Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 47 - Energia pura

Eu trabalhava na linha kardecista usando como fonte de trabalho apenas a energia do espírito e, por isso, refutava a magia dentro do espiritismo tradicional. Costumava dizer que a magia era coisa dos bruxos.

Tudo que acontece tem uma explicação natural e lógica, completava. Eu não estava inteiramente errado, apenas tinha uma trava no olho, não sei se no direito ou no esquerdo ou nos dois. Na ocasião eu era jovem, prepotente e fanático. Embora com esses vícios em alguns momentos a minha mediunidade ficava adulta e eu podia vislumbrar situações que poderiam proporcionar momentos importantes e de grande repercussão espiritual interior. E foi assim num desses raros clarões que convidei o João Luiz para fazer parte na sessão de passes enérgicos no grupo espírita em que trabalhava.

O João Luiz devia ter uns trinta anos de idade, com grosso bigode, uma estatura grande, usava óculos de miopia, andava e falava com dificuldade. Sofria da síndrome de Down. Sua idade mental era infantil mas o amor que tinha pelo nosso grupo o credenciava a ter trânsito livre entre nós. Foi assim:

- João Luiz, você que vem aqui todas as semanas não quer ficar do meu lado me ajudando a dar passe nos outros? Expliquei pausadamente para que ele entendesse o convite.

Ele deixou sair uma gostosa risada, demonstrando ter entendido muito bem o convite formulado, como também ter ficado alegre e satisfeito.

O João, seu pai e acompanhante permanente, aquiesceu com o convite. Foi combinado o ingresso do João Luiz em nosso grupo. Esse trabalho era dividido em duas partes: a primeira era pública e só para dar os passes enérgicos e a segunda parte era fechado a assistentes, quando os espíritos incorporavam e deixavam suas mensagens de luz. O João Luiz ficava só na primeira parte. Ele ficava do meu lado, eu explicava a ele como deveria fazer, mandando levantar os braços e deixar as mãos sobre as pessoas. Quanta pureza! Era bom ter o João Luiz do meu lado. Nossas energias fluíam e os resultados eram ótimos. Assim foi durante um longo período até que o João me procurou. Falou solenemente:

- Quero agradecer a você e todo o grupo pela atenção que sempre dispensaram a mim e em especial ao meu filho. Não quero que você entenda errado o que vou dizer, mas não vou levar mais o João Luiz para dar passes.

Fiquei surpreso, pois não esperava que isso acontecesse, não só por ver meu companheiro de trabalho alegre no meu lado, mas pela decisão ainda não explicada. Perguntei preocupado:

- O que aconteceu? Houve algum problema no grupo? –

- Nada aconteceu. A decisão é necessária.

Tentei justificar a presença do João Luiz no grupo:

- Você não imagina quanto bem o João Luiz tem feito nos trabalhos. Por ser um homem sem pecados sua vibração é pura.

- Pode ser, mas está fazendo muito mal a ele. Nos dias dos trabalhos a sua excitação é tão grande que chega a ter até mais de duas convulsões seguidas.

Jamais poderia imaginar que isso acontecesse com o meu companheiro que aprendi a gostar e admirar. Seu velho corpo era dirigido por uma mente estagnada, pura e, acima de tudo, insondável. No seu mundo ninguém entrava, e quando dele queria sair, o seu corpo doente o machucava provocando ataques convulsivos. Era uma luta que eu não compreendia: o seu corpo envelhecia, mas o seu espírito não. Mas era impossível dividir isso com alguém. Com certeza ele era feliz longe dos perigos mundanos e das tentações da carne. O seu pensamento tinha um limite até onde não pudesse ser atingido pela maldade. Eu tinha a capacidade de imaginar as reações de uma criança, de um adolescente ou mesmo de um homem velho. Mas pessoas como o João Luiz para mim eram indecifráveis. Seu mundo podia ser pequeno ou grande. Quem sabe a desnecessidade de saber as horas e os dias, o tornasse mais felizes do que nós, escravos submissos dos horários, compromissos, sistemas, conceitos e regras sociais. O João Luiz durante os passes transbordava uma alegria incomum, muito embora não conseguisse avaliar a importância do ato. E por que era vitima das convulsões? Acho que quando estava saindo de seu mundo mágico, lia na porta um aviso: não saia, perigo! Infestado de pecadores!

Quando o João me comunicou a decisão o João Luiz estava junto. Ele se limitava a me olhar e sorrir. Dei-lhe um abraço, enquanto pensava:

- Volte ao teu mundo feliz. Quem sabe um dia eu possa entender pessoas como você.

Os anos se passaram e eu larguei a roupa comum do espiritismo kardecista para usar a roupa branca dos umbandistas. E nessa religião eu encontrei o caminho para compreender o meu antigo amigo João Luiz: a linha mágica das crianças - os erês e ibejis, ou simplesmente, Cosme e Damião, uma mistura da infantilidade com a maturidade.

Bandeira da Amizade