Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, quinta-feira, 24 agosto de 2017

Capítulo 45 - A dor não tem parâmetro

Jamais devemos avaliar a importância dos pedidos feitos aos espíritos, porque nem sempre a razão deles é o real motivo que leva uma pessoa buscar um contato com as entidades.

Quando trabalhava na linha kardecista, atendendo uma moça, ela interrompeu o passe magnético que lhe aplicava, para fazer um pedido:

- Vim aqui pedir a ajuda dos espíritos para eles fazerem que seja concluído o inventário dos bens deixados por meu pai.

Fiquei preocupado, não com o pedido, mas com as advertências que receberia, caso meus companheiros ouvissem o que ela pediu. Gesticulando para que ficasse quieta, terminei a transmissão da energia que lhe dava. Tomando o máximo cuidado para ser ouvido só por ela, sussurrei:

- Você tem que continuar vindo aqui, até que o processo seja julgado.

Transcorridos uns seis meses, sem que tivesse faltado nenhuma das nossas sessões, ela me disse ter sido concluído o inventário do pai, agradeceu a atenção e informou não mais haver necessidade de voltar, despedindo-se, agradecida. Algum tempo depois, voltou pedindo nova consulta. Acedi à solicitação.

- Eu não sei se você tem condição de me dizer, mas preciso saber se o que estou fazendo está certo. Pediu, laconicamente, sem mais nada dizer.

Era importante para ela receber uma orientação, sem falar antes do assunto. Isso é comum entre as pessoas ainda em busca da fé. Felizmente, uma entidade, no meu ouvido, intuiu:

- Quando você veio aqui buscar socorro para terminar o inventário dos bens de seu pai, eu sabia não ser essa a grande razão da tua busca. É que, além da pendenga judicial, você não tinha outro problema. A verdadeira razão da tua vinda foi incentivar você a formar um grupo de trabalhos espíritas, como você está fazendo. Vá em frente! Respondi, torcendo que eu estivesse certo.

A moça caiu em convulsivo choro, e tomando minhas mãos, sob forte emoção, disse:

- Muito obrigado! De fato fiquei entusiasmada, e juntamente com alguns amigos, formamos um grupo de trabalho espírita. E saiu, empolgada com a notícia.

Felizmente não sou prisioneiro dos chavões ortodoxos do arcaico espiritismo, senão a moça receberia um sermão pelo estapafúrdio pedido, e o grupo de caridade jamais existiria, pondo por terra, talvez, um projeto espiritual dos Arquitetos do Espaço. É provável que essas convicções sejam influenciadas pelo Pai Maneco. Tenho razões para pensar assim. Em uma das nossas giras, ele incorporado, apontou ao seu cambono uma jovem de uns quatorze anos de idade, que mantinha de olhos fechados, demonstrando a sua compenetração naquele momento que recebia as cargas energéticas durante a vibração no meio do terreiro, e disse:

- Está vendo aquela menina ali na frente?

Diante da confirmação do cambono, completou:

- Estou com muita pena dela. Está fazendo um pedido que não posso atender: quer um namoradinho, que não vai dar certo.

O cambono riu. Fez uma observação qualquer com referência a singeleza da menina, demonstrando claramente achar o pedido impróprio à grandeza das entidades.

- Meu filho, o descaso que seu pequeno amado demonstra por ela provoca um sofrimento nessa menina, com a mesma intensidade daqueles que têm uma doença ou um grande problema. A dor não tem parâmetros.

Os espíritos não perdem as oportunidades para atender, quando podem, as solicitações que lhes são feitas. O Guilherme, um médium de nossa corrente, procurou o Pai Maneco e fez um pedido:

- Pai Maneco, não sei se é impróprio o que vou pedir, mas para mim, é de grande importância. Não sei se o senhor sabe, mas nós, aqui na terra, temos um esporte chamado futebol. E o time que torço está prestes a ser desclassificado, o que será um desastre para muita gente. Não quero que ele seja o vencedor do torneio, peço apenas para ele não ser rebaixado de onde está.

Calmamente a entidade perguntou:

- O que tenho que fazer, para evitar que isso aconteça?

- Meu pai, para sair do último lugar o time tem que ganhar as nove próximas partidas. – explicou:

O Pai Maneco não respondeu de imediato. Imaginei que estava tomando conhecimento do que era futebol e como poderia interferir para realizar o que todos consideravam um milagre. Retomando o dialogo, explicou:

- Toda vez que acontecer esses jogos, você pegue um coco, amarre uma fita vermelha com sete voltas, leve na porta de um cemitério, deixe lá, acompanhado de um charuto.

Eu também gosto de futebol. Torço para o mesmo time do Guilherme. Embora surpreendido com a consulta, fiquei torcendo para o sucesso do trabalho. E cada vez que ia acontecer o jogo, o Guilherme me telefonava.

- O passarinho entrou na gaiola! – era o código para confirmar que ele e o Gustavo já tinham levado o coco no cemitério.

O time ganhou as nove partidas prometidas pelo Pai Maneco, e surpreendendo a todos, quase chegou à classificação final. Se ganhasse o décimo jogo, estaria disputando as finais. O Guilherme já contava como certa a vitória e diante da inesperada derrota, desconsolado, me telefonou:

- Desta vez não adiantou o coco no cemitério. Falou, com tristeza.

Respondi prontamente:

- Você não sabe fazer pedido para espírito. Ele atendeu o que você solicitou.

Mesmo nas banalidades, os espíritos nos atendem. Só não resolvem as questões cármicas, que são assuntos de nossa inteira responsabilidade.

Bandeira da Amizade