Terreiro de Umbanda do Pai Maneco, sexta-feira, 18 agosto de 2017

Capítulo 43 - Magia das velas

O fogo é um elemento indispensável por todas as religiões. Ele é o princípio e a sua força é destruidora, mas quando bem manipulada, se torna com a mesma intensidade um grande aliado.

Com imaginação o homem criando a vela prendeu uma chama desta força em um invólucro de cera. Existem velas de todos os tamanhos, cores, tipos e finalidades. Têm todo o tipo de serventia, desde solicitar favores às divindades, até criar ambientes apaixonados em um jantar entre casais. Dentro das religiões todos têm histórias para contar a respeito das velas. Eu tenho a minha:

Hoje eu tenho sete netos, de doze a vinte anos. Amo a todos, porém com mais intensidade aquele que em um momento de sua vida necessita de mim. E foi assim com a Camila, hoje com dezenove anos, uma moça linda, com um sorriso resplandecente, dentes bem formados, altura média, com um gênio doce e afável, sempre pronta a fazer uma delicadeza. Seus cabelos são castanhos escuros e longos, tem um andar comedido, e por natureza tem o dom de reunir as pessoas em sua volta. É uma legitima filha de Iemanjá. Nesses dezenove anos, talvez a época que mais a tenha amado foi quando tinha ou três anos e estava acometida por um forte sarampo.

Não estava dando muita importância à doença por ser comum e de fácil tratamento, quando fui procurado por minha filha Lucilia:

- Quero que você venha ver a Camila. Estou assustada.

Morávamos, como até hoje, bem perto. Quando entrei no quarto da criança adoentada quem ficou assustado fui eu. Estava inteiramente tomada pela doença e dava sinais de estar ardendo em febre, pois mostrava estar fora da consciência. Não titubeei:

- Vamos levá-la imediatamente ao hospital.

No carro, enquanto dirigia o automóvel em direção ao hospital, olhava para a Lucilia. Talvez este tenha sido um dos dias mais tristes que tive. A minha filha, ainda uma mãe em sua plenitude jovem, mantinha os dentes cerrados, estava absorta olhando para o nada, com o queixo trêmulo e os olhos marejados, e segurava em seu colo a sua filhinha envolvida em um cobertor cinza escuro, quadriculado com cores vermelhas fracas. O dia estava cinzento, fazendo o quadro ainda mais triste. Meu Deus! Aquela mãe sofrendo era ainda uma menina. A amargura tomou conta de mim. Nada falei. Apenas sofri, um sofrimento inesquecível e que jamais sairá da minha lembrança. A preocupação com a doença da neta misturou-se com a perspectiva de perder para sempre o sorriso da Lucilia, gentilmente herdado pela Camila. Eu não pensei como um avô sofrendo. Senti-me frustrado e com raiva por estar impotente até mesmo para dar esperança para minha filha.

No hospital o diagnóstico foi grave uma vez que o sarampo tinha se alastrado internamente no seu corpo. Teve que ser levada para o isolamento por ser doença transmissível. No dia seguinte o comportamento da Camila era assustador. Uma tala de madeira prendia a agulha em sua mão para o soro e ela, como um animal, ficava em baixo da cama encolhida em um canto, batendo o braço onde mantinha a tala de madeira, agredindo quem dela se aproximava, atitude que não foi apaziguada nem pelos psicólogos do hospital. No terceiro dia de internamento procurei o médico diretor do isolamento e pedi-lhe:

- Não quero promessas, apenas quero saber a gravidade do doença. Além de ser o avô também sou o chefe da família, e se o pior acontecer tenho que estar preparado para poder sustentar o emocional de todos eles.

Embora fosse um homem delicado o médico ficou me olhando por alguns instantes como medindo o que iria dizer.

- A situação é muito grave e os riscos são grandes. Estamos fazendo todo o possível dentro da medicina para contornar a doença.

Em casa com a Yedda resolvi rogar aos espíritos pela nossa aflição. Sozinho na sala em um pires branco fixei uma vela da mesma cor e orei:

- Pai Maneco. Quero saber do senhor, meu Pai, o que vai acontecer com minha neta? Quando consultei o senhor me disse que ela ficaria boa, mas nada está indicando esse caminho.

Ouvi intuitivamente a poderosa entidade falar:

- Já disse que ela vai ficar boa. Para te acalmar vou deixar uma marca com esta vela.

Fui interrompido com choros convulsivos da Yedda que falava nervosamente:

- Estão tirando líquido da espinha da Camila, pois a suspeita é que a doença tenha atingido a medula.

Fomos ao hospital rapidamente. As horas se passavam, e nós aguardávamos ansiosos o resultado do exame. Apareceu o médico e informou:

- Ótimas noticias. O exame foi negativo. Os riscos desapareceram.

Já tinha chegado em casa bem mais calmo e conversava com a Yedda sobre o fim da nossa angustia, quando me lembrei da vela. Fui à sala e vi o sinal deixado pelo Pai Maneco. A cera normalmente consumida pelo fogo estava derretida ocupando inteiramente o pires branco formando o desenho de uma águia – minha ave da sorte, com as asas abertas e ainda com realces como se fossem as penas, com dois pés negros formados pelo palito do fósforo que usei para acender o pavio. Parecia uma escultura manipulada por um artista. Mostrei o sinal para a Yedda:

- Olhe a magia da vela. – balbuciei, por estar emocionado.

Minha vontade era guardar aquela figura de cera para sempre. Mas a lei tinha que ser cumprida, e fui obrigado a descarregá-la. Joguei-a na água corrente junto com algumas lágrimas de um avô feliz e agradecido.a

Bandeira da Amizade