Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 46 - O Pai Maneco e o relógio

O marcador do tempo, o relógio, o grande vilão da nossa liberdade, é o símbolo da materialidade para o Pai Maneco. Ele sempre deixa fortes marcas de sua presença, através do relógio.

O Leonardo, hoje meu capitão-de-terreiro, ao se despedir do Pai Maneco em uma consulta, pediu-lhe:

- Gostaria que o senhor fosse me visitar. E deixe um sinal para eu saber. Completou alegre, mas respeitosamente.

Naquela noite, durante a madrugada, o relógio digital na cabeceira da cama do Leonardo explodiu, espalhando fogo em volta, tanto que queimou a cortina de seu quarto.

Explodir e fazer incendiar-se relógio digital só pode ser coisa dele. Suas histórias com o relógio são muitas. Costuma dizer que uma sessão espírita é como um relógio: os ponteiros são os que mais aparecem, mas são o de menor valor. Referia-se, claro, aos médiuns. Destaco um, entre os casos de maior expressão com o símbolo do relógio.

Já fazia um mês, um jovem havia sido seqüestrado e a família entrava em contato com os seqüestradores que exigiam uma alta soma para soltá-lo. Iniciaram-se os contatos e depois, pela demora do acerto, a polícia suspeitava de o jovem já ter sido assassinado. As manchetes dos jornais locais e nacionais davam destaque ao rumoroso caso. Os pais, como não podia ser diferente, estavam em pânico. Concentrações religiosas aconteciam em vários pontos para o resgate com vida do garoto. Nós, no terreiro, também fizemos orações por eles, principalmente pelo fato de um capitão-de-terreiro da nossa casa, fazer parte do seleto grupo policial anti-seqüestro , Grupo Tigre, da nossa Policia Civil, responsável pelo caso.

Como faço de costume, no dia do nosso trabalho, por volta das dezessete horas, estava pronto para sair, quando o telefone tocou. Atendi, era o nosso valoroso policial.

- Fernando, estou aqui na casa da família do menino e a mãe dele quer falar com você.

Ouvi uma voz triste do outro lado do telefone. Era amarga, mas demonstrava muita fé.

- Senhor Fernando, sei que o senhor tem hoje um trabalho. Faça, por favor, uma oração para meu filho estar vivo e voltar logo para nosso lar. Tenho muita fé em Deus e sinto dentro que ele está vivo. Falava, emocionada.

É estranho como as coisas acontecem. Ouvir aquele súplica de uma mãe que não sabia se seu filho estava morto ou vivo, deveria ter-me deixado triste e penalizado. Mas não foi o que me aconteceu. Ao contrário, fiquei alegre, porque imediatamente àquelas tristes palavras da mãe aflita, ouvi o Pai Maneco dizer:

- Diga a ela que o filho está vivo e amanhã ele voltará para casa.

Imediatamente repeti as suas palavras à triste mãe. Ela emocionada respondeu:

- Graças a Deus o pesadelo vai acabar.

Após as palavras de despedidas e ainda dizendo da minha convicção quanto ao desfecho do drama, desliguei o telefone. Minha mulher ralhou indignada:

- Você é louco, brincando com os sentimentos dessa mãe. Não está vendo que ela está buscando uma esperança? E você diz isso. E se ele estiver morto?

- Ele não está morto, e amanhã vai aparecer. Vou embora que tenho que ir ao trabalho, rezar com todos para que isso aconteça. Respondi e sai.

A polícia, pelos primeiros rastreamentos dos telefonemas, já sabia a região em que os seqüestradores estavam, e por outras diligências, já conheciam os suspeitos. Na localidade detectada policiais à paisana, corriam os postos de gasolina e os seus restaurantes. Num deles, dois policiais fizeram a patrulha. Quando iam saindo, o policial entrou no carro, e ao abrir a janela e pôr o braço para fora, seu relógio desmontou, caindo para fora toda sua minúscula e rica máquina. Abriu a porta, e enquanto recolhia as peças do relógio, um carro parou ao seu lado e o policial reconheceu os suspeitos. Imediatamente, a voz de prisão foi dada. Não fosse o relógio quebrado, o que atrasou a saída dos agentes da lei, haveria o desencontro.

Isso aconteceu no dia seguinte da conversa com a mãe do jovem que, para alívio de todos voltou, depois de um mês, para os braços de seus familiares. Os seqüestradores até hoje estão presos.

Bandeira da Amizade