríndios, a figura mandante. Mais do que justo, por ser o índio a entidade autenticamente brasileira. Ainda não tenho opinião formada sobre a linha do preto-velho. Fico em dúvida se quando os arquitetos do espaço criaram a umbanda não foram buscar esta maravilhosa linha espiritual na África ou, indiretamente, na linha da capoeira, esporte também brasileiro e com ritual muito semelhante ao da umbanda, praticado pelos escravos ou descendentes africanos. As crianças são espíritos de qualquer nacionalidade, que tenham desencarnado na idade da inocência, inclusive as crianças índias, os curumins. Fecha-se o triângulo da Umbanda: caboclos, pretos e crianças. Sabendo serem essas as entidades que compõem a umbanda, não resta para a quimbanda, outro tipo de espírito senão os originários da Europa. Tentei explicar, da maneira mais simples, o difícil tema.

- Parece-me lógica a explicação, mas está faltando mais consistência no tema, ou, melhor perguntando, como o senhor chegou a esta conclusão? Argumentou, lá atrás, um rapaz.

- Na minha opinião, os nobres, príncipes, lordes, almirantes, eclesiásticos, figuras letradas e culturalmente avançados, hoje estão relegados ao limite da esfera da Quimbanda, plano reconhecidamente mais grosseiro que a Aruanda de nossos orixás.

- Mas, pode isso acontecer?

- Pode sim! É só aceitarmos a evolução do espírito através da reencarnação. Se os europeus invadiram nosso país, mataram nossos índios, escravizaram os africanos e cometeram toda espécie de mal, dentro de seus resgates cármicos podem, espontaneamente, ter aceitado a situação de serviçais àqueles que, em vidas anteriores, foram seus carrascos.

- Mas, qual o motivo? Não seria mais lógico se apresentarem como foram em suas vidas anteriores, conforme o senhor acredita?

- Seria estranho e de difícil aceitação um príncipe apresentar-se em um terreiro de umbanda, carregando um tridente, afirmar estar morando no cemitério, aceitar farofa, azeite de dendê, charuto e cachaça como oferenda, e ainda receber ordens de um índio ou de um escravo. O melhor é se esconder atrás de um comportamento atípico às suas nobres origens. – argumentei.

Gosto de falar aos outros as coisas que me acontecem. Pode parecer absurdo, mas é a minha verdade. Dela não abro mão e, aos invés de escondê-la, prefiro dividi-la com os outros. Achei oportuno contar, naquele momento, a história de um exu, conhecida através da vidência.

Em um castelo, inteiramente de pedra, mal cuidado e isolado no meio de uma floresta, típico daqueles pertencentes ao feudo europeu, vivia um homem branco e corpulento, trajando uma surrada roupa, provavelmente antes pertencente a um guarda-roupa fino. Percebia-se o desgaste causado pelo passar do tempo, pois ainda carregava uma grossa e rica corrente de ouro de bom quilate, com um enorme crucifixo do mesmo cobiçado material. Parecia viver na solidão, muito embora no castelo vivessem vários serviçais. Na torre do castelo, as janelas foram fechadas com pedra, e só pequenas frestas foram feitas no alto das paredes. A luz não podia entrar. A torre não tinha paredes internas, formando uma enorme sala, com pesada mesa de madeira tosca, tendo como iluminação dois castiçais de um só vela cada. Ao lado da tênue luz das velas, livros se espalhavam sobre a mesa, mostrando ser aquele homem um estudioso e que algo buscava na literatura. De braços abertos, com um capuz preto cobrindo sua cabeça, emitia estranhos e finos sons, tentando descobrir o segredo da levitação. Pelas frestas da torre, entravam e saiam voando vários morcegos com os quais ele procurava inspiração e força para atingir sua conquista. Por quê? Não sei. A idéia e as razões eram da estranha figura. Parecia um homem de fino trato, transfigurado na fixação de atingir um poder que não lhe pertencia. Seu nome? Também não sei. Só o conheço incorporado nos terreiros como o querido mas temido Exu Morcego.

- Tenho alguma noção da umbanda, e esta colocação do exu é interessante. Observou outro universitário. Sabe de mais algum caso?

Conheço mais algumas revelações, e são interessantes, por serem os nomes escolhidos, desde o motivo da simpatia, até o local de trabalho. Do Exu Tata Caveira, existem várias histórias. A mim, ele disse ter sido coveiro.

