Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 44 - O angolano Pai Maneco

O Pai Maneco sempre disse que se uma casa espiritual fechar suas portas, não abrirá mais e estará fadada ao desaparecimento.

Fazia questão de indicar a porta para todos verem estar sempre aberta, fazendo-me, no início da gira, ir até a porta da entrada, pôr a mão na maçaneta e mostrar a todos que ela não estava trancada. Eu fazia isso, muito embora soubesse não ter necessidade, pois nem chave a porta tinha. Mas era um gesto simbólico. E eu, claro, não ia desrespeitá-lo.

A corrente aumentava toda semana. O lugar estava pequeno. Num final de gira, no encerramento, quando ele já estava se despedindo, alguém observou:

- Pai Maneco, o senhor não acha que a gira está muito grande, com médiuns demais? Não devíamos diminuí-la?

Era a fome com a vontade de comer. Essa, ele jamais ia deixar passar sem fazer uma das suas já conhecidas armações.

Naquela época, ainda trabalhava comigo o Pai Luiz e a Dilma. Por ser meu pai-de-santo, merecia todo o respeito, de acordo com a hierarquia da umbanda, e foi a ele que o Pai Maneco, cumprindo a lei, dirigiu-se:

- Você também acha que a gira deve diminuir?

- Com todo respeito, meu pai, eu acho. Confirmou.

- Vamos ver, disse a entidade . Quem mais de vocês pensa assim? E foi passando de um por um, perguntando.

No total, oito médiuns achavam que havia muita gente e, além de diminuí-la, não deveria entrar mais ninguém. O Pai Maneco chamou os oito citados, no centro do terreiro, o que criou, pela situação, grande expectativa, não só da corrente mas de toda a assistência.

- Se esta é a vontade de vocês, não tenho como deixar de atendê-la. Talvez vocês tenham razão, parece mesmo estar muito grande a corrente para este espaço. Acho melhor diminuí-la. Disse a poderosa entidade angolana.

Todos ficaram aguardando, imaginando como se daria o desfecho da conversação.

- Está decidido. Hoje vou mandar sair do grupo oito médiuns. Cada um de vocês aqui no meio, referindo-se aos que reclamaram, vai me apontar um médium da corrente, e este eu mandarei embora, e no final teremos menos oito entre nós.

Ficaram todos em silêncio, embasbacados. Como ninguém falava, dirigiu-se ao Pai Luiz:

- Pela hierarquia, você será o primeiro a escolher aquele que vou mandar embora. Aponte-me um dos seus irmãos.

- Meu Pai, não posso fazer isso.

- Como? Você não pode, mas quer que eu faça? Ralhou a entidade.

Diante do olhar desenxabido do pai-de-santo, o Pai Maneco voltou à carga, perguntando a um por um dos oito, e todos negaram-se a apontar alguém.

- Se vocês não podem, então nunca mais reclamem do excesso de gente no meu terreiro, porque a porta está e vai continuar sempre aberta, para nela entrar quem o mereça – afirmou, pondo fim ao problema.

Numa ocasião, eu estava incorporado com o Pai Maneco, dando uma consulta a um amigo que queria saber sobre o pai dele. Na minha consciência, ele falava uma porção de fatos, todos relacionados com o atual estado de espírito do falecido pai do consulente. No meio da consulta eu perdi o contato com o Pai Maneco. Ele desincorporou, ficou ao meu lado, e disse:

- Só para você saber, o pai do moço não desencarnou.

Nunca me havia acontecido isso. Fique sem jeito. Reclamei imediatamente.

- Por que o senhor fez isso?

- Pelo que tenho observado ultimamente, você se diz um médium muito bom, gosta de se gabar e ser enaltecido. Se você é tão eficiente assim, resolva. Determinou.

Envergonhado, expliquei à pessoa ter perdido o contato com a entidade. Ele entendeu, deu um sorriso, e disse que depois falaria comigo. Na verdade, eu fiquei furioso. Se fosse mais corajoso teria dito um monte de desaforos para o Pai Maneco e só não o fiz por saber que seria eu quem perderia a discussão. Na verdade a sessão, para mim, acabou ali. Não fui embora por respeito aos meus irmãos. Fiquei quieto, no meu lugar, esperando o encerramento. Na saída, encontrei o amigo. Apressei-me nas explicações.

- Seu pai ainda não desencarnou, não é?

- Não. Graças a Deus ele está muito bem.