O Exu 7 da Lira, segundo a unanimidade dos terreiros afirma, foi o grande cantor brasileiro, Francisco Alves. De certa forma, foi sinalizada alguma coisa em nosso terreiro, pelo ponto que ele mesmo ditou:

Sou exu, trabalho no canto
Quando canto desmancho quebranto
Sete cordas tem minha viola
Vou na gira de elenco e cartola
Viola é o tridente
Cigarro é o charuto
Bebida é o marafo
Sou Sete da Lira
Derrubo inimigo
Ponteiro de aço

O Exu Pantera é uma surpresa. Seu nome dá a entender ser um espirito violento, bravo, mas, bem ao contrário, apresenta-se com muita elegância, com charme e um bom palavreado. Ele contou sua história: afirmou ser europeu, e grande admirador da pantera, para ele, um animal esperto, ágil, e o mais elegante de todos. Veio ao Brasil para resgatar seu carma, agrupando-se à umbanda, especificamente à quimbanda e como tem uma relação direta com o Caboclo da Pantera, não teve nenhuma dúvida em usar o nome do lindo felino. Daí seu nome: Exu Pantera.

O Exu do Fogo contou uma história interessante. Disse que através do fogo executa seus trabalhos de caridade, por ter ele, no tempo da Inquisição, condenado várias pessoas para serem queimadas em fogueiras com a pecha de bruxos. Hoje ele se considera um bruxo e através do elemento fogo, tenta resgatar os males que carrega em seu carma. E vale a pena ver a habilidade deste exu manipulando o fogo.

O Exu João Caveira contou uma vida passada. Disse que na Idade Média, foi um fiel conselheiro de um senhor feudal. Criada uma situação no feudo de difícil solução, foi solicitada sua opinião para decidir a questão. Se decidisse de uma forma, agradaria todos os senhores, e de outra, faria justiça a todos os moradores desafortunados do lugar. Para ganhar a simpatia do lado forte, decidiu pela primeira hipótese, mesmo contrariando a sua vontade, que em nenhum momento expressou. Por causa disso, ganhou um carma enorme, que está resgatando nos terreiros da umbanda.

Olhando para a turma, percebi, pelo silêncio, ter atraído a atenção de todos para essa revelação. Era o momento certo, para encerrar a palestra. Agradeci a todos, pelo respeito e atenção que tiveram para comigo, e me preparava para sair, quando um outro universitário, um dos pouco que nenhuma pergunta fez, bateu em meu ombro e disse:

- Não agradeça o respeito e atenção para sua pessoa, foi ao tema...

Como eu imaginava, porque sempre acontece, a distorção da figura do exu seria o tema preferido dos universitários e por isso levei umas cópias de um texto feito pelo Andir de Souza, onde retrata muito bem a folclórica figura dos exus. O texto fala assim:

“Falar de exu não é uma fácil tarefa, porém, inquirir, pesquisar, procurar sua origem e sua finalidade é o direito de quem quer aprender.

Há uma nuvem cobrindo a distância do seu princípio até nossos dias.

Nesta caminhada lenta da humanidade ganhastes muitas formas e fostes batizados com inúmeros nomes: no Jardim do Éden, eras uma serpente que introduziu o primeiro pecado no seio da humanidade; eras o agente mas não o mal, pois o livre arbítrio nos dá o direito de optar.

De Adão e Eva proliferou a humanidade e, com ela, os seus deuses, seu medo e sua curiosidade.

Ah! meu irmão de longa caminhada...

Para Moysés você foi a bengala que apoiava o corpo nas fatídicas andanças mas, se necessário, você seria também a assustadora serpente. Para os fenícios, você foi Molock, espírito tenebroso, cujo interior era uma fornalha ardente onde os seus seguidores depositavam suas oferendas; para a Pérsia de Zoroastro, atendias pelo nome de Arimânio, espírito angustiado e vingador!...para o egípcio, você era Duet, uma guardião que castigava, que punia para, depois de punido, ser entregue para o Deus da Luz e Serenidade; você era a ligação entre o homem e a mente, a morada de Osíris que é o Deus do amor e da criação.

No Egito, você também era Tifon ou Aprites; a China milenar te deu o nome de Digin; Ravana para o hindu; os escandinavos de chamavam Azalock. Em cada povo uma personalidade e uma vibração diferente.

Para o nosso índio brasileiro, você atendia por vários nomes e várias atuações: Cairé é um fantasma que aparece na lua cheia para punir os maus; Catiti é outro, só visível na lua nova e atrapalha a pesca. Jurupari é o mau espírito que traz pesadelo; Curuganga oficia como assombração.

Até então, você com múltiplas funções e personalidades, não era mais que uma energia, uma força.

Até 1984 anos atrás, você era visto e sincretizado como guerreiro, como um homem.

Para o mau artista, uma grotesca obra.

O hebreu te deu novas formas e, na pia batismal, recebestes os nomes: diabo, demônio, Lúcifer.

Pelo pincel do pintor ou o formão do escultor, na metamorfose dos interesses de uma religião que amedronta e não esclarece, te fizeram um monstro... Como monstro, você defendia com maior eficácia os interesses econômicos de seu criador.

Causa-nos revolta vê-lo assim desfigurado!

A infâmia e o mau gosto do artista que te fez um agregado de homem e animal, com longos cornos e pés caprinos, é uma afronta ao próprio Criador!

Ah! meu amigo... A tua imagem hoje, nada mais é que o reflexo, a exteriorização de consciências mal forjadas.

São dois mil anos que o padre vem te projetando, programando o subconsciente da pobre humanidade. Ele afirmou que exu era o diabo e assim se propagou, assim ficou...

Nós só conhecíamos o catolicismo como religião dominante. O padre era sábio, o doutor, o mentor enfim... e ficaria assim se ao lado da religião não existisse a história.

O diabo é um rival de Deus, um anjo rebelde, Satanás e falsário que tentou Eva e perdeu Adão. Tentou Caim e promoveu o assassinato de Abel; tentou Jesus, no monte e levou Judas à traição, Jesus não cedeu à sua tentação, prova eloqüente do direito de optar; respeito sagrado ao livre arbítrio do homem.
Forçam-nos a pensar que você é o executor porém, não é a causa nem efeito; é sim um elemento, uma vibração, que serve de acordo com a vontade do pedinte ou a licença do patrão. Será isso ou não?...

Sabemos que o índio e o negro não conheciam um rival de Deus. Não há um concorrente das Leis Divinas!... um diabo, um Satanás... há sim, uma corte de seres inferiores que, por isso mesmo, estão a serviço de seres superiores, aos quais obedecem e servem sem contestar.

Na magia do negro, Exu é um Deva, um Orixá... é um mensageiro, o guarda, o policial, o moço de recado que vive na rua, orientando, servindo de intermediário entre o Orixá e o homem.

Entendemos que o diabo nos ludibriou!...

O negro não sabia que era o diabo, sabê-lo-ia o bugre dispondo de uma mitologia inferior?... Não tinham uma noção semelhante.

O bugre conhecia o Caissoré, Curupira, Curuganga, Anhangá, entidades que se tornam pesadelos, que dão maus sonhos e que estorvam a pesca e a caça, contudo, o homem pode amansá-los, dando-lhes pequenas oferendas.

Quem ameaçaria o diabo?... Este pretenso rei será tão porco, tão mesquinho que se venda por alguns bicos de vela? Será isso um rival de Deus?... Um diabo, um Satanás?...

O bugre e o negro não conheciam esta figura hebraica, pregada e propagada aos quatro cantos do mundo pelos padres e seus discípulos.

O negro não servia a interesses financeiros; perante Deus não existe rival. ELE é a Criação, o Princípio e o Fim!

Para cada elemento ELE criou uma força dominante, um encarregado, um guardião, um Orixá que rege o plano Cósmico mas, criou também, o intermediário, o EXU, o Deva, o Orixá Menor, que atua em harmonia com seu gerente ou seja, o Orixá.

Lá no alto está a Energia Cósmica, Oxalá, Iemanjá, Ogum, Oxóssi e outros; no plano intermediário, Exu-Tameta, Exu da Rua, Exu-Odé, da encruzilhada, Exu-Adé, do chão, Exu-Ibanan, dos montes, Exu-Itatá, das pedras, Exu-Ibê, do terreiro, Exu-Gelu, das estradas longas, Exu-Baru, do escuro, Exu-Bara, este, puramente africano.

Senhores, a minha dissertação talvez não seja erudita... tão inteligente... porém, é honesta e eu afirmo: aquele grupo de demônios avermelhados, guampudos, com pés caprinos e barbas em pontas, olhos saltados, dentre agressivos... não é EXÚ!

Aquilo é uma concepção primária, falsa, mórbida, velhaca, indecente, ridícula!... É uma agressão à nossa inteligência; uma infâmia, um disparate, uma ofensa ao Divino Criador!

Não podemos aceitar essa assimilação!

Este demônio hebreu não é o Plutão do grego, não é o Tifon do egípcio, não é o Arimam do babilônio, não o Digin do chinês, não é o Ravana do hindu, não é o Bará do negro, não é o Caissoré do bugre.

Este demônio bestificado não faz parte deste Panteon!

Por Deus, não é nada disso!... só pode ser fruto do interesse econômico de escritores mal informados, sem decência ou respeito pelo belo.

Aqui dou meus aplausos àqueles escritores que tiveram a honradez de procurar um novo sincretismo, tentando introduzir uma imagem condizente com o altruístico trabalho desses incansáveis irmãos EXÚS.

Bandeira da Amizade