- Olha, desculpe a furada na consulta. Acho que me perdi. Justifiquei.

- O quê? A consulta foi excelente. Estou muito satisfeito. Era exatamente o que eu precisava saber. Disse, eufórico.

Continuou narrando as coisas faladas pela entidade. Fiquei sem entender nada, pois, o que ele dizia, era totalmente diferente do que, na minha consciência, entendi a entidade falar.

Até hoje, como o Pai Maneco conseguiu dizer uma coisa e eu entender outra, não sei. Mas a lição serviu.

Durante minha caminhada nos terreiros, tive vários cambonos. Não tive queixa de nenhum deles. Sempre foram respeitosos com as entidades, cuidavam do material de trabalho, interpretavam e transmitiam aos consulentes a palavra, às vezes, ininteligível dos espíritos. Um deles tornou-se um bom amigo. Conversávamos e, sempre que podíamos, trocávamos idéias da religião. Era um umbandista fervoroso. Trabalhava como caixa em um banco. Um dia telefonou-me, muito nervoso.

- Estou de férias, vou reassumir amanhã meu posto no banco e já sei que, por implicância do gerente, vou ser despedido. Explicou, quase em desespero.

- Calma. Hoje, no trabalho, você, como cambono do Pai Maneco, fale com ele. Explique a situação. Tenho certeza, ele vai dar um jeito. Tentei serenar o dedicado amigo.

Palheiro numa mão e o coitê com cerveja preta noutra, o Pai Maneco ouvia calmamente a queixa de seu cambono.

- Amanhã, meu filho, resolverei teu problema. Respondeu, calmo, no seu estilo.

Na saída do terreiro, ele confessou estar confiante na promessa do espírito. Ainda observou:

- Não sei como ele vai resolver, já que o aviso prévio está pronto.

No dia seguinte, atendi o telefone, era ele, todo alegre.

- Você não imagina o que aconteceu. A direção do banco resolveu fazer hoje as mudanças dos gerentes nas suas várias agências. Quando cheguei, contava eufórico, o novo gerente designou-me para ser o chefe dos caixas. Esse Pai Maneco é uma maravilha.

Deixei transparecer minha satisfação pelo feliz final. À tarde, outro telefonema:

- Fernando, você não vai acreditar. Um gerente de outra agência do banco, trocando idéias com seu colega daqui, contou que estava sem sub-gerente. Fui indicado para o cargo e já assumi. Contou, numa alegria irradiante.

- Quer dizer que de caixa despedido, em vinte quatro horas, você foi elevado para subgerente? Regozijei-me.

Passados alguns meses, ele deixou as funções de cambono para ser médium de incorporação, ficando em seu lugar, como minha cambone, a sua linda e simpática noiva. O amigo bancário sentou-se à frente do Pai Maneco, queixando-se:

- Pai Maneco, não sei o que está acontecendo comigo. Está dando tudo errado. Minha vida, tão certa como estava, começa a se tumultuar. Até parece que meus caminhos estão fechados.

- Estão sim, meu filho. Fui eu quem os fechou. Respondeu, fria e calmamente.

- O senhor fechou meus caminhos? Eu, o seu cambono? Respondeu, indignado.

Inclinando-se no toco, para aproximar seu rosto com o do jovem, olhou para ele, fixamente.

- Não é mais. Agora é ela. Asseverou, apontando para a sua meiga noiva. - E, cambono meu, tem minha proteção. Informou, peremptório e zangado. Enquanto você não mudar seu comportamento, que a deixa triste e não for agradar a gordinha dos doces, teus caminhos continuarão fechados. Você como umbandista não pode ser egoísta.

No final do trabalho, soube toda história. Gordinha era a mãe da moça. Fazia doces, e o Pai Maneco é protetor das doceiras, por achar que elas fazem a felicidade, dizendo que o doce torna os homens mais felizes. E ele tinha brigado com ela, não entrando mais em sua casa. A moça é quem ia na casa dele, triste e humilhada, por causa da briga do noivo com sua mãe. Preocupado, no dia seguinte procurei-o, com a intenção de dar alguns conselhos. Não precisou.

- Tudo acertado, Fernando. Hoje cedo fui levar um ramalhete de flores para minha sogra. Comunicou esbanjando humildade.

Este é o Pai Maneco! Esperto e intransigente e, como todo preto-velho, castiga de forma mansa, mas duramente.

Bandeira da Amizade